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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Frases da semana

Vamos construir as pontes do diálogo em vez de checkpoints e muros de separação.

Mahmoud Abbas,  Presidente da Autoridade Palestina, na ONU em 23/9/2011

Devemos construir um futuro para nossos filhos e netos e para nós mesmos.

Benjamin Netanyahu, Primeiro Ministro de Israel, na ONU em 23/9/2011 

Por que essas frases causam tanta admiração, sobretudo a primeira, ao lembrar quanto se investe em obras anti-futuro?

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

É possível o desenvolvimento?

Para onde caminham as sociedades e as economias neste início de século? A idéia de progresso já perdeu o sentido faz tempo. Foi trocada pela crença na possibilidade do desenvovimento para todos. (Ver Declaração da ONU sobre Direito ao Desenvolvimento) Esse ideário também já enfraqueceu muito, mas ainda se fala, meio sem jeito, na partição do mundo entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, como que a relembrar de nossa capacidade ou interesse em forjar um destino comum para os habitantes do planeta, destino melhor, é claro. O sentido dessa distinção está meio enveoado, não se vê luz no fim do túnel que aponte um caminho plausível para todos, como manifestantes gritam em praças mundo afora. O esgotamento do ideário desenvolvimentista não é algo a lamentar por si só. Porque também não seria mais uma obrigação de caminho a ser seguido. O direito de escolha, o direito à diferença e, consequentemente, o direito de levar o tipo de vida que se considere digno de ser vivido (nas palavras de Amartya Sen), poderia ser um ingrediente central. Valores desse tipo fermentam as idéias de desenvolvimento sustentável, socioambientalismo, democracias participativas, multiculturalismo e autonomia. 

Mas, a inextricabilidade dos destinos nacionais continua firme, nas relações econômicas e políticas, na diplomacia e na falta que ela faz nas muitas guerras e conflitos bélicos. A "locomotiva" da China e suas repercussões nos ritmos de atividade econômica, a crise, que foi hoje pela manhã expressa na fala da presidente do FMI de que as economias emergentes não vão passar imunes... Continuamos no mesmo barco. Porém, como indica o belo artigo de Luiz Gonzaga Belluzo (A crise como ela é), retornamos ao velho ideário liberal da autoregulação pelo mercado, que Karl Polanyi analisou com maestria no livro A Grande Transformação.  As palavras de Beluzzo merecem destaque, pois ele mostra que a aceitação fácil das idéais subjacentes aos remédios liberais bloqueia a criatividade na busca de soluções novas.

"... o cidadão atropelado pelas erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões da economia não acredita no controle de seu próprio destino. As medidas de combate às crises, por exemplo, são capazes de destruir suas condições de vida, mas o consenso dominante trata de explicar que, se não fora assim, a situação pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si mesmo, um método eficaz de bloquear o imaginário social e promover a paralisia política, numa comprovação dolorosa de que as formas objetivadas da economia adquirem dinâmica própria e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres". (Carta Capital, 14/99/2011)

O preço desse bloqueio (político e cognitivo) quem paga somos todos nós, que temos em comum o desejo de construir, no tempo que nos é dado viver, uma vida digna, boa, produtiva, com quem se ama, seja numa aldeia no Xingu, seja no deuxième arrondissement em Paris.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Há dez anos, Bush e a mesquita

Como muitos, neste 11 de setembro lembrei-me do que estava fazendo quando vi as cenas na TV de uma das torres gêmeas incendiando. Foi no intervalo de uma reunião no então Mestrado em Sociologia da UFPA. Pela TV ao fundo da sala, pensei tratar-se de um incêndio em um prédio, com aquelas duras imagens de pessoas desesperadas à janela. Só ao longo do dia fui sabendo do atentado de proporções extraordinárias.

