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domingo, 13 de maio de 2012

Cadeia produtiva de mães

Dia desses, em discussão em aula sobre relações de gênero e trabalho, discutimos dois textos de literatura - de  Cora Coralina (Tesouros da Casa Velha) e de Maria Lúcia Medeiros (Velas por quem?). Enfocavam uma biografia outrora típica de mulheres pobres em cidades provincianas do Brasil, que começaram cedo nas lides domésticas em casa alheia. Pois bem, nas discussões em sala, surpreendemo-nos, alunos e professora, com os casos de uma aluna e um aluno que eram, respectivamente, filha e neto de uma dessas meninas "crias" em casa de família. Menos surpreendentes foram os relatos de várias alunas, de que podiam estar ali, investindo em sua formação profissional, por disporem dos serviços de uma mulher, geralmente uma empregada doméstica, a quem confiam filhos pequenos ou alguém na casa que requer cuidados contínuos, uma pessoa idosa por exemplo.

Manifestavam-se ali traços comuns do exercício da maternidade entre nós. Um deles, a "conciliação" vida familiar e atividade profissional, assunto de mulheres. Alunas se referiram a essa experiência, reforçando o que a literatura pertinente aponta quanto ao fato se ser essa uma solução que ainda diz respeito, sobretudo, às mulheres. São elas, principalmente, que enfrentam os dilemas e as culpas quando as formas de acomodar ambos os planos, ambos os sonhos, são atrapalhadas, desajeitadas, não se acha a pessoa certa, não se tem o tempo desejado, não se supre devidamente as carências, das mães e dos filhos. Outro traço comum verificado foi a frequência com que nossas "ajudantes", "secretárias", empregadas domésticas que são, muitas vezes, cuidadoras sem o reconhecimento profissional pertinente, também fazem a conciliação vida e trabalho. Também elas recorrem a outras, da família ou de fora, tirando parte dos rendimentos para pagar uma cuidadora para seus próprios filhos e parentes.

E, assim, desse modo privado, doméstico, seguimos resolvendo parte da tensão da chamada conciliação entre vida familiar e trajetória profissional, com maiores ou menores possibilidades, pois as desigualdades sociais são profundas. Daí me ocorreu a idéia do título desta postagem sobre o dia das mães, a de uma cadeia produtiva que efetiva a maternidade. Trata-se de uma rede social em grande parte informal e silenciosa, feita de trabalhos e cuidados, afeto e conflitos, reconhecimento e invisibilidade, direitos conquistados e, não obstante, negação de direitos.

E as mães seguem dando vida, amor, cuidados, até nos nomes que escolheram para os filhos, sozinhas ou compartilhando a decisão com os companheiros, nomes que refletem o fato de que, especialmente naquele instante em que deram à luz, sonharam um futuro bom para os seus.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Equidade de gênero na economia

Dentre outros sentidos, 8 de março evoca os avanços rumo à equidade nas relações de gênero em muitas sociedades. Tal equidade ainda está longe de ser plena. Esse longe continua, não porque as mulheres não estejam se equiparando aos homens no acesso ao mercado de trabalho. Ao contrário. Além disso, em certos quesitos, como a escolarização, elas chegam a avançar mais que os consortes. Mas, ainda está longe porque todo o mundo associado ao feminino, o mundo dos cuidados pessoais, é ainda considerado assim, meio privado, do lar, da família. Afastar-se do trabalho para parir e cuidar da prole, ou de alguém doente em casa, ainda traz prejuízos na carreira, ou gera as chamadas "carreiras femininas". Dito isso, não se pode desconhecer as conquistas feministas em politizar o privado e desmistificar a classificação de público e privado, por exemplo, com a consagração da expressão "violência contra a mulher" e seus efeitos jurídicos e sociais. 

Equidade de gênero implica, afora mudanças culturais de peso, reorganização da economia, sua reestruturação de maneira a incorporar no cerne dos indicadores econômicos, tais como índices de produtividade e de risco, indicadores sociais, de bem estar, de segurança, de liberdade. Nossa tradição de direitos humanos permite abordar essas questões no plano da implementação de direitos humanos, direitos que são inerentes às pessoas independentemente de sua posição na sociedade, posição de classe, de gênero, ou de filiação cultural. Não existem mais direitos e deveres afirmados a uns e negados a outros com base em atributos supostamente naturais, como as diferenças de sexo. Equidade de gênero no sentido aqui em questão envolve romper uma história secular de separação entre economia e sociedade, fundada na crença do liberalismo clássico no advento da era industrial, de que a saúde da primeira, a economia, produz a saúde da segunda, a sociedade, via aumento da riqueza e sua redistribuição. Que o digam os atuais desempregados na Europa, para quem os cortes orçamentários públicos e os cortes nos empregos não apontam para qualquer luz no fim do túnel e nem para justas compensações por sacrifícios em prol do "bem maior"! 

