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domingo, 27 de novembro de 2011

5º Encontro da Rede de Estudos Rurais

O 5o Encontro da Rede de Estudos Rurais será realizado no Campus da
Universidade Federal do Pará, em Belém, de 03 a 06 de junho de 2012,
dando sequencia à construção de uma associação que reune pesquisadores seniores e jovens estudiosos do meio rural brasileiro. Volta-se a compreender, de forma crítica as transformações em curso no mundo rural, com destaque para o lugar dos camponeses e as suas mobilizações sociais, nessas transformações.


O tema geral do Encontro é Desenvolvimento, Ruralidades e ambientalização: atores e paradigmas em conflito. Destaca as profundas alteraçõesconceituais que vêm se acentuando e exigindo tratamento diferenciado noque diz respeito à relação entre ciência, sociedade e natureza. A página do evento é: http://www.redesrurais.org.br/

Cristiano Wellington Ramalho, da Universidade Federal de Sergipe, Naína Pierri, da Universidade Federal do Paraná e eu, Maria Cristina Maneschy, da Universidade Federal do Pará, estamos coordenando o
GT 8: Formas de participação de pescadores artesanais na gestão ambiental: potencialidades e limites. 

O prazo para envio de propostas é 16 de janeiro de 2012.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Momentos do Círio e da cidade

Por ter esticado um pouco mais da conta a noite anterior, acordei mais tarde do que eu gostaria para ir assistir a passagem da Santa e curtir a cidade no seu dia mais especial.  O "núcleo da Berlinda" já estava terminando de passar pela Praça da República quando eu saí de casa e cruzei os onze quarteirões até alcançar a Dr. Moraes com a Nazaré. Consegui chegar alguns minutos antes da imagem passar por aquele cruzamento. Não consegui ver os anjinhos e nem promesseiros levando os objetos de sua promessa ou gratidão. Mas, no caminho, ainda consegui curtir um momento que adoro, que é experimentar as ruas do bairro cheias, um cenário oposto ao vazio demográfico dos domingos de manhã por estas bandas. Uma sensação imperdível. Muita gente andando, indo ou voltando da procissão. Andar sem medo ou desconfiança. Gente sem pressa, em grupos, em famílias. Uma oportunidade especialíssima de contemplar a diversidade social de Belém, que no dia a dia é uma cidade cindida. Fossos de infraestrutura e de condições de vida separam seus moradores. 

Quando a Santa passa, muitos braços se levantam em sua direção e seguem-se as palmas, numa "orquestração sem chefe de orquestra" nas palavras de um sociólogo, Pierre Bourdieu. A emoção do momento é arrebatadora. 

Eu estava posicionada a uma meia quadra da Av. Nazaré. Portanto, era um lugar onde quase não se escutavam as falas e cânticos dos alto-falantes da procissão. Assim, mais impressão causava aquela uniformidade à distância, aquela enorme reverência coletiva. Quantos são os pedidos, as promessas, os agradecimentos e os diálogos íntimos que cada um dirige à Santa e a si mesmo naqueles breves e mágicos instantes!

http://www.orm.com.br/

Sobre a maré humana, clique em Leia Mais abaixo.


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Encontro Mundial de Blogueiros

Através de uma das redes de que participo, soube da realização nos dias 28, 29 e 30 de Outubro de 2011, em Foz do Iguaçu, do 1º  Encontro Mundial de Blogueiros. Entre os muitos convidados estão o sociólogo espanhol Manuel Castells e os jornalistas brasileiros Luis Nassif, Hildegard Angel e Paulo Henrique Amorim. As inscrições podem ser feitas na página do evento: www.blogueirosdomundo.com.br.
Consta que há grande expectativa quanto à presença de Julian Assange, criador do Wikileaks, no encontro mundial.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Convite Simpósio Democracia, Feminismos e Movimentos de Mulheres

Convido meus queridíssimos "seguidores" para um evento super importante que está sendo promovido pelo GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero), da UFPA, nos dias 5 e 6 de maio. A programação detalhada está no blog Política e Crônicas, cujo link está abaixo, na lista de blogs a conferir. 