Bush, que incrivelmente foi beneficiado em sua reeleição, dois dias depois do atentado visitou uma mesquita, respeitando os rituais muçulmanos. Uma atitude que cuidava, em meio à dor, de delimitar o campo da resposta civilizada, mantendo-se os princípios da tolerância e do respeito às diferenças. Mas, como sabemos, foi só um lapso de grandeza em meio a uma série de "políticas" de vingança que mataram muitas vezes mais do que os atentados. Troca de ódio por ódio, longe de produzir o que se disse nos discursos: o país ficou mais seguro com as medidas tomadas. Tolerância, diplomacia faltam hoje como ontem em relação àquela porção do Oriente de onde se originou uma grande parte de nossa herança cultural.
 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sabor de vingança

Os noticiários de hoje na TV sobre a morte do "terrorista mais procurado" acompanharam-se de festejos em cidades americanas. Um desavisado confundiria fácil as imagens com a alegria de uma vitória esportiva. De fora, não se pode entender completamente o que sente quem viveu de perto o 11 de setembro e sofreu diretamente as consequências. Mas, de todo modo, sabemos que essa morte é parte de uma sequência toda ela trágica. 

Num mundo de marcada insegurança, especialmente insegurança de emprego, um júbilo nacional temporário parece revigorar a auto-estima e um sentido de confiança no futuro.  A política vai cada vez mais distante da economia, no sentido de que importa em primeiro lugar manter a máquina funcionando. Sacrifícios de ideais democráticos e de direitos são palatáveis diante da meta maior de manter  acesso privilegiado ao mercado, em contexto de locomotiva chinesa a grande vapor. Os discursos de defesa da democracia mal justificam intervenções bélicas do "ocidente" no "oriente", que parecem desastradas. Comemora-se, assim, uma vingança frágil, pois ela não aponta uma saída. É o contrário, a julgar pelas notícias que acompanham a principal: alertas de represálias, reverências a Bush, ocupações militares, Guantánamo... 

Por isso, um viva às comemorações do casamento real pela TV! 

quarta-feira, 9 de março de 2011

AMAZÔNIA FRANCESA; TÃO PERTO, TÃO LONGE

O Brasil não conhece a África
mas a Àfrica sabe bem o Brasil...
Essas frases da música de Gonzaguinha vêm em razão de uma recente viagem que fiz a Cayena, junto com uma cara colega, Edma Moreira, para apresentar um trabalho em co-autoria com Jean Hébette, no Colóquio Patrimonialização e Desenvolvimento, promovido pela Universidade das Antilhas e da Guiana (http://www.colloque-patrimonialisation-guyane.com/colloque-Patrimonialisation-Guyane/Bienvenue.html). Desde os procedimentos iniciais para tirar o visto, quando constatei que brasileiros precisam de visto para entrar na Guiana, embora não para fazer turismo na metrópole, tive a impressão de que a maioria de nós, no Pará, conhecemos pouco, ou quase nada da vizinha Guiana, apesar das ligações históricas do passado. Por outro lado, aprendi que dentre os países que fazem fronteira com a França, é com o Brasil que ela divide sua fronteira mais extensa: 730km.

No entanto, muitos dos que lá vivem conhecem alguma coisa do Brasil, e da Amazônia em particular. Digo isso, em primeiro lugar, porque os professores com os quais conversamos quase todos tinham vindo mais de uma vez ao Brasil, para passear, fazer pesquisa, fazer compras ou participar de evento. A propósito, uma pesquisadora da área de Biblioteconomia na cidade de Cayena, que disse conhecer "Mosqueiro, Icoaraci, Belém, Manaus, estados nordestinos etc." fez uma reflexão peculiar sobre nós outros. Ela considera que os brasileiros têm uma maior integração ao ambiente natural, comparativamente aos seus conterrâneos, a exemplo a quantidade de frutas  regionais que se aprecia no norte e nordeste do Brasil, enquanto que em Cayena eles se voltam muito à França, consomem mais as coisas que vêm de lá e, portanto, não valorizam seus recursos naturais como nós, brasileiros, aparentemente fazemos. Mas, ela também vê uma analogia entre essa relação deles com a metrópole e a atitude "brasileira" de sobrevalorizar o que é do sul e sudeste do país. 