Como disse em um artigo escrito com as colegas Luzia Álvares e Deis Siqueira: "As relações de gênero beneficiam a ordem econômica pois contribuem na criação dos espaços e de tempos da produção, em que agentes desembaraçados de obrigações extra-econômicas podem legitimamente aplicar a racionalidade tout court, a lógica do crescimento e da eficiência, separados, em grande medida, dos tempos e espaços da vida privada, da vida comunitária e das sociabilidades de uma maneira geral. De tal modo, não são contabilizados os cuidados, que são prestados segundo a lógica da dádiva. Ademais, reduz-se o valor de mercado da força de trabalho que se vê na contingência de assumir os cuidados, ou que necessita de cuidados". 

Estamos longe de alcançar aquele ideal que movimentos feministas de países do norte apregoam e que, mais lá do que cá, tem sido alcançado parcialmente por meio de políticas previdenciárias abrangentes, embora a atual crise econômica internacional esteja cortando muitos benefícios sociais. Na síntese que a filósofa Nancy Fraser faz do tema, trata-se de tornar os os padrões correntes de vida das mulheres a norma para todos, de redesenhar instituições de modo a permitir a todos, independente de seu sexo, combinar cuidados e atividade de provisão e de organizar os trabalhos para trabalhadores que são também cuidadores.

Muito bacana, viver o tempo do trabalho sem culpa, participar da grande rede da sociedade que é a divisão social do trabalho sem precisar sacrificar relações, laços e afetos, como um padrão normal de ser e, portanto, sem as desvantagens acopladas a esse padrão. Um sonho?

* * *

Ainda a propósito do 8 de março, o Jornal Bom Dia Brasil desta semana traz uma simpática reconstituição da recente volta das mulheres aos estádios de futebol, retomando um padrão comum no início do século XX, quando a frequência feminina nos jogos era grande no Brasil. Para quem cresceu em uma cultura que associava futebol ao masculino, nos campos e nas peladas de fim de semana, as cenas da diversidade nos estádios chega a emocionar.

sábado, 22 de outubro de 2011

Orientação sexual de um filho

Uma pessoa amiga relatou-me que seu compadre, pessoa muito próxima, contou-lhe aos prantos que o filho de 22 anos lhe comunicara sua homossexualidade. Um choque do qual ele ainda não se refizera. É claro que não vivi a situação e não tenho a pretensão de saber exatamente o que deve ser feito, a boa solução em mãos. Mas, ao ouvir o relato veio-me à mente a pergunta sobre o que fazia aquele jovem na vida, se estudava, se tinha um emprego ou trabalho que lhe satisfazia, ou se caminhava para tal, se tinha uma boa formação, alegria, valores, enfim, se reunia as condições ideais de uma pessoa preparada para enfrentar a vida com autonomia, o que todos almejam para os filhos. 

Por que a opção sexual parecia tão devastadora e dissociada de outras qualidades pessoais? Há muitas razões, evidentemente. Lidar com as diferenças é difícil, não é natural, mesmo que não haja intolerância ou preconceito, como era o caso daquele pai entristecido. A socialização não ajuda. Por isso, uma grata surpresa foi redescobrir hoje um singelo livro infantil de minha filha, na forma de versos, que se propõe a mexer nessa ferida já entre os pequenos: Na minha escola todo mundo é igual, de Rosana Ramos e Priscila Sanson, da Cortez Editora.

No caso da homossexualidade, sabemos bem que preconceito pode gerar intolerância que, não raro, vira violência. Ela reduz quem a pratica a uma condição próxima da selvageria, de um ser bruto, tal qual o ser humano que é capaz de comemorar a morte de alguém. Isso, a propósito das comemorações pouco convencionais de líderes ocidentais quando sabem da morte de inimigos políticos, nestes tempos de "primavera árabe". Tempos de fronteiras morais confusas. Ou melhor, mostras de que as fronteiras morais dos nossos mundos são sempre confusas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Rupturas e continuidades no reconhecimento político das mulheres

Dentre as justificativas para a  concessão do Nobel da Paz 2011,  o presidente do comitê, Thorbjöern Jagland apontou

'Não podemos alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo a menos que as mulheres alcancem as mesmas oportunidades que os homens para influenciar o desenvolvimento em todos os níveis da sociedade'. 

