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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Atingidos de Belo Monte e a divisão do trabalho no século XXI


No noticiário desta manhã, mais uma manifestação de insatisfação por parte de comunidades atingidas pela Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. São índios Juruna que bloquearam o acesso a um dos canteiros de obras, reclamando dos prejuízos à pesca devido à turvação das águas dos rios. Eles reivindicam compensações ambientais e a construção de poços artesianos nas aldeias. A situação de tais populações, que dessa forma aparecem como problema, um obstáculo no desenvolvimento, ganha uma luz interessante se analisada a partir do quadro de referência que orientou a reflexão dos fundadores da sociologia na virada do século XIX para o XX. Em especial, as reflexões sobre o significado da divisão do trabalho. Destaca-se a obra de Emile Durkheim, na esteira da pioneira análise de Adam Smith, um século antes, que vira na divisão do trabalho em ascensão um fator chave da riqueza das nações

Mostrados assim, interrompendo os trabalhos, a imagem de alguns de seus representantes sentados à margem da estrada tendo a dialogar um funcionário da empresa Norte Engenharia, suscita a indagação das bases em que assenta o tal diálogo. A indagação não se aplica apenas a este  caso específico, mas às várias comunidades que se consideram atingidas pelos efeitos da barragem e injustiçadas tanto nas compensações recebidas quanto em seu direito legítimo de voz e poder de decisão nos processos em curso. Perguntas básicas: Há reconhecimento mútuo entre os atores em confronto? São os grupos indígenas plenamente reconhecidos, com um lugar social assegurado no conjunto da sociedade brasileira? Idem para os grupos camponeses e os extrativistas que utilizam os recursos naturais diretamente impactados.  

Por outro lado, a construção da hidrelétrica, pelas vicissitudes que marcam sua trajetória, pela tônica das relações com as populações locais, inscreve-se em uma tradição de ausência de pleno reconhecimento nas relações entre o Estado brasileiro e a sua porção norte, a região amazônica e seus entes federados. O Estado do Pará - e particularmente a maioria das populações locais - não dispõe do pleno reconhecimento de suas contribuições ao desenvolvimento do conjunto da sociedade nacional. Portanto, é parceiro menor. O próprio fato de a Eletronorte não ter escritório em Belém testemunha um quadro de desconhecimento, de estranheza. Portanto, falta a premissa básica do reconhecimento das mútuas contribuições que fundamenta as trocas baseadas na divisão do trabalho social, na perspectiva daqueles pensadores clássicos. Os termos da cooperação entre as partes não são negociados, mas impostos. Não se trata propriamente de troca, mas de uma apropriação quase unilateral, com compensações mal negociadas .

Estas reflexões vêm a propósito da re-leitura do conceito de divisão do trabalho para as aulas de Sociologia do Trabalho.  A tese original de Emile Durkheim era de que a divisão do trabalho própria das modernas sociedades industriais, longe de se resumir a processo econômico, era expressão de um novo tipo de solidariedade social, de um novo tipo de vínculo entre as pessoas, que se relacionam umas com as outras não mais por tradição, por hierarquia ou servidão, mas por interdependência, por se necessitarem mutuamente. O organismo como um todo não pode prescindir de suas várias funções, mesmo as aparentemente mais simples. É claro que a abordagem tinha muito de utopia. As greves e crises econômicas apontavam graves problemas e, nesse sentido, ele cunhou o conceito de anomia, para explicar os problemas de integração que se mostravam, por exemplo, no aparente aumento do suicídio, precisamente em sociedades avançadas economicamente. Já Marx tratara o fenômeno sob a lente da exploração do trabalho e, inicialmente, abordara o trabalho proletário como alienação. E Max Weber discutia o avanço da burocratização com a crescente racionalização das condutas que se consolidava nas várias esferas da vida social. Ela compunha o contexto de previsibilidade e de paz social necessário aos investimentos capitalistas e sua contabilidade   racional.

Mas, como é próprio dos autores clássicos, a abordagem da interdependência fruto da divisão do trabalho social, de Durkheim, ainda contribui para aguçar nossa reflexão sobre o que nos cerca. Em seus esforços para consolidar a Sociologia como ciência e, portanto, seu método próprio de tratar o social, ele estudou a divisão do trabalho como fonte de solidariedade. Sociólogo, recusando-se a ver na especialização crescente das funções somente o mecanismo econômico, fator de produtividade, via nelas, ao contrário, um testemunho de como as "partes" da sociedade precisavam umas das outras e tanto melhor quanto mais se especializavam para produzir o bem-estar do conjunto, dividindo as funções. A estruturação do Direito em áreas correspondentes à complexidade da vida era uma prova da necessidade de novas regras de convivência, não apenas regras repressivas (Direito Penal), mas também restitutivas (os ramos econômico, processual, trabalhista, familiar...). Dizia ele:

"... o mais notável efeito da divisão do trabalho não é aumentar o rendimento das funções divididas, mas torná-las solidárias. Seu papel, em todos esses casos, não é simplesmente embelezar ou melhorar sociedades existentes, mas tornar possíveis sociedades que, sem elas, não existiriam. (...) É possível que a utilidade econômica da divisão do trabalho tenha algo a ver com esse resultado, mas, em todo caso, ele supera infinitamente a esfera dos interesses puramente econômicos, pois consiste no estabelecimento de uma ordem social e moral sui generis. Há indivíduos ligados uns aos outros que, não fosse esse vínculo, seriam independentes; em vez de se desenvolverem separadamente, concertam seus esforços; são solidários, e de uma solidariedade que não age apenas nos curtos instantes em que os serviços se intercambiam, mas que se estende bem além disso". (p. 27) 

Subjacente a essa análise, está uma idéia de igualdade social básica entre os membros do coletivo, o que não quer dizer ausência de diferenças. Afinal, ainda que as contribuições de uns e outros sejam diferentes, elas não são menos necessárias ao todo social e as trocas a que dão lugar só se podem estabelecer entre sujeitos que se reconhecem parceiros na troca, com contribuições recíprocas, conquanto diversas. Pode-se pensar aqui idealmente na sociedade brasileira pluriétnica e multicultural, com sua identidade de nação fundada no reconhecimento mútuo de suas partes e, consequentemente, na função distributiva dos frutos do que essa sociedade em conjunto produz. 

O que me interessa reter no "velho" argumento durkheimiano é, justamente, a noção do reconhecimento social básico, uma noção que tantas vezes falta em contextos onde as desigualdades criam fossos sociais. Nada a ver com o sentido de solidariedade social orgânica, formulado pelo autor, ainda que situações de pobreza, miséria extrema, possam dar lugar a ações de "ajuda" aos necessitados. Grupos sociais concebidos apenas como necessitados, ou grupos aos quais não se atribui  reconhecimento social pleno, não são parceiros do intercâmbio social. São tidos  como incapazes de estabelecer trocas que valham a pena, ou  são vistos como carentes de recursos que justifiquem sua inserção na divisão do trabalho e suas trocas. As cenas das malfadadas negociações que cercam a construção da hidrelétrica remetem a esse tema do reconhecimento dos vários outros em presença.  Tem-se, aqui, déficits de reconhecimento: cultural, social, étnico, econômico, ambiental... 

Pode-se dizer com razão que essas idéias fortes do início do século XX, assentadas na idéia de sociedade, fazem pouco sentido hoje.  Mas elas ainda "são boas para pensar" sobre o nosso mundo. Os episódios que marcam a posição histórica das populações amazônicas nas negociações com o país, com outros países, estão a reafirmar os déficits de reconhecimento. As relações são de dominação, a integração se dá  sempre em benefício de interesses dominantes, o que limita já à partida os termos do intercâmbio, a menos que as capacidades de resistência consigam alterar alguns desses termos. As palavras do fundador da sociologia moderna, ao interpretar a divisão do trabalho como fonte da solidariedade moderna, mal se aplicam às relações de promoção do "desenvolvimento regional" entre nós, já de há muito tempo. 