Dentre as várias mesas de grande interesse, destaco as que ocorrerão ao longo do dia 6 de maio, sexta-feira. As expositoras convidadas estão na liderança de associações  de mulheres de vários municípios do Pará e pretendem refletir sobre suas experiências na obtenção de recursos, cidadania, em suma, de empoderamento local, enfrentando os desafios de contestar padrões de comportamento relativos a sua posição social de classe e de gênero. 

São experiências que merecem ser conhecidas do público mais amplo e a oportunidade é única. Conforme o contexto, elas estão atuando em frentes diversas: na implantação de unidades de conservação ambiental; em processos de co-gestão e de aproveitamento de recursos da biodiversidade amazônica; de valorização dos saberes locais; geração de trabalho e renda, notadamente em localidades rurais; finalmente, de reconhecimento de sua condição de trabalhadoras. Fazendo parte de redes sócio-políticas diversas, elas têm histórias de sucesso e, também, de fracassos, de conquistas e recuos.  

Paradoxalmente, uma característica comum à maioria das experiências associativas é a pouca atenção de governos municipais. É paradoxal, tendo em vista que muitas iniciativas têm potencial de dinamizar as economias locais. Em um Estado no qual o setor formal da economia é restrito, não se pode mais afirmar que falta capacidade de iniciativa nestas paragens. Suas histórias se passam em um verdadeiro "mar" de infraestrutura precária, necessidades de fomentar habilidades técnicas e de gestão, cegueira política, além dos velhos preconceitos quanto à capacidade econômica e política de mulheres de pouca renda e escolaridade. Tudo isso reforça a baixa auto-estima e a desconfiança, interna e externamente às comunidades de origem, reproduzindo, mas também revertendo, a velha invisibilidade. 

 

quarta-feira, 9 de março de 2011

AMAZÔNIA FRANCESA; TÃO PERTO, TÃO LONGE

O Brasil não conhece a África
mas a Àfrica sabe bem o Brasil...
Essas frases da música de Gonzaguinha vêm em razão de uma recente viagem que fiz a Cayena, junto com uma cara colega, Edma Moreira, para apresentar um trabalho em co-autoria com Jean Hébette, no Colóquio Patrimonialização e Desenvolvimento, promovido pela Universidade das Antilhas e da Guiana (http://www.colloque-patrimonialisation-guyane.com/colloque-Patrimonialisation-Guyane/Bienvenue.html). Desde os procedimentos iniciais para tirar o visto, quando constatei que brasileiros precisam de visto para entrar na Guiana, embora não para fazer turismo na metrópole, tive a impressão de que a maioria de nós, no Pará, conhecemos pouco, ou quase nada da vizinha Guiana, apesar das ligações históricas do passado. Por outro lado, aprendi que dentre os países que fazem fronteira com a França, é com o Brasil que ela divide sua fronteira mais extensa: 730km.

No entanto, muitos dos que lá vivem conhecem alguma coisa do Brasil, e da Amazônia em particular. Digo isso, em primeiro lugar, porque os professores com os quais conversamos quase todos tinham vindo mais de uma vez ao Brasil, para passear, fazer pesquisa, fazer compras ou participar de evento. A propósito, uma pesquisadora da área de Biblioteconomia na cidade de Cayena, que disse conhecer "Mosqueiro, Icoaraci, Belém, Manaus, estados nordestinos etc." fez uma reflexão peculiar sobre nós outros. Ela considera que os brasileiros têm uma maior integração ao ambiente natural, comparativamente aos seus conterrâneos, a exemplo a quantidade de frutas  regionais que se aprecia no norte e nordeste do Brasil, enquanto que em Cayena eles se voltam muito à França, consomem mais as coisas que vêm de lá e, portanto, não valorizam seus recursos naturais como nós, brasileiros, aparentemente fazemos. Mas, ela também vê uma analogia entre essa relação deles com a metrópole e a atitude "brasileira" de sobrevalorizar o que é do sul e sudeste do país. 