Tem razão, claro, mas sob certo ponto de vista. Segundo o argumento, não se trata de questionar a fundo o  padrão de desenvolvimento, mas de igualar as oportunidades  de participar nele. Porém, justamente aí o argumento reforça as desigualdades entre homens e mulheres. Não se propõe a criticar o modelo de divisão sexual do trabalho que sustenta a ordem econômica. Ao contrário, o problema é dar condições para as mulheres participarem e, assim, se igualarem aos homens. E, de fato, são os homens que reúnem as melhores condições para operar nessa ordem, para se dedicar mais ao trabalho produtivo, à carreira, ao empreendedorismo e à empregabilidade , posto que eles são liberados dos cuidados com as pessoas, liberados das restrições culturais e socializados para agirem no mercado, a sacrossanta arena das liberdades. 

As mulheres, portanto, precisam ter acesso às oportunidades de adentrar no modelo socialmente valorizado, que é o da atuação na esfera pública, no nível da economia, da política, da cultura, da vida social em geral. Ocorre, porém, que o modelo funciona  porque a divisão sexual do trabalho e seus correlatos culturais asseguram que grande parte dos cuidados de que todos necessitam são assumidos no plano privado. Isto é, fazem parte dos atributos naturais da família e de seus membros mais talhados para a função, sobretudo as mulheres. Quando cuidados pessoais são realizados no mercado, além dos baixos preços atribuídos às funções pertinentes - exemplo, ensino infantil e fundamental, cuidados de saúe etc.  - também incidem aspectos delicados em certas situações, como a qualidade da atenção dada a pessoas idosas e doentes. 

Como construir uma organização social e econômica que efetivamente traga para o centro das atenções os cuidados com as novas gerações, com as pessoas em geral, especialmente com as pessoas mais vulneráveis, assim como as questões da produção e da vida plena para todos? Não como questões de mulheres, mas como questões políticas, de políticas públicas e de compromissos individuais e coletivos? Como fazer interagir de maneira mais dinâmica os papéis sociais de trabalhadores, de produtores e de cuidadores, aos quais todos nos dedicamos com maior ou menor intensidade em diferentes momentos de nossas vidas, sem que o exercício desses papéis seja fonte de desvalor, de subordinação ou opressão? A velha separação entre público e privado está aí para retirar de pauta boa parte dessas questões. Debates enviesados sobre custos previdenciários da maternidade e da paternidade muitas vezes esterilizam o significado social e cultural do que está em jogo: que sociedade queremos? que organização social e econômica? e o que queremos efetivamente que mude quando se reconhece os direitos das mulheres como direitos iguais?

Mulheres Nobel da Paz

As três ganhadoras do Nobel da Paz deste ano vêm de contextos onde além da democracia precária ou inexistente, a opressão da mulher é muito forte, o que se traduz nos déficits educacionais e de participação na vida social e política para as mulheres. Nesse sentido, em seu ativismo político, elas contribuem também para desconstruir os modelos culturais em suas sociedades e a desvendar os elos entre tais modelos e os sistemas econômicos e políticos.  Ellen Johnson-Sirleaf foi a primeira mulher a chefiar um país africano, a Libéria e, além de executar programas de educação especiais para mulheres, criou um tribunal para julgar casos de estupro. A assistente social Leymah Gbowee, também da Libéria, é mãe de seis filhos e reconhecida por seus esforços para o fim da segunda guerra civil no país, em 2003. Para tal, ela mobilizou mulheres cristãs e muçulmanas para a luta comum e incentivou-as a realizar as chamadas 'greves de sexo', rejeitando sexo com seus parceiros em busca de um objetivo. A terceira laureada - Tawakkul Karman - é iemenita, jornalista e mãe de três, diretora da organização 'Mulheres Jornalistas sem Correntes'. Há cinco anos lidera manifestações em prol dos direitos humanos e de poder para as mulheres, tendo sido presa por duas vezes. Nesses pequenos excertos de suas biografias, vê-se que elas ampliaram o horizonte da ação política.

As informações sobre as premiadas aqui apresentadas foram transcritas da página da BBC Brasil: As ganhadoras do Nobel da Paz.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Namoros novos, velhas atitudes

Em seu tempo, a pílula anticoncepcional foi saudada como grande fator de libertação das mulheres, conferindo-lhes um controle inédito sobre sua vida reprodutiva e sexualidade. Contudo, essa novidade extraordinária, cultural, científica, tecnológica, mantinha a dominação masculina nessa esfera da vida, a tradicional divisão de trabalho que  faz recair sobre as mulheres os maiores ônus do planejamento e  do controle da natalidade. 