É assim que no âmbito da Sociologia a própria idéia de sociedade como um todo mais ou menos ordenado, como um sistema integrado, com uma economia sustentada pelo Estado-nação, perdeu força. As levas de desempregados no cerne mesmo do mundo desenvolvido e a fraqueza dos respectivos governos em reverter as tendências de mercado estão a demonstrar que a idéia de sociedade - com suas partes ligadas pelo trabalho social - implodiu. O mesmo vale, entre nós, para o ingresso massivo de jovens na criminalidade.

O indivíduo moderno nasceu livre das amarras da tradição. Sobretudo nos anos dourados do capitalismo, entre meados dos anos 1940 a meados dos 1970, esteve relativamente protegido em sua liberdade pelos direitos de cidadania, esses instrumentos da solidariedade orgânica. Hoje, esses direitos são tornados supérfluos, um peso para a sobrevivência dos agentes no mercado. É preciso que cada um busque seus meios de sobreviver. Mas, o indivíduo do século XXI, como analisou Robert Reich no livro Supercapitalismo, cindiu-se em lados conflitantes: de um lado, é consumidor e investidor (à cata, portanto, das melhores taxas de retorno para suas aplicações); de outro, é cidadão de uma democracia. Ao mesmo tempo em que quer políticas sociais e proteção ao emprego e ao trabalho, não hesita em cobrar dos cuidadores de suas poupanças, as aplicações mais rentáveis. 

Se não é possível vislumbrar a solidariedade global que poderia conduzir ao internacionalismo das lutas sociais sonhado no século XIX, movimentos sociais hoje chamam a atenção para projetos locais de sociedade, para experiências de alternativas econômicas e à construção de novas redes sociais. São fundadas em bases menos abrangentes, mas não menos utópicas e enérgicas. 

Obra consultada: DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo, Martins fontes, 1999.

Notícia sobre manifestação dos índios Juruna está disponível em: 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Nos dois lados do Atlântico, um novo livro

Estamos lançando na Feira do Livro, no próximo dia 28, às 18 horas, pela Editora Paka-Tatu, o livro "Nos dois lados do Atlântico: trabalhadores, organizações e sociabilidade". Eis a apresentação:

Com um misto de gratidão, satisfação e honra, apresentamos esta coletânea, que é produto de uma rede acadêmica e institucional coordenada pela Universidade Federal do Pará, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), tendo como colaborador o Centro de Investigação em Sociologia Econômica e das Organizações, do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa - Iseg/UTL-Socius. Essa rede se constituiu por meio da execução conjunta de projetos de pesquisa levados a efeito entre os anos de 2007 e 2011, com apoio do CNPq e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará – FAPESPA. Da cooperação já havia resultado um primeiro livro, intitulado “Organização social do trabalho e associativismo no Contexto da Mundialização: estudos em Portugal, África e Amazônia”, lançado em 2010, publicado pelo Núcleo de Meio Ambiente (NUMA), da UFPA.

Encontram-se aqui estudos sociológicos e antropológicos realizados em Portugal, Moçambique e Brasil. Algumas de suas autoras e autores, vinculados a outras instituições, são nossos parceiros acadêmicos por meio de outras redes e, gentilmente, aceitaram participar desta produção. Todos os que assinam esta coletânea partilham um objetivo semelhante, que é contribuir para desvelar múltiplas manifestações da globalização econômica, em especial do ponto de vista do trabalho, das organizações de trabalhadores e das relações de sociabilidade que lhes são pertinentes. Em particular, aproxima-nos o interesse em analisar como se constituem associações, redes, grupos sociais, equipes, que exibem distintos graus de permanência e formalização. E, assim, verificar em que medida exprimem ligações substantivas entre os membros, conducentes à implementação de projetos colaborativos, de gestão organizacional e de geração de meios de vida autônomos e sustentáveis.

Enfocamos o trabalho tal como é vivenciado em diferentes meios sociais: mercado informal, empresas, organizações de saúde, artes, trabalho em equipes virtuais, trabalho autônomo e comunidades de pescadores artesanais e agricultores.  Examinamos territórios em constituição por parte de categorias rurais tão diversas quanto os assentados da reforma agrária no Estado do Pará, os agricultores no oeste de Portugal e os agricultores e pescadores em Moçambique. Em se tratando de organizações, redes sociais, equipes, “companheiros” de trabalho, promotores de desenvolvimento territorial, a dimensão da comunicação é incontornável, uma comunicação cuja premissa é o reconhecimento dos vários outros, direta e indiretamente envolvidos nas ações coletivas. As dificuldades de efetivo diálogo entre atores desiguais em poder, portadores de culturas e tradições diversas, são aqui consideradas.

Cumpre-nos registrar nosso agradecimento especial aos “informantes” nos diferentes campos de estudo, pessoas que generosamente compartilharam suas experiências e tornaram possível este livro. E, ademais, às agências financiadoras, sobretudo ao CNPq e à FAPESPA, pelo inestimável apoio.

Boa leitura!
Belém (do Pará) e Lisboa, 25 de setembro de 2012

Maria Cristina Maneschy
Ana Calapez Gomes
Ida Lenir Gonçalves

domingo, 13 de maio de 2012

Cadeia produtiva de mães

Dia desses, em discussão em aula sobre relações de gênero e trabalho, discutimos dois textos de literatura - de  Cora Coralina (Tesouros da Casa Velha) e de Maria Lúcia Medeiros (Velas por quem?). Enfocavam uma biografia outrora típica de mulheres pobres em cidades provincianas do Brasil, que começaram cedo nas lides domésticas em casa alheia. Pois bem, nas discussões em sala, surpreendemo-nos, alunos e professora, com os casos de uma aluna e um aluno que eram, respectivamente, filha e neto de uma dessas meninas "crias" em casa de família. Menos surpreendentes foram os relatos de várias alunas, de que podiam estar ali, investindo em sua formação profissional, por disporem dos serviços de uma mulher, geralmente uma empregada doméstica, a quem confiam filhos pequenos ou alguém na casa que requer cuidados contínuos, uma pessoa idosa por exemplo.

Manifestavam-se ali traços comuns do exercício da maternidade entre nós. Um deles, a "conciliação" vida familiar e atividade profissional, assunto de mulheres. Alunas se referiram a essa experiência, reforçando o que a literatura pertinente aponta quanto ao fato se ser essa uma solução que ainda diz respeito, sobretudo, às mulheres. São elas, principalmente, que enfrentam os dilemas e as culpas quando as formas de acomodar ambos os planos, ambos os sonhos, são atrapalhadas, desajeitadas, não se acha a pessoa certa, não se tem o tempo desejado, não se supre devidamente as carências, das mães e dos filhos. Outro traço comum verificado foi a frequência com que nossas "ajudantes", "secretárias", empregadas domésticas que são, muitas vezes, cuidadoras sem o reconhecimento profissional pertinente, também fazem a conciliação vida e trabalho. Também elas recorrem a outras, da família ou de fora, tirando parte dos rendimentos para pagar uma cuidadora para seus próprios filhos e parentes.

