terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Reciprocidade e laços sociais

Marcel Mauss foi um dos grandes cientistas sociais, um clássico, visto como um dos pilares da moderna Antropologia. Recentemente, vem sendo redescoberto pela Sociologia Econômica, especialmente sua obra Ensaio sobre a Dádiva. Ele lançou um olhar original sobre as interdependências humanas, que fundamentam a vida social; as interdependências no plano material, que estrtuturam a divisão do trabalho e as trocas, assim como as interdependências no plano cultural e simbólico. Segundo sua análise, as relações sociais não são apenas funcionalidades, mas  símbolos, com vários significados, muitos não ditos. Uma relação não se esgota na função, mas implica sujeitos, considerações recíprocas, expectativas, estratégias e incertezas.

Uma das contribuições fundamentais do referido estudo está nos conceitos de dádiva e de reciprocidade, que constituem, conforme a análise de Mauss, a base dos laços sociais. Ele observou, notadamente a partir de materiais etnográficos de sociedades insulares do Pacífico e de indígenas da América do Norte, que as relações sociais entre pessoas, assim como entre grupos, envolvem, em primeiro lugar, a circulação de bens e serviços sob a forma da dádiva. Além de uma virada teórica no campo específico das Ciências Sociais, o autor atacava assim a perspectiva utilitarista em voga na ciência da Economia, que explicava a ação social, particularmente a ação econômica, pelo auto-interesse dos indivíduos. A equivalência nas trocas, via preço por exemplo, asseguraria, nessa ótica, a satisfação dos agentes econômicos que vão ao mercado para satisfazer seus objetivos e o fazem tanto melhor quanto menos obrigações extra-econômicas os vinculam. Marcel Mauss analisou o quanto a dádiva, o oferecimento de algo ou de um serviço, suscita a relação social, que se concretiza quando o destinatário aceita, recebe a coisa. Ao fazê-lo, expressa a aceitação do vínculo, do laço social que está sendo proposto e, por conseguinte, implica-se na reciprocidade. Por exemplo, receber um presente, realizar um convite, pedir um favor, oferecer um favor, são práticas simbólicas que engajam, manifestam consideração pelo outro e fundam compromissos recíprocos. É essa longa cadeia de dar, receber e retribuir que forma uma comunidade, uma sociedade, ou um conjunto de sociedades que intercambiam. Reside aí o princípio fundador da vida comum.

Enquanto a relação monetária, o pagamento do preço devido pelos bens e serviços trocados encerra a relação, propiciando a satisfação do consumidor que adquire o produto e se retira da cena para consumi-lo, as Ciências Sociais vão olhar para além, de maneira a perscrutar justamente o que alimenta as relações, os vínculos humanos, intra e extra mercado. Então, compreendem que a própria produção e circulação mercantil implicam dimensões extra utilitárias; há simbolismo e busca de sentidos múltiplos também em uma transação econômica. Há motivações ligadas à interação, à participação e ao reconhecimento social, ao entregar mais do que se recebe. É óbvio que o mercado moderno, asséptico, contábil, regulado pelas instituições econômicas, cumpre funções capitais, de cunho instrumental e segundo a lógica da eficácia. Mas ele é, na perspectiva do liberalismo puro, o que Karl Polanyi chamara de "moinho satânico", pois no decorrer do século XIX, reduzira a natureza e os homens a mercadorias, com todas as consequências adversas. E invertera as interações humanas básicas, conforme analisara Marx, no processo que denominou fetichismo da mercadoria. Marcel Mauss, assim como Polanyi, analisaram os mercados como parte das relações sociais, inseridos na teia maior da vida social. Daí esses autores serem adeptos das políticas sociais, do Estado de Bem Estar Social, das proteções sociais, na medida em que a vida social não é feita da circulação de coisas e práticas segundo a lógica do cálculo, mas sim de pessoas em suas relações sociais, necessariamente culturais e simbólicas; envolvem tanto interesse de ganho, quanto desinteresse.

Na perspectiva da dádiva, os aspectos da obrigação e do interesse que motivam as relações e as trocas, conquanto estejam presentes, não aparecem em primeiro plano. Ao contrário, tudo é feito de forma a manifestar o valor do outro, sobretudo a importância do laço social, inserindo seus agentes na rede de sua coletividade. Dádivas e reciprocidades ocorrem entre sujeitos, que agem de maneira deliberada e se lançam nas relações concretas, nas tríades dar, receber e retribuir. 

Era essa uma maneira muito original de apreciar a natureza das relações sociais. Há importantes implicações epistemológicas nessa forma de olhar a realidade. Na Sociologia Econômica contemporânea, diferentes autores classificam a perspectiva de Mauss como estando a meio termo entre o individualismo  e o holismo metodológicos. Ambos partem de postulados exteriores ao campo das interações, ao passo que a dádiva traz a análise para o plano das relações sociais, dos atores que se lançam na aventura de tecer e manter vínculos sociais. Apenas os vínculos herdados, obrigatórios, ou a cultura compartilhada não asseguram a reprodução das sociedades e de seus agentes. 

P. S.: Essas reflexões me vêm a propósito do meu aniversário ontem, uma ocasião na qual a gente pode se colocar, aparentemente, na condição de simples destinatário dos presentes, das dádivas e manifestações de apreço, puro recebedor sem obrigação de retribuir. Uma posição de privilégio que a gente acha merecida, uma "superioridade" sobre os outros sentida como justa nesse dia especial. Mas é uma ilusão consentida. Dura vinte e quatro horas. É gostosa e passageira. A gente depende mesmo da nossa teia de relações e das muitas doações e concessões que fazem a vida cotidiana. Sobretudo, dos vínculos que estão muito além dos nossos contatos, espalhados em diferentes espaços e tempos. Mas aí, frequentemente, a reciprocidade tende a ficar embaçada, perdendo-se de vista os nexos entre nós e os tantos outros distantes, o que lhes ocorre e o que lhes falta.

Um comentário:

  1. É sempre uma dádiva te ler, Cristina. Transformas as teias conceituais em formas simples de entendê-las. Beijo grande.

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