No caso da pílula, são elas que assumem sós os efeitos colaterais possíveis da sua administração por longo tempo. No caso da esterilização, a laqueadura de trompas é uma intervenção cirúrgica mais complicada que a vasectomia masculina, mas a primeira predomina numericamente. Essa prática se ajusta à visão naturalizada de que a contracepção é, em primeiro lugar, assunto de mulher. Aliás, para muitas pessoas a própria concepção é assunto principalmente da mulher, como mostram as taxas de mães solteiras sem parceiro conhecido e os abandonos de bebês em que só se tem notícia da mãe, a grande culpada. 

A vigência de tais valores evidenciam-se em esferas públicas, na carência de creches e outros equipamentos coletivos na maioria das cidades brasileiras, estruturas que facilitem a conciliação entre trabalho e maternidade, especialmente para mulheres de baixa renda. É certo que a lei procura trazer equidade a essas relações, mas a força dos costumes ainda manda nas atitudes e na definição de políticas públicas e privadas. Ainda manda na tolerância que se tem com as dificuldades cotidianas que mulheres pobres enfrentam nos postos de saúde em busca de cuidados para os filhos pequenos. Ou na prática de compra de votos femininos com esterilização, cada vez mais rara, felizmente. 

As mulheres no Brasil e em outros países conquistaram autonomia que  gerações passadas desconheciam. Deixaram de ser sujeitas aos ritmos das suas muitas gestações, ou de suas irmãs cujos filhos tinham de ajudar a cuidar, ou ter de casar com o primeiro namorado para abafar a vergonha da família e o incerto futuro como mãe e pai ao mesmo tempo.

Uma médica que atende adolescentes opinava estes dias que se a pílula fosse boa, sem efeitos, certamente já se teria inventado uma pílula para homens. Admirava-se ao constatar como as namoradas de hoje se submetem aos papéis tradicionais em matéria de relações sexuais, arcando com os maiores custos da contracepção. Equidade, responsabilidade compartilhada, nada disso. No início da vida adulta, elas aceitam geralmente de bom grado o lugar convencional, enquanto perseguem seus projetos e sonhos, que podem ser os mesmos dos namorados, pois os direitos são iguais. Mas as preocupações e providências para evitar filhos precoces não são iguais. Elas transam sem grandes culpas e experimentam a liberdade sexual sem mexer no script.

Os métodos contraceptivos temporários considerados mais incertos e arriscados, o preservativo e a tabela, são também os que  induzem à partilha mais equilibrada da responsabilidade entre os parceiros. Planejamento, autocontrole e sensibilidade um para com o outro são mais necessários quando se lança mão deles. São atitudes, portanto, que questionam mais a fundo os padrões comportamentais que se acomodam à pretensa sujeição das relações sexuais aos ditames da biologia. Pelo menos nesse aspecto são  mais avançados do que a pílula e os outros métodos centrados na mulher. Cultivam novas atitudes.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Da dificuldade de se colocar no lugar do outro

As sucessivas provas de corrupção na Assembléia Legislativa do Estado e da amplitude da rede de envolvidos, levanta novamente a pergunta sobre que condições favorecem o tão frequente afastamento de políticos do que deveria ser a própria matéria de seu mandato, isto é, a causa pública. Dentre os fatores, uma característica institucional merece atenção: os privilégios associados à condição de membro do Legislativo. Não falo dos salários elevados, mas dos benefícios extra-salariais, monetários e não monetários. Ao criarem uma disponibilidade tão generosa de serviços (e serviçais), favores e proteções, podem obliterar o senso da realidade social. Junto com o poder, não é preciso tomar ônibus, faltar a um tratamento de câncer por não poder pagar o taxi, esperar anos para fazer mamografia já com mais de 50 anos, os filhos perderem aula porque a rua encheu... É compreensível desenvolver uma auto-imagem de ser acima dos comuns mortais. 

Descompassos dessa ordem, portanto, reduzem a capacidade de se colocar no lugar do outro. São mundos incomensuráveis. Daí a sobrepor os interesses de um eu tão poderoso aos da plebe ignara, é um passo que muitos têm dado.

Capacidade de se colocar no lugar do outro ao exercer função pública foi expressa pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto, durante recente entrevista. Ao se manifestar sobre o aborto em caso de feto anencéfalo, afirmou ele:  "se nós, homens, engravidássemos, a autorização para a interrupção da gravidez de feto anencéfalo estaria normatizada desde sempre". Brilhante reconhecimento das diferenças sociais e sensibilidade quanto à relatividade da própria posição de poder! As instituições políticas  ganhariam com mais exercícios dessa natureza.