E, assim, desse modo privado, doméstico, seguimos resolvendo parte da tensão da chamada conciliação entre vida familiar e trajetória profissional, com maiores ou menores possibilidades, pois as desigualdades sociais são profundas. Daí me ocorreu a idéia do título desta postagem sobre o dia das mães, a de uma cadeia produtiva que efetiva a maternidade. Trata-se de uma rede social em grande parte informal e silenciosa, feita de trabalhos e cuidados, afeto e conflitos, reconhecimento e invisibilidade, direitos conquistados e, não obstante, negação de direitos.

E as mães seguem dando vida, amor, cuidados, até nos nomes que escolheram para os filhos, sozinhas ou compartilhando a decisão com os companheiros, nomes que refletem o fato de que, especialmente naquele instante em que deram à luz, sonharam um futuro bom para os seus.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Socorro! E os peixes?

Na atual leva de reclamações sobre a carestia dos peixes nos mercados de Belém - afinal, a Semana Santa está chegando - as dificuldades que os pescadores enfrentam, no mar, para alcançarem o pescado, cada vez mais distante e escasso, são lembradas. É uma constatação importante. Espero que isso gere uma maior consciência entre nós, ávidos de pescada amarela, serra, dourada, filhote, pescada branca, camarão - para ficar na zona costeira - de que a pujança da pesca no Pará, seguidas vezes primeiro produtor nacional, deve-se  mais à fertilidade das águas do estuário amazônico, do que ao cuidado na exploração. Cuidado requer, dentre outras coisas, investimentos em infraestrutura de conservação e de comercialização, além da auto-capacitação das categorias de pescadores artesanais para administrarem sua produção.

Os peixes oriundos da pesca extrativa representam o último alimento de origem animal em grande escala sem manipulação humana, ou seja, ao natural, com todas as virtudes dessa condição. É um bem precioso! Ainda abundante entre nós, o que não é o caso para a maior parte dos recursos pesqueiros de grande interesse comercial no mundo, como divulga amplamente a FAO em seus relatórios anuais sobre o estado da pesca e da aquicultura. A aquicultura não substitui a extração, levanta questões ambientais e sociais, embora seja também uma frente produtiva vantajosa em muitos sentidos.

Na prática, o Pará não faz gestão pesqueira integrada. Não tem estruturas participativas, como conselhos, fóruns, mecanismos consultivos nos quais se desenhem políticas e instituições de gestão apropriadas, segundo critérios conhecidos e legitimados. Muito menos organizações de consumidores que venham ampliar os horizontes de tomadas de decisão no setor pesqueiro. Do lado dos consumidores, vê-se o peixe sair, estragar-se, faltar, encarecer, mas é como se a generosidade da natureza desse conta de renovar os estoques. Ou seja, sem crítica, sem maiores preocupações, sem demandas, sem protestos... Na costa paraense, as experiências de gestão pesqueira participativa que estão se fazendo nas reservas extrativistas marinhas, limitam-se às respectivas jurisdições. É necessário que seja assim, pois são instituições jovens, complexas no seu desafio de unir os vários atores locais e assegurar, junto com a promoção de pesca sustentável, os direitos territoriais das comunidades de moradores e usuários. Por outro lado, a administração pública do setor tende a se limitar a medidas específicas, como as que instituem os defesos anuais - aliás sem participação dos principais atores, daí os inúmeros problemas de malversação de fundos, desvios de objetivos etc. E há as intervenções em caráter de urgência, como a decisão judicial que há pouco mais de um ano proibiu a comercialização da carne processada de caranguejos, dentre outros fatores por falta de higiene no beneficiamento.

É notável que a concepção legal de pescadores artesanais ampliou-se, passando a incluir agentes em terra, com destaque para as mulheres. É notável, também, o reconhecimento internacional de que gestão pesqueira centralizada no Estado é ineficiente e que a gestão consistente carece de incorporar conhecimentos locais, conhecimentos tradicionais, em intercâmbio com os conhecimentos científicos, em mútuo enriquecimento. O Estado conta com cursos de engenharia de pesca, oceanografia e outros voltados aos ecossistemas aquáticos e seus recursos. Mas, permanece a questão: como articular os vários esforços de produção, de geração de conhecimentos, as demandas de movimentos sociais inspirados nos princípios socioambientais, em socorro aos peixes e, consequentemente, em socorro dos que deles dependem?

Vale lembrar, ainda, que há uma crescente compreensão de que há elos entre diversidade social, isto é, diversidade de comunidades que utilizam e manejam recursos pesqueiros em escala local, e a sustentabilidade dos estoques de peixes. Assim como se reconhece, em agricultura, que os monocultivos em larga escala em meio tropical são problemáticos, porque empobrecem os solos e a diversidade de espécies florestais, ao mesmo tempo em que sonegam direitos de populações rurais e concentram propriedade e acesso. Portanto, a diversidade de culturas não interessa apenas aos diretamente implicados, lá nos sertões. Na pesca, o elo também se faz presente. Comunidades costeiras que exploram recursos pesqueiros com base em diferentes contextos sócio-culturais, contribuem para a diversidade de espécies. Mas, além dessa noção, é preciso que os envolvidos, organizações de pescadores, organizações de pesquisa, grupos de consumidores e governos se constituam efetivamente como atores em um processo de gestão pesqueira compatível com a exuberância das águas, nas praias, rios, lagos e igarapés.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O gari e a cracolândia

No atual processo de desocupação do lugar chamado cracolândia em São Paulo, chamou-me a atenção no noticiário de três dias atrás, a resposta de um gari entrevistado quando efetuava a limpeza de um aposento que servira de abrigo para consumidores de drogas que moram, ou passam muito tempo ali. Um volume indizível de detritos, absoluta falta de higiene. Naquele quadro, o repórter perguntou ao rapaz, que portava uma máscara de proteção da boca e do nariz, o que achava de espaço tão inóspito servir de moradia. Ele virou-se para o outro lado e, por um instante, deu a impressão de que não iria responder. Após uma breve reflexão a resposta veio firme:
- É o sistema. A culpa disso aqui é do sistema. Se tivesse educação para os jovens, um lugar desses não existia.
Uma resposta inesperada, porque fez de imediato uma crítica política ao invés de se deter no lugar, alvo da questão e da tarefa que lhe ocupava no momento. Resposta genérica por certo, mas certeira. Aquele lixo ali, material e humano, tem uma conexão com os arranjos sociais mais amplos da cidade, do país. As políticas sociais e a educação tecem alguns dos fios dessa rede que inclui a cracolândia.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Meu primeiro Mac

Vivi a transição entre a máquina de escrever - fiz curso de datilografia aos 16 anos, em um curso chamado TED ("tempo é dinheiro"!) - e o computador, o que me rendeu até hoje a facilidade de digitar com os dez dedos e poder, inclusive, conversar ao mesmo tempo em que digito. Devo isso ao TED. 

Assim, cedo me acostumei a escrever meus textos a lápis e depois datilografar. Que complicado era corrigir ou alterar um texto já digitado!  Inimaginável o corta e cola de hoje! Outro mundo! Além disso, eu não achava possível escrever um texto diretamente na máquina, mesmo a elétrica IBM, o suprasumo da rapidez na digitação, com fita corretiva, que começava a exibir incríveis memórias de várias linhas ou página inteira. A Olivetti competia com a IBM nesse mercado. Para mim, a primeira versão com o lápis e a borracha era uma etapa indispensável da criatividade. Não imaginava que bem pouco tempo depois essa ordem de trabalho seria suplantada pelas facilidades do editor de texto no computador.

Nessa época, final dos 80, essa linha de inovações maravilhosas que levaram da máquina manual às elétricas foi brutalmente interrompida. O computador pessoal começou a se popularizar. Não era mais restrito às grandes organizações e a conhecedores do sistema DOS, que parecia tão misterioso com suas profusões de palavras e códigos em uma tela escura. Lembro de quando prestei exame vestibular e fora advertida ao longo do ano pelos professores, sobre o cuidado que deveria ter ao marcar o cartão de respostas que seria lido pelos computadores, máquinas tão grandes quanto distantes.

