sábado, 11 de fevereiro de 2017

A mulher e o homem em Genesis

No inicio de Genesis há duas narrativas sobre a criação. Quando se referem ao homem e à mulher, a primeira - que detalha os sete dias - é bem resumida: "E Deus criou o ser humano à sua imagem (...) macho e fêmea os criou". (Gn 1, 27). A segunda narrativa traz o relato da mulher formada de um dos lados do homem, que exclamou: "Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!". E conclui o texto: "... estavam nus e não se envergonhavam." (Gn 2, 22-25) 
Segundo a versão da Bíblia que estou lendo, são releituras da mitologia assírio-babilônica pelos povos hebreus em suas lutas contra as opressões q viviam.
Séculos de história consolidaram a leitura desses textos como justificativa da posição subalterna da mulher. No entanto, é também clara um tônica de reciprocidade e dignidade de ambos. A universalidade da condição de filhos e filhas de Deus em um mundo já marcado por impérios expansionistas, é destacada. E a mulher é recíproca do homem, enfim, "uma só carne". Ambos estavam para usufruir do Éden.
O mundo nessa leitura é visto em termos de equilibrio dinâmico e supõe-se que as caracteristicas fisiologicas de ambos os sexos não dariam lugar a desigualdades, pois eram parte da ordem natural. Gravidez, menstruação, força física... São partes de um mundo a ser usufruído em comunhão.
As instituiçoes politicas, históricas fariam outras narrativas e releituras, consagrando a desigualdade de gênero. Infelizmente as proprias igrejas legitimariam esse princípio em suas caminhadas, mas há importantes mudanças em curso.
Por isso, vale reler essas páginas de nossos simbolos de origem. Lá estão os sentidos mais fortes de nossa condição, para além das mesquinhas instituições que criamos. Luberdade, igualdade e dignidade.
Os que escreveram as narrativas do Genesis exprimiram o Verbo, a Palavra de Deus. Somos seres iguais em direitos e no dever de cuidar da vida.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Nacionalismo anti pessoas e universalismo pró mercadorias


Esse é o nosso mundo. E nem nos damos conta. Abolir barreiras comerciais, viva! Mas abrir fronteiras para seres humanos, inclusive por razões humanitarias... Nem pensar! Esses imigrantes vem se beneficiar de nossos recursos, nossa previdência, como? Fecha fronteira! Muita exigência pra dar visto de entrada no país. Principalmente se o ser humano vier de país pobre e - loucura das loucuras - professar uma religião diferente! Somos todos doidos por aceitar um mundo tão maluco. Consumimos o q vem lá do outro lado do mundo, compramos o q for mais barato no mercado, mesmo se na linha de produçao tiver trabalho infantil do interior do Vietnam por exemplo. Viva o livre comércio! Posso até perder meu emprego pra um trabalhador na tela do computador em Bangladesh! Viva o comércio global! Abaixo a imigração! Os nacionais pobres, de países pobres, que se danem! Quem mandou nascer na periferia do mundo? 
O conceito de fetichismo da mercadoria, do velho Marx, ainda diz muito sobre nossa ordem social, agora em escala global. Nos relacionamos através das coisas, das mercadorias, sem ver as relações socias por detras, nossos verdadeiros vínculos sociais, que escondem exploraçao, concentraçao de riquezas... As mercadorias são como fetiches. O nacionalismo, que um dia teve sua razão de ser, hoje é um fetichismo... Fronteiras nacionais, um apego à tradição. Escondem mais do que esclarecem nossa real condiçao de interdependência planetária. Por isso preferimos protecionismo ao solidarismo global. Afinal, nos relacionamos com os cidadaos que povoam nosso mundo briguento, por meio das coisas, das mercadorias. 
Pensamos, muitas vezes, que religião atrapalha mais do que ajuda. Pena. Muitas delas contêm sabedorias das quais poderiamos construir siciedades de justiça. Na nossa tradiçao bíblica, temos o salmista há alguns milênios puxando a nossa orelha: feliz a nação cujo Senhor é Deus! (Sl. 33:12) Somos todos originários da mesma Criação! Que valor têm nossas nações pelas quais tanto matamos, morremos e infligimos sofrimento? Nesse mesmo salmo se disse ainda: Javé faz desaparecer os projetos das nações. (Sl. 33: 10) Somos nós os modernos? Quanto aprendemos daqueles povos mediterrâneos que reconheciam nossa irmandade global e clamavam para a utopia possível? "... E a bondade de Javé transborda em toda a Terra". (Sl. 33: 5). As viagens além mar levaram e ainda levam uma parte muito truncada dessa herança cultural