Em segundo lugar, há muitos brasileiros naquele território francês de além mar, imigrantes "legais" e "ilegais", assim como chineses, vietnamitas, surinameses, haitianos... a ponto de formarem grupos reconhecíveis. Os chineses visivelmente concentram inúmeras lojas nas ruas do centro comercial de Caiena. Os brasileiros, em sua esmagadora maioria amapaenses e paraenses, são comumente recepcionistas ou arrumadores em hotéis, garçons, ou atendentes em lojas. Trabalham também na construção civil. Na zona rural, são muitas vezes garimpeiros. Vi uma loja de compra de ouro em Cayena com inscrições em francês, português e duas outras línguas. 

Ao que pude perceber, a Guiana, sobretudo desde as duas últimas décadas, vem valorizando sua composição multicultural, pelo menos em discursos públicos. Assim consta no pequeno livro Guyane, l'incroyable guide, do Comitê de Turismo da Guiana (www.tourisme-guyane.com), que traz na sua primeira página: "Bem vido à Amazônia Francesa". O guia tem uma seção intitulada: "A incrível diversidade dos povos", fazendo referência aos ameríndios, aos Hmongs originários do Laos, e aos Bushenengués descendentes dos escravos revoltados , grupos aos quais correspondem tradições, uma arquitetura e um artesanato original. As seguintes linhas arrematam o texto: "Com seus 190.000 habitantes, a Guiana é um caleidoscópio de etnias, majoritariamente instaladas sobre o litoral, que dão um raro exemplo de concórdia e convivialidade". Belos  e importantes dizeres em uma conjuntura que é de inquitetude e embaraço por parte dos governos da União Européia frente às levas de migrantes que deixam a Líbia, o Egito e a Tunísia teimando em cruzar o Mediterrâneo em fuga dos problemas políticos; entre eles acha-se uma parcela de migrantes "econômicos", ao ver dos responsáveis políticos, pessoas que "aproveitam a oportunidade para ir trabalhar na Europa", dizem

É, portanto, pena a ausência de maior intercâmbio - comercial e cultural - entre os territórios que partilham a Amazônia, histórias com muitos pontos em comum, assim como diversidade cultural. Claro que há trocas, um contínuo vai e vem de populações, especialmente em busca de meios de vida, mas evidentemente sem a visibilidade do turismo de massa, oficialmente registrado. Entre Belém e Cayena são menos de duas horas de avião, mas há só um vôo semanal. No vôo que fizemos saindo de Macapá era grande o número de assentos vazios. 

É também pena que, assim sendo, não  haja estímulos ao turismo interregional, inclusive para aprendizado da língua francesa e, no caso, da língua crioula francesa. A propósito, uma das expositoras, professora da área de literatura, apresentou um programa recente nos diferentes níveis de ensino público em Cayena, que pretende introduzir nos currículos escolares conhecimentos sobre os povos que formaram a sociedade guianense, suas culturas, arte e história. Intercâmbios sobre experiências de valorização multicultural em áreas periféricas nos respectivos contextos nacionais, são muito oportunos.  Exemplo,  o reconhecimento dos territórios dos povos remanescentes de quilombos,  ou então as reservas de proteção ambiental com garantia de direitos aos habitantes tradicionais, importantes lá e cá. Essas experiências podem ser interpretadas como re-escrituras das histórias coloniais, desta feita a partir das realidades socioculturais locais.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DO CAIRO, LIÇÕES DE POLÍTICA E CULTURA

Enquanto prostestam contra uma ditadura que até bem pouco não aparecia assim a quem via de fora, pois era um governo "amigo" dos "ocidentais", os jovens egípcios estão reensinando algumas coisas sobre política e cultura.