O impulso extraordinário para a popularização foi dado com a interface amigável e o reduzido tamanho dos primeiros Macintosh, bonitinhos, fofinhos. Seus recursos visuais bem humorados e o fato de reunir na mesma caixa a tela e o motor, começaram a redesenhar nossa relação com o computador, com o trabalho e com a vida de uma maneira geral, pois iniciava então a grande alteração na distribuição do nosso tempo diário entre o trabalho e a vida pessoal. O computador entrou nas casas para ficar.

Enquanto estive na França, em cujas instituições de ensino o Mac conhecia grande expansão, não tive problemas de assistência técnica. De um lado, a máquina robusta praticamente não apresentava defeitos. De outro, colegas brasileiros da área da informática nos repassavam as últimas novidades. Outra característica de nossa era ia se firmando, a das inovações constantes e compulsórias, a exemplo dos anti-virus e das novas facilidades de programas. A dificuldade foi ao voltar para Belém, em que o número de usuários Mac contava-se em unidades. Quando meu primeiro computador começou a dar os primeiros sinais de cansaço, com cinco anos de vida útil, a peregrinação em Belém junto a técnicos conhecedores da marca não foi fácil. Por essa época, a Microsoft já conquistara o mercado com seus PCs, colhendo o sucesso da abertura do sistema Windows para diversos fabricantes, o que não acontecera com a Apple. A chave para a persistência no Mac era, então, o fato de que seu uso continuava muito mais fácil do que o PC e menos vulnerável aos vírus. Enfim, era uma questão de ser fã da marca. Quem estava habituado ao  seu sistema operacional achava irritante usar um PC. Até hoje uso um Mac. De vez em quando ainda peno para converter algum texto que recebo. Mas as vantagens superam esses probleminhas. E os sistemas hoje conversam muito mais entre si.

Em uma viagem ao Québec em 1997, tomei conhecimento de uma "associação de amigos do Macintosh", evidência de uma ligação à marca que ia além da funcionalidade ou gosto. Testemunho da singularidade e do gênio de Steve Jobs, uma aura que Bill Gates, seu maior concorrente, não conseguiu copiar, embora comercialmente a Microsoft tenha superado de muito a  empresa do antigo companheiro de invenções.


Memórias da máquina de escrever e meu primeiro Mac. Clique em LEIA MAIS, logo abaixo.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

As mulheres migrantes e a agricultura familiar

Uma característica demográfica que tem sido observada no Brasil é a masculinização da população rural. Os dados censitários mostram que entre 1991 e 2000, houve uma queda de 10% da população rural brasileira, sendo que para as mulheres, a queda foi de 11%. Em 30 anos, elas passaram de 48,7% da população rural para 47%. A saída se dá em maior proporção por parte de jovens com mais escolaridade, assim como para os jovens mais escolarizados. É importante compreender o que significa esse movimento. Esta postagem baseia-se no artigo "Muito trabalho e nenhum poder marcam a vida das agricultoras brasileiras", de Taciana Gouveia  (2007), que apresenta dimensões pouco conhecidas para quem não vive o cotidiano na agricultura familiar. 

A masculinização da agricultura é fenômeno complexo, no qual incidem muitos fatores, incluindo as estratégias de sobrevivência das famílias e a busca de maior autonomia pessoal por parte das mulheres que saem. Mas, é preciso notar que, migrando ou não, elas continuam agentes da unidade produtiva familiar. Essa posição não se traduz em igualdade de acesso à renda, ao patrimônio e aos poderes de decisão na produção. 

Apesar de elas deixarem o campo em maior proporção que eles, os estudos mostram que as mulheres não se desvinculam das famílias em sua terra natal. Muito frequentemente tem se constatado que elas enviam parte da renda para ajudar na manutenção dos parentes agricultores. A pesquisa atenta às dimensões de gênero constata, ainda, que a saída das mulheres não altera o padrão tradicional de divisão sexual do trabalho. Assim, Taciana Gouveia identificou que as atividades que cabiam à mulher que saiu da unidade produtiva (cuidar da casa, das crianças, a alimentação diária, plantio, processar os produtos agrícolas, os animais domésticos, etc.) não são assumidas indistintamente pelos remanescentes, homens e mulheres. São as mulheres que assumem os "trabalhos de mulheres", inscritos na esfera da produção e da reprodução.

Se a Constituição de 1988 reconheceu a trabalhadora rural e a pescadora com plenos direitos sociais, independentemente do vínculo familiar, no dia-a-dia elas permanecem dependentes do homem que está à frente da unidade produtiva, geralmente o pai ou o cônjuge. Prevalece um padrão patriarcal de organização social e de relações de poder na agricultura familiar, conforme a autora destaca.

Os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2001, citados por Taciana Gouveia, relativos às pessoas de 10 anos e mais na agricultura (não só na categoria agricultura familiar), indicaram as seguintes participações em trabalhos não remunerados. Era nítida a desigualdade de acesso à renda monetária:


Mulheres
Homens
Atividades não remuneradas
39,25 %
17,71
Produção para consumo próprio
39,25 %
8,37%
 
As mulheres rurais são reconhecidas por investirem na diversificação de fontes de renda familiar, seja fazendo artesanato, beneficiando os produtos, produzindo para o consumo do lar, mais recentemente no turismo rural conforme a região... Elas também reforçam a renda quando estão fora da unidade produtiva, em caráter temporário ou permanente.

No Pará, em que condições elas migram? Elas vão para as grandes cidades, para as pequenas? Em que as migrações recentes se aproximam da tradicional migração de meninas do interior para "trabalhar em casa de família", como faziam as antigas "crias" retratadas por escritoras como Ana Lúcia Medeiros (Velas, por quem?) e Cora Coralina (Tesouros da Casa Velha). E a contrapartida da continuidade dos estudos na cidade?

Herdeiras de uma tradição de trabalho flexível no campo, que seguiam as flutuações das lides agrícolas, pesqueiras e do extrativismo, as jovens oriundas do meio rural por certo tendem a se inserir em trabalhos informais nas cidades da região, também flexíveis, instáveis, nos serviços domésticos, no pequeno comércio... almejando o emprego formal nos supermercados, nas lojas de departamentos, nos shoppings, enquanto prosseguem nos estudos.

Migrantes escreveram e escrevem muitas páginas de nossa história, extraindo borracha e outros produtos extrativos, nos garimpos e nos grandes projetos. Nesses setores, os homens costumavam ser maioria. E as mulheres? Eis um tema instigante de pesquisa, provavelmente revelador de muito empreendedorismo, de trajetórias de ascensão social, bem como de importantes fluxos financeiros que ajudam a sustentar vilas e vilarejos na região, junto com as transferências dos programas sociais e previdenciários.


P.S: Esta é a quinquagésima postagem do Sociologando!

domingo, 26 de junho de 2011

Dimensões do trabalho sob a ótica feminista

As muitas críticas que os movimentos feministas fizeram às desigualdades presentes nas relações sociais entre os sexos, ou seja, às relações de gênero, trouxeram profundas contribuições para o conhecimento da dinâmica das sociedades contemporâneas. No tocante à economia, o feminismo ampliou nossa compreensão sobre trabalho, este fato social central da vida moderna. O trabalho que conhecemos acompanhou a ascensão do capitalismo; trabalho a partir do qual passamos a "ganhar a vida" e não apenas a reproduzir nosso status de nascimento, pré-definido segundo a classe, a casta, a "raça", a etnia ou, então, segundo nosso sexo. Como se sabe, a história concreta do acesso ao trabalho e aos meios de vida foi muito mais complicada e essas marcas de classificação social não foram simplesmente perdendo força em prol dos critérios próprios da economia moderna, como a competência, a qualificação, os títulos escolares, enfim, o mérito. 