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Somos todos ganhadores, pois caminhantes

Compartilho com meus amigos este texto q escrevi dois anos atrás: A gente tende a pensar que é perdedor, por força de olhar para os próprios problemas e dificuldades e, então, se avaliar menor, pequeno, diante dos demais. No entanto, um pouco de atenção e se percebe que tantos têm suas lutas internas e externas, suas dores, fraquezas, medos e obstáculos. E, muitas vezes, precisando de nós e, como nós, de uma forcinha de fora para reanimar a força de dentro. Porém, no fundo, quando se olha para a própria caminhada com generosidade, é lícito concluir que se é vencedor. Não necessariamente porque já ganhou, mas precisamente porque está caminhando. A caminhada é humana, o que quer dizer que ela inclui vacilos, inseguranças, erros, fracassos, sentimentos de perda... O que mais importa é se ela é orientada por valores do bem, se se pensa em outrem assim como em si mesmo e se sonhos, desejos e ideais estão presentes. Não existem só vencedores e não existe segurança total. Existem os caminhos, existem os amigos e os entes queridos com quem os partilhamos e existe a vontade de não passar em branco na aventura da vida que nos é dado viver e que, como sabemos, vida que não nos pertence inteiramente. Ela se vai por circunstâncias que muitas vezes foge ao nosso controle. Daí a importância do cuidado com a vida, nossa e dos outros, lição óbvia mas distante de nossa ordem social cotidiana. É importante lembrar que as religiões representam cristalizações da busca humana em reconhecer e comunicar com o Criador durante a trajetória terrena e, nessa perspectiva, concretizar os sonhos e as aspirações de perfeição. Esta busca inclui, quase sempre a chamada para nossa força interior, nosso eu profundo que guarda o melhor de nós. Na tradição cristã, o apóstolo Paulo tem sempre uma palavra sobre isso, ele que travou árduas batalhas desde a conversão e que,ao final escreveu a bela frase: combati o bom combate. É dele também esta mensagem: "somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos; somos postos em extrema dificuldade mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos mas não abandonados, prostrados mas não aniquilados (...) embora o nosso físico vá se desfazendo, o nosso homem interior vai se renovando a cada dia. (...) Não procuramos as coisas visíveis mas as invisíveis; porque as coisas visíveis duram apenas um momento, enquanto as invisíveis duram para sempre". (Coríntios, 4) Essa fortaleza extraordinária, que moveu homens e mulheres extraordinários que contribuíram para moldar nossa história, é um tesouro a ser alimentado. Parece longe de nossas fraquezas diárias. Mas são balizas humanas. Um convite.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Felicidade pessoal, social e os nossos saberes