Em primeiro lugar, uma lição muitas vezes repetida nas relações entre países. É a plasticidade do conceito de democracia e das instituições encarregadas de defendê-la. A lição é afirmada pela postura embaraçosa de governos de outros países em apoiar o clamor das ruas no Cairo e, ao mesmo tempo, assegurar a estabilidade da transição. Como dizem os analistas, do ponto de vista dos interesses americanos, europeus e israelenses, é preciso mudar sem mudar. Por conta dos protestos de hoje, o grande público toma consciência dos investimentos militares que têm sido feitos por anos a fio no Egito pelos EUA e de como o país tem a mão firme no bloqueio à Faixa de Gaza, sendo então ator fundamental no conflito de Israel com a Palestina. Nas relações internacionais que favorecem governos não só corruptos e autoritários, mas violentos, soa mal o emprego dos termos democracia e direitos humanos. As modernas declarações de direitos ficam pálidas quando episódios assim trazem à tona o que se faz em seu nome.

Em segundo lugar, os manifestantes iluminam o quanto de artificialidade há nas supostas barreiras entre culturas diferentes. Está claro que o argumento do mal menor de se manter um governo laico para evitar a ascensão do integrismo religioso não se sustenta no caso. Os jovens insatisfeitos no Cairo têm muito mais em comum com jovens desempregados e que se vêem sem perspectiva em muitos outros países, do que divergências culturais. Anseios de liberdade de escolha, liberdade política, justiça, auto-estima, emprego, oportunidades de realização de projetos pessoais e profissionais, um estado a serviço dos cidadãos... é isso que basicamente os move. O atendimento a esses anseios não requer negação de valores culturais. Requer medidas políticas e econômicas.

A lição de que há anseios universais que se exprimem naqueles protestos é muito evidente.  Portanto, há mais fatores de promoção de diálogo intercultural do que obstáculos. Mais uma vez se observa como diferenças culturais e religiosas podem ser manipuladas, exacerbadas, gerando preconceitos e intolerância, porque há interesses não declarados que precisam ser assegurados, sobretudo quando estão em jogo bens econômicos estratégicos.

O problema das diferenças culturais não se resume a manipulações, por certo. Porém, não se pode aceitar levemente a idéia de que tradições e culturas diferentes sejam fechadas a diálogo. E, portanto, tome repressão para evitar o pior, o terrorismo de base religiosa, usado como justificativa para fechar os olhos a barbáries locais. Não seríamos o que somos hoje, em nenhum lugar, se séculos e séculos de intercâmbios e de trocas culturais não nos tivessem precedido. Muito da "natureza" que nos cerca é fruto de trocas passadas. A esse respeito, vale a leitura do livro de Lévi-Strauss, Raça e História.

Quando sabemos pela imprensa que as forças integristas não lideram os movimentos, percebemos então mais essa lição que vem do Egito:  são vazios muitos discursos anti-imigração em países ricos que apelam para as diferenças culturais para justificar as dificuldades de integração; inclusive, as reclamações formuladas por governos nesses países de que os imigrantes trazem valores incompatíveis com os "valores nacionais". As bases para o diálogo é que são negadas, antes de as diferenças eclodirem em conflitos étnicos.

Quando eu estudava na França, durante a guerra contra o Iraque do primeiro governo Bush, ouvi de uma colega argelina, doutoranda em geologia, que ela sentia naquele momento uma vontade de usar o véu islâmico, que normalmente não usava, expressando assim um sentimento que misturava humilhação e desejo de afirmar o valor de sua cultura, motivada por aquela intervenção americana sobre um "país árabe", vista como ilegítima. Anos depois, na Austrália, minha filha adolescente teve como amiga na escola uma jovem afegã, de uma família muçulmana que aparentemente era seguidora rígida dos preceitos religiosos e que acabavam de obter o estatuto de refugiados no país. Pelas conversas que mantinham na escola, no MSN, vi como partilhavam desejos, preocupações, dúvidas comuns à idade.

Por tudo isso, são valiosas as lições que vêm do Cairo.

http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/02/764083-confrontos+deixam+3+mortos+e+mais+de+600+feridos+no+cairo+diz+governo.html