Fonte da entrevista: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=45002

sexta-feira, 1 de julho de 2011

As mulheres migrantes e a agricultura familiar

Uma característica demográfica que tem sido observada no Brasil é a masculinização da população rural. Os dados censitários mostram que entre 1991 e 2000, houve uma queda de 10% da população rural brasileira, sendo que para as mulheres, a queda foi de 11%. Em 30 anos, elas passaram de 48,7% da população rural para 47%. A saída se dá em maior proporção por parte de jovens com mais escolaridade, assim como para os jovens mais escolarizados. É importante compreender o que significa esse movimento. Esta postagem baseia-se no artigo "Muito trabalho e nenhum poder marcam a vida das agricultoras brasileiras", de Taciana Gouveia  (2007), que apresenta dimensões pouco conhecidas para quem não vive o cotidiano na agricultura familiar. 

A masculinização da agricultura é fenômeno complexo, no qual incidem muitos fatores, incluindo as estratégias de sobrevivência das famílias e a busca de maior autonomia pessoal por parte das mulheres que saem. Mas, é preciso notar que, migrando ou não, elas continuam agentes da unidade produtiva familiar. Essa posição não se traduz em igualdade de acesso à renda, ao patrimônio e aos poderes de decisão na produção. 

Apesar de elas deixarem o campo em maior proporção que eles, os estudos mostram que as mulheres não se desvinculam das famílias em sua terra natal. Muito frequentemente tem se constatado que elas enviam parte da renda para ajudar na manutenção dos parentes agricultores. A pesquisa atenta às dimensões de gênero constata, ainda, que a saída das mulheres não altera o padrão tradicional de divisão sexual do trabalho. Assim, Taciana Gouveia identificou que as atividades que cabiam à mulher que saiu da unidade produtiva (cuidar da casa, das crianças, a alimentação diária, plantio, processar os produtos agrícolas, os animais domésticos, etc.) não são assumidas indistintamente pelos remanescentes, homens e mulheres. São as mulheres que assumem os "trabalhos de mulheres", inscritos na esfera da produção e da reprodução.

Se a Constituição de 1988 reconheceu a trabalhadora rural e a pescadora com plenos direitos sociais, independentemente do vínculo familiar, no dia-a-dia elas permanecem dependentes do homem que está à frente da unidade produtiva, geralmente o pai ou o cônjuge. Prevalece um padrão patriarcal de organização social e de relações de poder na agricultura familiar, conforme a autora destaca.

Os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2001, citados por Taciana Gouveia, relativos às pessoas de 10 anos e mais na agricultura (não só na categoria agricultura familiar), indicaram as seguintes participações em trabalhos não remunerados. Era nítida a desigualdade de acesso à renda monetária:


Mulheres
Homens
Atividades não remuneradas
39,25 %
17,71
Produção para consumo próprio
39,25 %
8,37%
 
As mulheres rurais são reconhecidas por investirem na diversificação de fontes de renda familiar, seja fazendo artesanato, beneficiando os produtos, produzindo para o consumo do lar, mais recentemente no turismo rural conforme a região... Elas também reforçam a renda quando estão fora da unidade produtiva, em caráter temporário ou permanente.

No Pará, em que condições elas migram? Elas vão para as grandes cidades, para as pequenas? Em que as migrações recentes se aproximam da tradicional migração de meninas do interior para "trabalhar em casa de família", como faziam as antigas "crias" retratadas por escritoras como Ana Lúcia Medeiros (Velas, por quem?) e Cora Coralina (Tesouros da Casa Velha). E a contrapartida da continuidade dos estudos na cidade?

Herdeiras de uma tradição de trabalho flexível no campo, que seguiam as flutuações das lides agrícolas, pesqueiras e do extrativismo, as jovens oriundas do meio rural por certo tendem a se inserir em trabalhos informais nas cidades da região, também flexíveis, instáveis, nos serviços domésticos, no pequeno comércio... almejando o emprego formal nos supermercados, nas lojas de departamentos, nos shoppings, enquanto prosseguem nos estudos.

Migrantes escreveram e escrevem muitas páginas de nossa história, extraindo borracha e outros produtos extrativos, nos garimpos e nos grandes projetos. Nesses setores, os homens costumavam ser maioria. E as mulheres? Eis um tema instigante de pesquisa, provavelmente revelador de muito empreendedorismo, de trajetórias de ascensão social, bem como de importantes fluxos financeiros que ajudam a sustentar vilas e vilarejos na região, junto com as transferências dos programas sociais e previdenciários.