Nosso mundo opõe felicidade pessoal e ordem social. Afinal, qual é a maior fonte das nossas tristezas? Doenças, sonhos desfeitos, fracassos, desastres, violência, acidentes, inveja, lutos ... São fruto de crenças, valores, escolhas... individuais e coletivas. Decorrem de desviarmos nossa imensa capacidade criativa, dons da espécie, para fins evitáveis.
Estou no computador, uso GPS, rede social... Muitas inteligências contribuíram para essas conquistas tecnológicas. É bonita a história dos saberes que geraram este lugar onde estou, ainda que história acompanhada de sofrimentos, por exclusões sociais com as quais nos acostumamos desde a noite dos tempos. A tal "luta de classes". Marx, em1848, elogiaria as forças produtivas que séculos anteriores sequer puderam imaginar, que intimidavam até as pirâmides do Egito. Muito antes, em perspectiva teológica, o apóstolo Paulo escreveu em palavras fortes a dialética dos nossos saberes. Opôs a sabedoria do mundo e dos seus "chefes passageiros " à de Deus. (1 Cor 2, 6-8). Acrescentou: "Se alguém dentre vocês se considera sábio neste mundo, torne-se louco para ser sábio. Pois a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus."(1 Cor 3, 18-19). Gosto muito dessa crítica aos nossos modos de pensar, agir e sentir e a nossa pretensão de superioridade frente aos pequenos e pobres. Enfim, quero dizer que sustentamos as injustiças do mundo porque naturalizamos muito do que existe, instituições, leis, costumes, como se fossem inevitáveis. Um exemplo é nossa atual submissão às leis do mercado como se fosse tudo. Cortar benefícios sociais, reduzir direitos, crescer, crescer e crescer para gerar emprego, quando já sabemos tanto de ecologia e das falácias do crescimento econômico a qualquer preço. Quase uma postura religiosa, proclamada por quem pensa se basear em ciência, não em valores e escolhas! Por que não podemos dominar o mercado - uma bela criação humana, aliás - ao invés de sermos dominados por ele? E vivemos na pele a falta de cidadania quando o cartão de crédito, ou a conta bancária está sem fundos. Perguntemos: onde estão concentrados os maiores recursos materiais, financeiros e tecnológicos? Com quem? Em que lugares? Quais os alvos dos orçamentos públicos? Em que nossas divisões de classe, de trabalho, de gênero, de raça, contribuem para as concentrações do que temos de melhor - saúde, conforto, conhecimentos, oportunidades, viagens, usufruir a natureza...?
E assim, cada um de nós vai tecendo a história de sua vida, procurando fazer o melhor, mas encontrando barreiras, por vezes destruindo vidas, por causas evitáveis se nossa capacidade de criar fosse orientada por outras sabedorias. Lá longe, seguindo o Mestre que vamos comemorar no Natal, mais uma vez Paulo falou das loucuras do mundo e nos convidou a enxergar esse mesmo mundo com outros olhos. Pregava uma teologia que é uma das maiores fontes de negação do real, que apela para nossa própria capacidade de refaze-lo, iluminados pela sabedoria divina cujo fundamento é o amor. Difícil! O mal, o injusto, está inscrito não só nos nossos corações e mentes, mas nas nossas instituições, nas nossas cidades, prédios, nos nossos noticiários, muitas vezes em nossas igrejas, enfim, em tudo que vemos com os olhos nos quais somos socializados. Parecendo civilizados, ainda pensamos segundo a Lei do Talião quando pregamos mais repressão como meio de combate à violência, por exemplo. Amor parece palavra fácil. Lendo o próprio Mestre, discernimos seu caráter mobilizador, como nessa passagem: "Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas a sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos". (Mt 11, 25) Ele então convidava aos cansados e curvados pelo peso do fardo, a segui-lo, pois sua carga era suave e o fardo leve (Mt 11, 29-30).
Tenho pena porque muitos de nós temos da religião uma visão distorcida, porque misturada com muito de história, de tradição... enfim, são muitas razões, que não posso discutir aqui. No entanto, eu acho que a fé - que estou ainda querendo alcançar - é poderosa fonte de conhecimento, que nos indaga sobre nossa "natureza humana", criaturas que somos também criadores. De novo, Paulo: "... o homem espiritual sabe discernir tudo e não se submete ao discernimento de ninguém". (11 Cor 2, 16). É uma palavra de liberdade. Sermos todos Filhos, não é trivial. Como aprender e praticar essa herança? Como conciliar mais e mais felicidade pessoal e coletiva?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Ensino de qualidade