O feminismo contribuiu para destacar como as relações de gênero influenciaram desde o início do capitalismo, quando as mulheres pobres tiveram de trabalhar - como sempre, aliás - mas por salários inferiores aos dos homens; afinal, sendo o lar e os cuidados sua vocação "natural", seus rendimentos eram vistos como complementares aos dos reais produtores, os homens. Além de mão de obra barata, seu labor gratuito na reprodução da força de trabalho contribuía para suportar os baixíssimos salários das primeiras gerações de operários, quando os direitos sociais ainda não entravam na contabilidade.

Quando as atividades produtivas deixaram o espaço doméstico, passando a ser realizadas em organizações próprias, como as empresas, criou-se também a representação em separado das fontes de manutenção das famílias: o trabalho fora de casa, gerador de renda; as lides domésticas, o não trabalho. As muitas atividades no lar não contavam na nova economia monetária. A separação da vida social em duas esferas - a pública e a privada - acentuou-se desde então, com efeitos mútiplos, culturais, políticos, ideológicos, quase sempre em detrimento das mulheres.

É interessante notar que, assim como as mulheres assumiram funções indispensáveis já nos primeiros tempos do capitalismo industrial, as transformações contemporâneas na economia globalizada também são marcadas por particularidades para mulheres e homens trabalhadores. Assim, o documento da UNIFEM (Fundo das Nações Unidas para as Mulheres) intitulado Who answers to women? Gender & Accountability, referente a 2008 e 2009, apresenta dados elucidativos, desagregados para os vários continentes. No capítulo chamado Mercados consta: "A globalização levou a uma demanda sem precedentes por mulheres trabalhadoras em setores chave. Por exemplo, elas são uma presença maior nos novos serviços terceirizados, como telemarketing e serviços financeiros. Um economista observou: 'as mulheres emergiram como força de trabalho flexível por excelência nos setores intensivos em mão de obra, altamente competitivos da economia global'". Dentre as razões dessa preferência pela mão de obra feminina, o velho pressuposto de que os homens são os provedores e as mulheres ganham uma 'renda extra'. Além disso, discriminações de gênero forçam-nas a aceitarem trabalhos de menor remuneração, na agricultura, ou em indústrias que tradicionalmente absorvem mais mulheres, como os serviços pessoais.

Um aspecto inusitado refere-se ao fato de que entre os migrantes em busca de trabalho no mundo, o contingente de mulheres vem crescendo. E elas são maioria entre os migrantes com nível universitário, exceto na América do Norte, segundo dados de 2007 citados pelo documento da UNIFEM. Conclui o documento que as mulheres lideram a "fuga de cérebros".

Nas chamadas Zonas de Processamento para Exportação (EPZs), enclaves onde há isenção fiscal e regulações ambientais e trabalhistas fracas ou inexistentes, as indústrias demandam sensivelmente mais mulheres que homens. A proporção é de mais de 75% em países como Nicarágua, El Salvador, Cabo Verde e Bangladesh, mais de 70 % nas Filipinas, Panamá, Madagascar, e mais de 50% no México, Quênia e Malásia, para citar alguns exemplos do texto.  

Finalmente, o diferencial de renda entre homens e mulheres em trabalhos similares, o "gender gap", persistia na maior parte do mundo. A média global em 2006 e 2007 era de 17%, sendo maior o gap no setor privado do que no setor público. No quadro, o Brasil se comportava relativamente bem, com 15%, abaixo da média portanto, embora ainda um diferencial signficativo.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Aposentadoria (2): desafios da transição

Ainda sobre aposentadoria, que tratei na postagem anterior, uma outra questão relacionada é sobre o sentido do trabalho na nossa vida, sobretudo quando resulta de uma escolha profissional, em sequência à formação escolar. Acho que a experiência da aposentadoria não é fácil quando aprendemos a vincular nossa identidade em grande medida à profissão. E, também, quando temos no trabalho a maior fonte de relacionamentos e de inserção na grande rede da sociedade. 

É preciso lembrar também que a ciência e a industrialização trouxeram uma mudança radical no estatuto do saber,  bem descrito por Max Weber em uma passagem de A ciência como vocação. Ele comenta as reflexões do escritor Leon Tolstoi sobre o sentido da vida de uma pessoa em um sociedade na qual há sempre mais e mais por conhecer e por produzir.

"... a vida individual do homem civilizado, colocada dentro de um 'progresso' infinito, segundo seu próprio sentido imanente, jamais deveria chegar ao fim; pois há sempre um passo à frente do lugar onde estamos, na marcha do progresso. E nenhum homem que morre alcança o cume que está no infinito. Abraão, ou algum camponês do passado, morreu 'velho e saciado da vida', porque estava no ciclo orgânico da vida; porque a sua vida, em termos do seu significado e à véspera dos seus dias, lhe dera o que a vida tinha a oferecer; porque para ele não havia enigmas que pudesse querer resolver; e, portanto, poderia ter tido o 'bastante' da vida. O homem civilizado, colocado no meio do enriquecimento continuado da cultura pelas idéias, pode 'cansar-se da vida', mas não 'saciar-se' dela. Ele aprende apenas a minúscula parte do que a vida do espírito tem sempre de novo, e o que ele aprende é sempre algo provisório e não definitivo..." (Ensaios de Sociologia, p. 166)

Não concordo com propostas sobre reformulação dos direitos sociais, aumento de idade de aposentadoria e outros temas relativos a redução de gastos em encargos sociais, que contribuiriam para reduzir o nível de emprego. Para muitos, parar de trabalhar é "começar a viver". Mas a transição produtiva é um grande desafio. É preciso reaprender formas de sociabilidade esquecidas, viver os momentos pelo que eles valem, reconhecer a graça de viver o tempo presente,  depois de tantos anos de ênfase na disciplina e nas virtudes de sacrificar o hoje em prol do amanhã.

Por outro lado, às vezes coincide o tempo de se aposentar com o fim do casamento, com a saída dos filhos de casa. Outras vezes são problemas de saúde que se apresentam nessa fase. Apoio psicológico, inclusive profissional, é uma enorme ajuda.

Tenho amigos e colegas de trabalho formalmente aposentados e produtivíssimos. Dentre estes, uma "diarista" blogueira. São pessoas alegres e, especialmente, gostam do que fazem, sentem o que fazem como importante para outros, compartilham um certo sentimento de missão em seu trabalho e estão cheios de projetos e empolgação. Muito bacana!

Aposentadoria: conquista e direitos

Três blogs que eu sigo, por coincidência na semana passada trataram de temas ligados à passagem do tempo: idade (envelhecer) e aposentadoria. São processos que se associam ora a aspectos positivos - amadurecimento e sabedoria sobretudo - ora a aspectos negativos - da perda de vigor à inatividade. De uma perspectiva jurídica e sociológica, a aposentadoria é parte das conquistas sociais da cidadania, instituída como direito apenas no século XX e de modo algum generalizada no planeta. Nos debates que se travaram sobre os direitos sociais em diversos países ao final do XIX, quando da segunda revolução industrial na Europa, reconhecia-se progressivamente a sociedade como um grande coletivo, orgânico, cujas partes diferenciadas cumpriam funções indispensáveis para o todo, especialmente as funções no campo da economia. Funções merecedoras, portanto, das proteções para aqueles que enfrentavam os riscos ligados ao seu exercício. Os debates políticos, as mobilizações de trabalhadores, os movimentos sindicais e socialistas e as lutas sociais em muitos contextos... todos colaboraram para que se concebesse a proteção social como encargo da sociedade, administrado primordialmente pelos Estados nacionais com uma parcela da riqueza social retirada do mercado. Como mostrou Robert Castel em seu livro As metamorfoses da questão social, o que até então tinha sido atributo da propriedade - ter um patrimônio era o principal seguro de vida - passava para a esfera da sociedade, na forma de benefícios previdenciários acessíveis aos não proprietários.  