P.S: Esta é a quinquagésima postagem do Sociologando!

domingo, 26 de junho de 2011

Dimensões do trabalho sob a ótica feminista

As muitas críticas que os movimentos feministas fizeram às desigualdades presentes nas relações sociais entre os sexos, ou seja, às relações de gênero, trouxeram profundas contribuições para o conhecimento da dinâmica das sociedades contemporâneas. No tocante à economia, o feminismo ampliou nossa compreensão sobre trabalho, este fato social central da vida moderna. O trabalho que conhecemos acompanhou a ascensão do capitalismo; trabalho a partir do qual passamos a "ganhar a vida" e não apenas a reproduzir nosso status de nascimento, pré-definido segundo a classe, a casta, a "raça", a etnia ou, então, segundo nosso sexo. Como se sabe, a história concreta do acesso ao trabalho e aos meios de vida foi muito mais complicada e essas marcas de classificação social não foram simplesmente perdendo força em prol dos critérios próprios da economia moderna, como a competência, a qualificação, os títulos escolares, enfim, o mérito. 

O feminismo contribuiu para destacar como as relações de gênero influenciaram desde o início do capitalismo, quando as mulheres pobres tiveram de trabalhar - como sempre, aliás - mas por salários inferiores aos dos homens; afinal, sendo o lar e os cuidados sua vocação "natural", seus rendimentos eram vistos como complementares aos dos reais produtores, os homens. Além de mão de obra barata, seu labor gratuito na reprodução da força de trabalho contribuía para suportar os baixíssimos salários das primeiras gerações de operários, quando os direitos sociais ainda não entravam na contabilidade.

Quando as atividades produtivas deixaram o espaço doméstico, passando a ser realizadas em organizações próprias, como as empresas, criou-se também a representação em separado das fontes de manutenção das famílias: o trabalho fora de casa, gerador de renda; as lides domésticas, o não trabalho. As muitas atividades no lar não contavam na nova economia monetária. A separação da vida social em duas esferas - a pública e a privada - acentuou-se desde então, com efeitos mútiplos, culturais, políticos, ideológicos, quase sempre em detrimento das mulheres.

É interessante notar que, assim como as mulheres assumiram funções indispensáveis já nos primeiros tempos do capitalismo industrial, as transformações contemporâneas na economia globalizada também são marcadas por particularidades para mulheres e homens trabalhadores. Assim, o documento da UNIFEM (Fundo das Nações Unidas para as Mulheres) intitulado Who answers to women? Gender & Accountability, referente a 2008 e 2009, apresenta dados elucidativos, desagregados para os vários continentes. No capítulo chamado Mercados consta: "A globalização levou a uma demanda sem precedentes por mulheres trabalhadoras em setores chave. Por exemplo, elas são uma presença maior nos novos serviços terceirizados, como telemarketing e serviços financeiros. Um economista observou: 'as mulheres emergiram como força de trabalho flexível por excelência nos setores intensivos em mão de obra, altamente competitivos da economia global'". Dentre as razões dessa preferência pela mão de obra feminina, o velho pressuposto de que os homens são os provedores e as mulheres ganham uma 'renda extra'. Além disso, discriminações de gênero forçam-nas a aceitarem trabalhos de menor remuneração, na agricultura, ou em indústrias que tradicionalmente absorvem mais mulheres, como os serviços pessoais.

Um aspecto inusitado refere-se ao fato de que entre os migrantes em busca de trabalho no mundo, o contingente de mulheres vem crescendo. E elas são maioria entre os migrantes com nível universitário, exceto na América do Norte, segundo dados de 2007 citados pelo documento da UNIFEM. Conclui o documento que as mulheres lideram a "fuga de cérebros".

Nas chamadas Zonas de Processamento para Exportação (EPZs), enclaves onde há isenção fiscal e regulações ambientais e trabalhistas fracas ou inexistentes, as indústrias demandam sensivelmente mais mulheres que homens. A proporção é de mais de 75% em países como Nicarágua, El Salvador, Cabo Verde e Bangladesh, mais de 70 % nas Filipinas, Panamá, Madagascar, e mais de 50% no México, Quênia e Malásia, para citar alguns exemplos do texto.  