Em segundo lugar, há muitos brasileiros naquele território francês de além mar, imigrantes "legais" e "ilegais", assim como chineses, vietnamitas, surinameses, haitianos... a ponto de formarem grupos reconhecíveis. Os chineses visivelmente concentram inúmeras lojas nas ruas do centro comercial de Caiena. Os brasileiros, em sua esmagadora maioria amapaenses e paraenses, são comumente recepcionistas ou arrumadores em hotéis, garçons, ou atendentes em lojas. Trabalham também na construção civil. Na zona rural, são muitas vezes garimpeiros. Vi uma loja de compra de ouro em Cayena com inscrições em francês, português e duas outras línguas. 

Ao que pude perceber, a Guiana, sobretudo desde as duas últimas décadas, vem valorizando sua composição multicultural, pelo menos em discursos públicos. Assim consta no pequeno livro Guyane, l'incroyable guide, do Comitê de Turismo da Guiana (www.tourisme-guyane.com), que traz na sua primeira página: "Bem vido à Amazônia Francesa". O guia tem uma seção intitulada: "A incrível diversidade dos povos", fazendo referência aos ameríndios, aos Hmongs originários do Laos, e aos Bushenengués descendentes dos escravos revoltados , grupos aos quais correspondem tradições, uma arquitetura e um artesanato original. As seguintes linhas arrematam o texto: "Com seus 190.000 habitantes, a Guiana é um caleidoscópio de etnias, majoritariamente instaladas sobre o litoral, que dão um raro exemplo de concórdia e convivialidade". Belos  e importantes dizeres em uma conjuntura que é de inquitetude e embaraço por parte dos governos da União Européia frente às levas de migrantes que deixam a Líbia, o Egito e a Tunísia teimando em cruzar o Mediterrâneo em fuga dos problemas políticos; entre eles acha-se uma parcela de migrantes "econômicos", ao ver dos responsáveis políticos, pessoas que "aproveitam a oportunidade para ir trabalhar na Europa", dizem

É, portanto, pena a ausência de maior intercâmbio - comercial e cultural - entre os territórios que partilham a Amazônia, histórias com muitos pontos em comum, assim como diversidade cultural. Claro que há trocas, um contínuo vai e vem de populações, especialmente em busca de meios de vida, mas evidentemente sem a visibilidade do turismo de massa, oficialmente registrado. Entre Belém e Cayena são menos de duas horas de avião, mas há só um vôo semanal. No vôo que fizemos saindo de Macapá era grande o número de assentos vazios. 

É também pena que, assim sendo, não  haja estímulos ao turismo interregional, inclusive para aprendizado da língua francesa e, no caso, da língua crioula francesa. A propósito, uma das expositoras, professora da área de literatura, apresentou um programa recente nos diferentes níveis de ensino público em Cayena, que pretende introduzir nos currículos escolares conhecimentos sobre os povos que formaram a sociedade guianense, suas culturas, arte e história. Intercâmbios sobre experiências de valorização multicultural em áreas periféricas nos respectivos contextos nacionais, são muito oportunos.  Exemplo,  o reconhecimento dos territórios dos povos remanescentes de quilombos,  ou então as reservas de proteção ambiental com garantia de direitos aos habitantes tradicionais, importantes lá e cá. Essas experiências podem ser interpretadas como re-escrituras das histórias coloniais, desta feita a partir das realidades socioculturais locais.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sobre mulheres pescadoras em um evento de engenheiros e técnicos de pesca