A economia industrial, baseada na compra e venda de trabalho e na liberdade dos demais fatores da produção, isto é, terra, natureza e capital físico e social, não podia prescindir de alguma segurança para os trabalhadores, como meio de estabilizar a própria economia, que se urbanizava em escala crescente e tanto demandava quanto gerava enormes contingentes de mão de obra para recrutar. Assim, as primeiras categorias a receberem o benefício da aposentadoria geralmente eram aquelas ligadas a setores de importância estratégica no contexto tecnológico de então, a exemplo dos mineiros e dos trabalhadores do setor de transporte, notadamente ferroviário e portuário, ligados ao comércio exportador.

Então, trata-se, antes de tudo, uma história de conquista e de integração dos operários à sociedade na condição de cidadãos, na mesma sociedade dos "patrões" - alvo, portanto, do reconhecimento dos demais, embora ainda nos patamares mais baixos de prestígio social. Daí para a frente restavam a travar as lutas pela definição das idades para aposentadoria e dos montantes de remuneração adequados. E, tanto no nível coletivo como individual, alcançar condições favoráveis para entrar na categoria de aposentado, hoje embelezada pela expressão "melhor idade". Para a maioria, ela traz mesmo é uma redução de renda, o que é complicado quando se inicia uma fase de mais visitas ao médico e à farmácia.

Direito inquestionável, objeto de vivas polêmicas de categorias profissionais que se batem para reduzir a idade mínima e para diminuir as exigências burocráticas de acesso, a exemplo dos pescadores e trabalhadores rurais no Brasil, a aposentadoria é uma experiência forte. É como uma nova vida, que requer uma nova identidade. Para quem vive o trabalho como fardo, para quem "perde a vida ao ganhá-la", vem acompanhada de um sentido e liberdade, um verdadeiro começo de vida. Para donas de casa, assim como para trabalhadores rurais, é muitas vezes o começo de uma renda segura. Estudos realizados no Pará, pelo IPEA, elucidam o quanto as aposentadorias rurais contribuem para a economia de muitos municípios. Daí o perigo de se perder de vista a trajetória de conquista desse direito social ligado ao reconhecimento da dignidade fundamental do trabalhador. Pressões de mercado fazem com que vozes se levantem contestando os direitos como supérfluos, um peso para os números da economia. A história da instituição aposentadoria é um exemplo de que a economia é uma construção social.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ORGANIZAÇÕES INFLEXÍVEIS

À notícia impressionante da queda de um prédio em Belém, ontem seguiu-se uma grande tristeza, diante das pessoas que morreram, se feriram, desapareceram. E as que perderam bens e empregos.

Dá uma tristeza, também, o fato em si do desabamento, a ruína de uma obra dessas, antes de tudo um trabalho humano coletivo. De muitas mãos.

Particularmente, não gosto de prédios residenciais muito altos. Mas eles são, sempre, um prodígio de técnica, testemunham a capacidade humana de superar limites ambientais, para o bem e para o mal. A engenharia é um grande testemunho. Pode-se, com razão, questionar sobre a qualidade da participação dos muitos atores que intervêm nesse esforço coletivo, sobre a divisão entre poder de decisão e execução, entre saber e fazer. De qualquer modo, isso não invalida o caráter de produção coletiva que uma obra desse porte representa. As ferragens retorcidas e os pedaços de concreto amontoados também estão dolorosamente a dizer da falha do trabalho humano, da súbita inutilidade de tantas horas de empenho, de aplicação, de cálculos, de decisões, de gestos, transpostos para o corpo da obra.

Muitas perguntas se levantam, é claro, sobre os erros, as razões, as culpas, os responsáveis, as indenizações etc. Acho que vale lembrar, também, um tipo de pergunta que não é nova, que várias pessoas se fazem: por que tão altos os prédios em Belém? são realmente necessários? há premência de espaço? Imagino que perguntas semelhantes foram feitas quando da construção do primeiro grande edifício em Belém, o Manoel Pinto da Silva, inovador em todos os sentidos em sua época.

Mas hoje, com a quantidade de prédios cada vez mais altos que se constroem na cidade, que deixam para trás os vinte andares que costumavam ser o limite das construções até os anos de 1990, outros questionamentos aparecem: quais os princípios que orientam as decisões sobre a localização dos prédios altos no espaço da cidade? respeitam-se critérios ambientais e culturais? como se equilibram os interesses e as demandas de mercado com esses critérios? Em uma economia capitalista liberal, de respeito absoluto à propriedade privada, a decisão do que fazer em um terreno cabe ao seu proprietário, como bem se sabe. Mas, em se tratando de obras de grande envergadura, sabe-se também que os impactos - as "externalidades" na linguagem econômica - vão muito além dos limites da propriedade.

Assim, pode-se também perguntar que categorias de atores sociais decidem, ou pelo menos são ouvidos, quanto a critérios de localização das obras. Aparentemente, apenas os agentes econômicos, as empresas detentoras dos imóveis, além dos órgãos públicos e agências reguladoras. E, aparentemente, o poder destas últimas é menor. Fatores menos ponderáveis como a incidência da luz solar na rua e nas casas vizinhas, o direito à paisagem, a circulação de ar, a memória coletiva da rua ou do bairro não contam, ou contam muito pouco. São as regras de nosso jogo coletivo de produção da cidade, movida a mercado liberalizado, a oportunidades de ganho e de acesso à boa moradia a quem pode pagar. 

Muitas vozes há tempos vêm reclamando o respeito a um plano diretor na Região Metropolitana de Belém, o zoneamento e, ademais, que a cidade disponha de equipamentos compatíveis com o volume da ocupação e com o tamanho das construções e seus impactos, na forma de sistema de esgotos, redes de drenagem, recolhimento de lixo, trânsito, combate a incêndios, dentre outros.

A julgar pelos reclamos daqueles diretamente envolvidos e implicados, como os trabalhadores da construção por meio de seu sindicato, além dos moradores vizinhos, havia evidências de problemas na construção. Mas, por razões que os estudos vão indicar, não foram levados em conta.

Esses elementos configuram uma estrutura de comunicação fechada, pouco permeável, entre a obra e o sistema no qual se insere. E o que é uma obra de construção civil? Uma grande organização, mas que não funciona como "sistema de atores", conceito este formulado por sociólogos das organizações. Feed-backs não são incorporados no estilo de gestão vigente. É possível, também, que tendam a ser minimizados devido ao peso dos compromissos e encargos financeiros envolvidos no empreendimento. Uma vez em movimento, difícil fica parar, rever, retroceder.

Apesar da brutal diferença em volume e impacto social e ambiental, acho que a rigidez que acompanha o processo de expansão imobiliária nas áreas nobres de Belém é de mesma natureza da rigidez que acompanha o empreendimento hidrelétrico de Belo Monte, no Xingu. Em Belo Monte, as manifestações de insatisfação, as abordagens diferenciadas que apontam problemas, são levadas em conta apenas na medida em que há pressão social. Já sobre o uso e a apropriação dos espaços urbanos, a pressão é menor. É por isso que chamei esta postagem de organizações inflexíveis. Agem como se detentoras exclusivas, e legítimas, da razão técnica que dispensa outras considerações.