Finalmente, o diferencial de renda entre homens e mulheres em trabalhos similares, o "gender gap", persistia na maior parte do mundo. A média global em 2006 e 2007 era de 17%, sendo maior o gap no setor privado do que no setor público. No quadro, o Brasil se comportava relativamente bem, com 15%, abaixo da média portanto, embora ainda um diferencial signficativo.

sábado, 7 de maio de 2011

Falta o pai

Os tristes episódios de abandonos de bebês em ruas, enfiados em sacos, em latas de lixo, ou simplesmentes deitados em calçadas, têm ganho os noticiários com uma frequência muito perturbadora. Dá um grande alívio quando se sabe que uma dessas "Vitórias", "Marias", "Josés"... se salvam sem sequelas e, sobretudo, encontram um meio de amor. Vencem, assim, sua primeira batalha na vida, logo ao entrarem neste mundo louco.

Ao mesmo tempo, vem a mente a pergunta sobre o que passou essa mãe involuntária, qual sua dor, o que a levou ao ato cruel. O público não simpatiza com ela, é claro. E não é possível isentá-la das culpas e responsabilidades. Contudo, na exposição dos casos pela mídia, incomoda a quase total ausência do pai, a pouca discussão quanto a seu papel no enredo. As luzes e os rigores da lei recaem, óbvio, sobre a mãe. Quase nada se diz sobre esse outro "culpado". Sua culpa, o mais das vezes, é pelo que deixou de fazer quando assumiu o risco da paternidade. Não se interessou, não perguntou, não verificou, não ajudou, sequer duvidou. Uma atitude leve. A mãe é desproporcionalmente penalizada.

É invevitável conceber que esses casos, com sua frequência, expõem contradições da sociedade. No geral, essas mulheres desconhecem os caminhos para tomar uma medida sábia no caso, que é entregar a criança para a adoção pelos meios legais, o que pode significar amor, abrindo a possibilidade de uma vida digna para a criança. Não se trata aqui somente de uma questão de falta de acesso à informação, do ponto de vista técnico. Há o distanciamento no trato com a burocracia, especialmente a jurídica, que boa parte da população brasileira experimenta. Por outro lado, a percepção de direitos e deveres fica mais embotada em uma situação de gravidez indesejada, solitária, envergonhada. A solidão, não necessariamente significa estar sozinha, mas sentir que o meio social próximo é hostil e fechado ao seu drama. E, sobretudo, sem um companheiro.

A precaríssima oferta de creches públicas de qualidade, de atenção à saúde das mulheres, além de conhecimento e acesso a meios contraceptivos variados têm também sua parcela de culpa na sorte dessas pessoinhas recém chegadas. E dessas mães às avessas.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Convite Simpósio Democracia, Feminismos e Movimentos de Mulheres

Convido meus queridíssimos "seguidores" para um evento super importante que está sendo promovido pelo GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero), da UFPA, nos dias 5 e 6 de maio. A programação detalhada está no blog Política e Crônicas, cujo link está abaixo, na lista de blogs a conferir. 

Dentre as várias mesas de grande interesse, destaco as que ocorrerão ao longo do dia 6 de maio, sexta-feira. As expositoras convidadas estão na liderança de associações  de mulheres de vários municípios do Pará e pretendem refletir sobre suas experiências na obtenção de recursos, cidadania, em suma, de empoderamento local, enfrentando os desafios de contestar padrões de comportamento relativos a sua posição social de classe e de gênero. 

São experiências que merecem ser conhecidas do público mais amplo e a oportunidade é única. Conforme o contexto, elas estão atuando em frentes diversas: na implantação de unidades de conservação ambiental; em processos de co-gestão e de aproveitamento de recursos da biodiversidade amazônica; de valorização dos saberes locais; geração de trabalho e renda, notadamente em localidades rurais; finalmente, de reconhecimento de sua condição de trabalhadoras. Fazendo parte de redes sócio-políticas diversas, elas têm histórias de sucesso e, também, de fracassos, de conquistas e recuos.  

Paradoxalmente, uma característica comum à maioria das experiências associativas é a pouca atenção de governos municipais. É paradoxal, tendo em vista que muitas iniciativas têm potencial de dinamizar as economias locais. Em um Estado no qual o setor formal da economia é restrito, não se pode mais afirmar que falta capacidade de iniciativa nestas paragens. Suas histórias se passam em um verdadeiro "mar" de infraestrutura precária, necessidades de fomentar habilidades técnicas e de gestão, cegueira política, além dos velhos preconceitos quanto à capacidade econômica e política de mulheres de pouca renda e escolaridade. Tudo isso reforça a baixa auto-estima e a desconfiança, interna e externamente às comunidades de origem, reproduzindo, mas também revertendo, a velha invisibilidade. 