A realização conjunta IV Semana de Engenharia de Pesca e II Semana de Técnico em Pesca e Aquicultra do Pará, de 13 a 16 de dezembro de 2010 na Universidade Federal Rural da Amazônia, em Belém, teve como slogan uma frase que apontava para uma ciência aplicada em prol das comunidades que vivem das lides pesqueiras: Ciência como veículo de difusão e tecnologia na Engenharia de Pesca para as comunidades pesqueiras e aquícolas
Durante a discussão de uma das mesas a que pude assitir, sobre o aproveitamento dos produtos da pesca, argumentava-se que esse processamento, ainda longe de ser efetivado na medida do volume de pescado produzido no Pará,  contribuiria para reduzir a pobreza das comunidades. Uma das autoras fechou sua palestra lembrando as grandes possibilidades e os desafios maiores para que isso se torne realidade. A propósito, participantes da mesa  instaram os alunos para que, em sua vida profissional, não viessem a esquecer esses princípios de produção de ciência e tecnologia comprometidas com a promoção humana.
A mesa seguinte, para a qual fui convidada a expor, versava sobre organização das mulheres pescadoras no Estado do Pará. Acho que vale uma reflexão sobre  a inclusão dessa mesa na programação. A própria temática é fruto de mudanças que vêm ocorrendo no Brasil e em outros países, sobretudo a partir de meados dos anos 1990, quando se começou a prestar  mais atenção  à presença feminina, que ocorre de muitas maneiras no setor pesqueiro. 
A atenção à divisão sexual do trabalho no setor deriva de muitos fatores. Por exemplo, as evidências cada vez maiores de degradação dos principais recursos pesqueiros, decorrente do padrão predominante de desenvolvimento da pesca até então, levaram a uma maior sensibilidade para a racionalidade de outras práticas tecnológicas e para comunidades que haviam sido classificadas como rudimentares e necessitadas de se modernizarem. 
Em linhas gerais, como é conhecido, aquele padrão centrara-se na intensificação dos esforços de captura sobre espécies de  valor comercial, como atuns, lagostas, camarões,  sardinhas, bagres para exportação, como a piramutaba no caso do litoral amazônico, dentre outras. Tecnologias de crescente poder de predação foram desenvolvidas - como os arrastos motorizados - que viabilizaram a vertiginosa expansão da indústria do pescado, notadamente entre as décadas de 1970 e 1980.  
Evolução da produção pesqueira mundial - 1950-2002 (FAO, 2004)

Muitos estudos e movimentos sociais já deixaram claro que o estilo de expansão da pesca extrativa deu-se em detrimento do meio ambiente e das comunidades de pescadores artesanais, chamados também de pescadores de pequena escala, que secularmente produziram e abasteceram os mercados. E as comunidades dizem respeito aos conjuntos de pessoas que as formam, com suas relações e culturas, mulheres e homens de diferentes idades, formas de colaboração, conflitos e histórias. 
Correlativamente a isso, os sistemas de administração pesqueira distanciaram-se das comunidades, foram centralizados em burocracias estatais ou, mais recentemente, privatizados, como ocorre com as quotas transferíveis de pesca em alguns países. As formas locais de gestão, ou seja, de regulação do acesso  e uso dos territórios de pesca, foram o mais das vezes ignoradas ou  desestruturadas. Nessa época do "desenvolvimentismo", não se falava em co-gestão, gestão participativa ou gestão comunitária na pesca.

Por outro lado, a atenção à presença das mulheres deve-se, também, a mobilizações sociais relacionadas à defesa dos interesses das categorias de pescadores artesanais e à influência de movimentos feministas e de mulheres trabalhadoras na pesca e em outros setores, em particular na agricultura. Há, ainda, a influência dos movimentos ambientalistas, da consciência ambiental e de pesquisas que vêm sendo feitas nos últimos anos sobre o assunto, como mostra uma consulta ao sítio Web of Sciences na internet. 

Desse modo, embora a inserção do tema das mulheres em eventos dessa natureza já não cause a mesma surpresa que antes, penso que ela é sempre motivo de alegria. Pois, decerto, isso traduz as novas concepções que estão a balizar a formação dos quadros técnicos e científicos na área,  que o slogan do evento convida a pensar: não a distância  autosuficiente do saber acadêmico frente a seus "objetos", mas uma compreensão da responsabilidade social dessa produção. 
Penso que, ao contemplar a temática, os organizadores compartilham da concepção ampliada de trabalhadores da pesca que encontra eco na legislação brasileira recente e que vem responder a persistentes demandas das mulheres nas comunidades, por reconhecimento profissional e político.
Embora minha exposição tenha suscitado poucas perguntas da platéia, vale registrar que após a mesa fui procurada por dois alunos do primeiro ano do curso de técnicas em aquicultura, no município de Castanhal, no Pará. Eles disseram estar estudando a participação das mulheres na aquicultura e, por isso, buscavam bibliografia relacionada. Interessante esse olhar iniciante do campo de estudo a partir da condição das mulheres que lá trabalham!