Compartilho texto da Aline Maneschy Macambira: sobre ensino de qualidade:
Já tive oportunidade de estudar em outro país (no período em que morei na Australia) onde a escola funcionava com matérias eletivas dessa forma. Podíamos escolher entre fotografia, teatro, economia doméstica, marcenaria, agricultura, dança, línguas estrangeiras diversas entre outras. Além disso, eu participei do coral e atuei no musical da escola (uma super produção que foi apresentada em nível quase profissional e assim era tratada pela instituição) foram várias matérias e atividades que davam amplo conhecimento sobre a vida e ensinam o aluno a buscar suas paixões e ambições. Ensino não é só decorar pra marcar certo em uma prova, jovem não tem que passar horas e horas por dia pra saber repetir o que lhe foi dito. Gostaria que o Brasil pudesse caminhar nessa direção mas as vezes parece que caminhamos pra trás.
Obs: sabe o que era obrigatório e amplamente incentivado nessa minha escola? Artes, educação física (com diversas modalidades) e sociologia e filosofia (com aplicação bastante pratica e voltada à formação da Australia enquanto nação)
Além disso, as aulas de ciências eram em laboratórios onde lidávamos diretamente com a pratica do que estávamos aprendendo, existiam clubes de matemática com competições diversas que eram quase times esportivos na escola, as aulas de língua envolviam leituras de romances e debates sobre eles e ao fim do ano o aluno deveria produzir um texto seu com personagens e uma narrativa elaborada.
Antes que alguém me pergunte: estudei em uma ESCOLA PÚBLICA enquanto morava na Austrália, que não tinha incentivo privado. Quando precisávamos de algo ou surgia um projeto para a escola que não estava previstas no orçamento os alunos, professores e comunidade local se reuniam e faziam várias atividades e trabalhos que ajudassem a reunir dinheiro.
E aí Brasil? Vamos lutar do jeito certo pela educação? Vamos escolher de uma vez por todas que tipo de futuro queremos?

Feliz Círio

Feliz Círio! Desejo aos meus amigos, católicos ou não, crentes ou não, todos que temos a graça da vida, esse dom maior que tanto desperdiçamos, que a paz seja sua companheira. A paz que vem de nosso destino maior, que vai além das mazelas do mundo que construímos. Desejo que possamos ser tocados pela lógica do filho da Senhora de Nazaré. Lógica que acima de tudo propõe fraternidade e justiça neste mundo. Que nos propõe viver a perfeição a que estamos destinados, do paraíso, da nova sociedade. A jovem mãe de Jesus parecia frágil. Mas era uma jovem de coragem que aceitou uma missão que rompia as barreiras sociais de um mundo tão injusto quanto o nosso hoje em dia. Então, que a força e a coragem da nossa Mãe de Nazaré e a Palavra de seu filho, nosso Mestre, nos inspire sempre. Obrigada Senhor por este Círio, pela vida, por minha família, meus amigos. Ilumine nossa cidade, sobretudo abençoa os mais vulneráveis, os excluídos, os pequenos deste mundo. Seu filho nos ensinou: o mal que fazemos aos pequenos é a Deus que fazemos. É a nós mesmos. Salve Rainha!

Adeus Jean!

Partiu para junto do Pai o meu querido ex-orientador de mestrado, parceiro de pesquisa, referencia intelectual, professor, apoiador... Jean Hébette! Uma vida tão rica que é difícil destacar alguma parte. Talvez o maior estudioso do campesinato amazónico, que uniu ciência, pesquisa rigorosa e ação de promoção dessa categoria e de seus movimentos sociais. 
Era sacerdote, fez sua missão também na academia e junto a tantos e tantos alunos... Ele tinha uma alegria genuína. Era dessas pessoas que realmente ficavam alegres com as alegrias dos amigos. E realmente se indignava com injustiças. Que descanse em paz! Obrigada amigo!!!!

Amor é risco

Amor é sempre risco, como sabem os amantes. Por ironia - diante do que fazemos com nosso mundo - nascemos do amor... Tanto ódio, diferenças inventadas como razão para excluir. Ironia, não?
Mas, o amor paixão tem elementos de nitroglicerina. Quando se rompe, com um dos lados ainda a bem querer, abismos chamam a alma. Não é preciso ir... Porque amor paixão deixa marcas no corpo e no coração. Sabedoria é usar as marcas como remédio, beleza no caminho a seguir trilhando e traduzi-las nas muitas formas em que o amor é possível e necessário...