A pergunta espontânea que muitos fazem quanto ao por que da altura crescente dos prédios em Belém suscita uma resposta imediata: há demanda, há mercado a atender. Mas há também uma resposta que remete ao padrão de sociedade que acordamos construir e manter, que é muito desigual. Não há como construir edificações mais baixas ao longo de todo o espaço da cidade, pois não há poder de compra democraticamente distribuído pela população da cidade. Assim, o poder de compra se concentra verticalmente e se dilui horizontalmente. Não se misturam as pessoas que se encontram nos diferentes estratos sociais. Muito menos, se possível, suas moradias. Mas, aqui, já se está muito longe do prédio que ruiu.

Um prédio residencial é, também, uma fábrica de sonhos. Investir em uma casa é um sonho, realizá-la tem efeitos psicológicos que se estendem por toda a vida, sentimento de realização, de cumprimento de objetivos, segurança para os filhos se for o caso, para si... Esses sonhos desabaram junto para muita gente. Tomara que possam refazê-los logo. E que os que perderam entes queridos encontrem forças para superar a dor.

A cidade está triste.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sobre mulheres pescadoras em um evento de engenheiros e técnicos de pesca

A realização conjunta IV Semana de Engenharia de Pesca e II Semana de Técnico em Pesca e Aquicultra do Pará, de 13 a 16 de dezembro de 2010 na Universidade Federal Rural da Amazônia, em Belém, teve como slogan uma frase que apontava para uma ciência aplicada em prol das comunidades que vivem das lides pesqueiras: Ciência como veículo de difusão e tecnologia na Engenharia de Pesca para as comunidades pesqueiras e aquícolas
Durante a discussão de uma das mesas a que pude assitir, sobre o aproveitamento dos produtos da pesca, argumentava-se que esse processamento, ainda longe de ser efetivado na medida do volume de pescado produzido no Pará,  contribuiria para reduzir a pobreza das comunidades. Uma das autoras fechou sua palestra lembrando as grandes possibilidades e os desafios maiores para que isso se torne realidade. A propósito, participantes da mesa  instaram os alunos para que, em sua vida profissional, não viessem a esquecer esses princípios de produção de ciência e tecnologia comprometidas com a promoção humana.
A mesa seguinte, para a qual fui convidada a expor, versava sobre organização das mulheres pescadoras no Estado do Pará. Acho que vale uma reflexão sobre  a inclusão dessa mesa na programação. A própria temática é fruto de mudanças que vêm ocorrendo no Brasil e em outros países, sobretudo a partir de meados dos anos 1990, quando se começou a prestar  mais atenção  à presença feminina, que ocorre de muitas maneiras no setor pesqueiro. 
A atenção à divisão sexual do trabalho no setor deriva de muitos fatores. Por exemplo, as evidências cada vez maiores de degradação dos principais recursos pesqueiros, decorrente do padrão predominante de desenvolvimento da pesca até então, levaram a uma maior sensibilidade para a racionalidade de outras práticas tecnológicas e para comunidades que haviam sido classificadas como rudimentares e necessitadas de se modernizarem. 
Em linhas gerais, como é conhecido, aquele padrão centrara-se na intensificação dos esforços de captura sobre espécies de  valor comercial, como atuns, lagostas, camarões,  sardinhas, bagres para exportação, como a piramutaba no caso do litoral amazônico, dentre outras. Tecnologias de crescente poder de predação foram desenvolvidas - como os arrastos motorizados - que viabilizaram a vertiginosa expansão da indústria do pescado, notadamente entre as décadas de 1970 e 1980.  
Evolução da produção pesqueira mundial - 1950-2002 (FAO, 2004)

Muitos estudos e movimentos sociais já deixaram claro que o estilo de expansão da pesca extrativa deu-se em detrimento do meio ambiente e das comunidades de pescadores artesanais, chamados também de pescadores de pequena escala, que secularmente produziram e abasteceram os mercados. E as comunidades dizem respeito aos conjuntos de pessoas que as formam, com suas relações e culturas, mulheres e homens de diferentes idades, formas de colaboração, conflitos e histórias. 
Correlativamente a isso, os sistemas de administração pesqueira distanciaram-se das comunidades, foram centralizados em burocracias estatais ou, mais recentemente, privatizados, como ocorre com as quotas transferíveis de pesca em alguns países. As formas locais de gestão, ou seja, de regulação do acesso  e uso dos territórios de pesca, foram o mais das vezes ignoradas ou  desestruturadas. Nessa época do "desenvolvimentismo", não se falava em co-gestão, gestão participativa ou gestão comunitária na pesca.

Por outro lado, a atenção à presença das mulheres deve-se, também, a mobilizações sociais relacionadas à defesa dos interesses das categorias de pescadores artesanais e à influência de movimentos feministas e de mulheres trabalhadoras na pesca e em outros setores, em particular na agricultura. Há, ainda, a influência dos movimentos ambientalistas, da consciência ambiental e de pesquisas que vêm sendo feitas nos últimos anos sobre o assunto, como mostra uma consulta ao sítio Web of Sciences na internet. 

Desse modo, embora a inserção do tema das mulheres em eventos dessa natureza já não cause a mesma surpresa que antes, penso que ela é sempre motivo de alegria. Pois, decerto, isso traduz as novas concepções que estão a balizar a formação dos quadros técnicos e científicos na área,  que o slogan do evento convida a pensar: não a distância  autosuficiente do saber acadêmico frente a seus "objetos", mas uma compreensão da responsabilidade social dessa produção. 
Penso que, ao contemplar a temática, os organizadores compartilham da concepção ampliada de trabalhadores da pesca que encontra eco na legislação brasileira recente e que vem responder a persistentes demandas das mulheres nas comunidades, por reconhecimento profissional e político.
Embora minha exposição tenha suscitado poucas perguntas da platéia, vale registrar que após a mesa fui procurada por dois alunos do primeiro ano do curso de técnicas em aquicultura, no município de Castanhal, no Pará. Eles disseram estar estudando a participação das mulheres na aquicultura e, por isso, buscavam bibliografia relacionada. Interessante esse olhar iniciante do campo de estudo a partir da condição das mulheres que lá trabalham!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homenagens à grande pesquisadora

Tributo de Saudade a Saffioti
Maria Luzia Miranda Álvares* 
Heleieth I.B. Saffioti , a grande pesquisadora, pensadora, professora, feminista faleceu no ultimo dia 13, aos 76 anos, em São Paulo/SP. O mundo intelectual brasileiro perdeu não só uma grande incentivadora dos estudos sobre a questão da mulher, mas e principalmente sobre a violência doméstica, o marxismo, a história das mulheres brasileiras, escrevendo um dos livros mais importantes para estes estudos hoje esgotado: “A Mulher na sociedade de classes- mito e realidade”)1969). Foi importante na formação de toda uma geração e esse testemunho pode ser dados por quantos leram seus livros, artigos ou presenciaram suas conferências, palestras em tantos eventos nacionais e internacionais. 
http://politicaecronicas.blogspot.com/
 
Minha homenagem a Heleith Saffioti 
Ana Cleide Guedes Moreira*
 Hoje, São Paulo chuvosa, 
assiste a partida 
de uma feminista que mudou 
nossos rumos
de mulheres brasileiras.
Ela se vai, sabe-se lá para onde,
mas aqui deixará saudades.
Sua generosidade em analisar a si mesma,
enquanto pensava em todas, 
foi talvez sua maior grandeza.
*Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Pará 
 
Cristiane Faustino*
... de fato uma das maiores referências para o pensamento e ação feministas,
 especialmente no que se refere ao desvelamento das privações que as 
mulheres enfrentam desde a vida e trabalho domésticos!
* Instituto Terramar
Ida Lenir Gonçalves*
Eu não sou feminista, mas reconheço a contribuição de todos aqueles e 
aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ser cidadãs, donas
 do nosso próprio nariz.  
Enfim, os precursores dessa luta mostraram que as mulheres são diferentes sim,
 mas não são o estereótipo estabelecido de fêmea, amante e mãe que lhes 
foi imposto e que assumiram durante milênios. 
* http://diariodeumamulherdespeitada.wordpress.com 
 
Maria Antônia Nascimento*
... embora ela não rejeitasse a categoria de gênero que, se
tornou hegemônica no contexto da produção feminista nas últimas
décadas, ela como Mary Castro, vinham advertindo para o caráter
extremamente palatável da mesma, o que pode implicar, segundo elas, uma
despolitização da exploração e opressão das mulheres na atualidade.
Neste sentido, ela não abria mão da relevância do conceito de
patriarcado no contexto do capitalismo contemporâneo.
Saffioti VIVE!
 * Docente do Mestrado em Serviço Social, Universidade Federal do Pará
 
Izaura Fischer*
Ela realmente  
deixa um vácuo nas reflexões sobre a condição das mulheres. No  
entanto, como profunda conhecedora do assunto, ela nos deixou também  
um legado importante sobre a temática que ainda vamos passar alguns  
anos para ter um verdadeiro entendimento sobre tudo o que ela escreveu.
Eu e a colega Lígia Melo tivemos a opornidade de desfrutar da sua  
companhia algumas vezes e sempre ela tinha o que nos ensinar e, nós o  
que aprendermos com ela. Uma vez fomos convidadas por ela a ir a sua  
casa em S. Paulo, na Praça da República. Em seu apartamento super  
organizado e bonito passamos muitas horas trocando idéias, jogando  
conversa fora e sorrindo, enquanto degustávamos um bom vinho  
acompanhado de uma boa tábua de frios que ela mesma preparou. Naquele  
momento podemos ver que por tras da rigidez que ela demonstrava pensar  
e viver existia aquela pessoa leve que sorria bastante e que nos  
tratava com muito respeito e carinho. Ouvia nossas idéias sobre as  
mulheres rurais, ao mesmo tempo em que discutia e apontava caminhos  
possíveis para pensarmos. Essa lembrança nós guardamos dela com muito  
apreço, ao mesmo tempo em que continuamos a nossa busca no  
entendimento criterioso que ela nos deixou sobre a condição das  
mulheres, temática que coerentemente se destinou a pensar durante toda  
a sua trajetória acadêmica política. Em um dos seus últimos artigos  
produzido e publicado pelo SOSCORPO ela convida as acadêmicas  
feministas a refletirem sobre ecologia ao indagar sobre Quantos sexos?  
Quantos gêneros? Unissexo/unigênero. Quem sabe essa seria a temática  
sobre a qual iria refletir se não tivesse sua vida interrompida nesse  
momento?
*Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco - Pernambuco
 
Maria José*
Heleieth Saffioti politiza o conceito de gênero a partir da condição da mulher, 
contribuindo para que esta categoria gênero (...) fortaleça as lutas e seja mais um instrumento
para desvelar as desigualdades e explicitar a construção social da desigualdade. 
Sua contribuição, que é relacionar as categorias de gênero e classe, o fez de forma muito
importante para o Brasil, onde a luta pela igualdade tem como questões estruturantes o gênero, 
a raça e a classe.
* Conselho Pastoral de Pescadores - Bahia 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma grande pesquisadora sobre a condição da mulher

Através do GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero), soube hoje da morte da Professora Heleieth Saffioti, uma das pesquisadoras que abriu ricos caminhos de investigação sobre a condição social da mulher no Brasil. Caminhos que não mais fecharam ou, melhor dizendo, enveredaram por vias muito profícuas, através dos estudos feministas e de gênero desde então.

Não a conheci pessoalmente. Mas, certamente, compartilho com muitos colegas o reconhecimento de que ela foi uma referência na formação dos cientistas sociais brasileiros. Em seu grande livro A mulher na sociedade de classes, nos anos 1970, sob uma perspectiva marxista, ela levou seus leitores a compreenderem essa "condição", ou seja, essa posição social particular da mulher, seu status diferenciado do status dos homens, na dinâmica social mais ampla. As discriminações que as mulheres sofriam, expressas com especial clareza nas principais características de sua inserção no mercado de trabalho, não eram resultado de uma disfunção, ou de uma visão atrasada, sobretudo em sociedades economicamente menos desenvolvidas. Visão que, portanto, seria superada com a modernização. Saffioti evidenciava, por exemplo, através das estatísticas sobre trabalho feminino no Brasil, o quanto elas estavam atrás em carteira de trabalho assinada, salários e acesso ao emprego formal.


A notar que, com sua respeitável bagagem acadêmica, ela elaborou um estudo pioneiro sobre o emprego doméstico - que era então, disparado, o principal absorvedor da força de trabalho feminina no país. Eram trabalhadoras que tinham alcançado há apenas poucos anos, em 1972, uma cobertura mais convincente de direitos trabalhistas. A nova legislação deixava para trás aspectos das relações servis que as profissões domésticas haviam recebido do escravismo e que teimavam em permanecer nas relações entre patrões/patroas e empregados, sobretudo empregadas, pois eram mulheres que prevaleciam numericamente nessas profissões.

Pois bem, Heleieth Saffioti analisou com notável profundidade teórica e empírica, várias teias que ligavam as discriminações, não só de gênero, mas também étnicas, e as rodas da economia capitalista. Também no capitalismo moderno, a divisão sexual do trabalho era um elemento estrutural da ordem social. Neste caso, herdando princípios de classificação subalterna historicamente anteriores, as mulheres apresentavam-se como força de trabalho passível de um grau de exploração mais acentuada, em benefício dos empregadores. Na condição social da mulher trabalhadora conjugavam-se sistemas discriminatórios de gênero e de classe, contribuindo a sua maneira para a reprodução do modo de produção cujo móvel é a acumulação. Ademais, as mulheres, que haviam sido alvo de pouca atenção entre os clássicos das Ciências Sociais, apareciam também desempenhando papéis de grande relevo na sustentação do sistema econômico. De um lado, concebidas e auto concebendo-se como "ajudantes", trabalhadoras secundárias, de menor importância, elas assumiam com frequência funções que Marx havia analisado como parte do "exército industrial de reserva", do tipo que podiam ser dispensadas e reabsorvidas conforme os ciclos econômicos. E, ainda, com seu labor gratuito na manutenção cotidiana dos trabalhadores da ativa e das próximas gerações, as mulheres no lar também foram percebidas como estruturalmente ligadas com a reprodução da ordem social de classe. Essas atribuições naturalizadas como femininas, contribuíam para rebaixar o valor da mão de obra no mercado. As ideologias de gênero amenizavam a percepção dessas formas de exploração que se davam dentro e fora dos espaços da produção econômica.

Estas linhas sobre seus estudos de fato não fazem justiça à obra da autora e ao impacto que suscitou no meio acadêmico. Faço estas reflexões no sentido de reafirmar a importância de um estudo que pioneiramente no Brasil analisou as vivências das mulheres trabalhadoras e sua importância sociológica. Suas pesquisas contribuíram para uma compreensão mais política dos trabalhos no lar, para a politização da categoria cuidado,  que a pesquisa feminista impulsionou e que o movimento feminista conseguiu muitas vezes traduzir em políticas.