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homenagens à grande pesquisadora

Tributo de Saudade a Saffioti
Maria Luzia Miranda Álvares* 
Heleieth I.B. Saffioti , a grande pesquisadora, pensadora, professora, feminista faleceu no ultimo dia 13, aos 76 anos, em São Paulo/SP. O mundo intelectual brasileiro perdeu não só uma grande incentivadora dos estudos sobre a questão da mulher, mas e principalmente sobre a violência doméstica, o marxismo, a história das mulheres brasileiras, escrevendo um dos livros mais importantes para estes estudos hoje esgotado: “A Mulher na sociedade de classes- mito e realidade”)1969). Foi importante na formação de toda uma geração e esse testemunho pode ser dados por quantos leram seus livros, artigos ou presenciaram suas conferências, palestras em tantos eventos nacionais e internacionais. 
http://politicaecronicas.blogspot.com/
 
Minha homenagem a Heleith Saffioti 
Ana Cleide Guedes Moreira*
 Hoje, São Paulo chuvosa, 
assiste a partida 
de uma feminista que mudou 
nossos rumos
de mulheres brasileiras.
Ela se vai, sabe-se lá para onde,
mas aqui deixará saudades.
Sua generosidade em analisar a si mesma,
enquanto pensava em todas, 
foi talvez sua maior grandeza.
*Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Pará 
 
Cristiane Faustino*
... de fato uma das maiores referências para o pensamento e ação feministas,
 especialmente no que se refere ao desvelamento das privações que as 
mulheres enfrentam desde a vida e trabalho domésticos!
* Instituto Terramar
Ida Lenir Gonçalves*
Eu não sou feminista, mas reconheço a contribuição de todos aqueles e 
aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ser cidadãs, donas
 do nosso próprio nariz.  
Enfim, os precursores dessa luta mostraram que as mulheres são diferentes sim,
 mas não são o estereótipo estabelecido de fêmea, amante e mãe que lhes 
foi imposto e que assumiram durante milênios. 
* http://diariodeumamulherdespeitada.wordpress.com 
 
Maria Antônia Nascimento*
... embora ela não rejeitasse a categoria de gênero que, se
tornou hegemônica no contexto da produção feminista nas últimas
décadas, ela como Mary Castro, vinham advertindo para o caráter
extremamente palatável da mesma, o que pode implicar, segundo elas, uma
despolitização da exploração e opressão das mulheres na atualidade.
Neste sentido, ela não abria mão da relevância do conceito de
patriarcado no contexto do capitalismo contemporâneo.
Saffioti VIVE!
 * Docente do Mestrado em Serviço Social, Universidade Federal do Pará
 
Izaura Fischer*
Ela realmente  
deixa um vácuo nas reflexões sobre a condição das mulheres. No  
entanto, como profunda conhecedora do assunto, ela nos deixou também  
um legado importante sobre a temática que ainda vamos passar alguns  
anos para ter um verdadeiro entendimento sobre tudo o que ela escreveu.
Eu e a colega Lígia Melo tivemos a opornidade de desfrutar da sua  
companhia algumas vezes e sempre ela tinha o que nos ensinar e, nós o  
que aprendermos com ela. Uma vez fomos convidadas por ela a ir a sua  
casa em S. Paulo, na Praça da República. Em seu apartamento super  
organizado e bonito passamos muitas horas trocando idéias, jogando  
conversa fora e sorrindo, enquanto degustávamos um bom vinho  
acompanhado de uma boa tábua de frios que ela mesma preparou. Naquele  
momento podemos ver que por tras da rigidez que ela demonstrava pensar  
e viver existia aquela pessoa leve que sorria bastante e que nos  
tratava com muito respeito e carinho. Ouvia nossas idéias sobre as  
mulheres rurais, ao mesmo tempo em que discutia e apontava caminhos  
possíveis para pensarmos. Essa lembrança nós guardamos dela com muito  
apreço, ao mesmo tempo em que continuamos a nossa busca no  
entendimento criterioso que ela nos deixou sobre a condição das  
mulheres, temática que coerentemente se destinou a pensar durante toda  
a sua trajetória acadêmica política. Em um dos seus últimos artigos  
produzido e publicado pelo SOSCORPO ela convida as acadêmicas  
feministas a refletirem sobre ecologia ao indagar sobre Quantos sexos?  
Quantos gêneros? Unissexo/unigênero. Quem sabe essa seria a temática  
sobre a qual iria refletir se não tivesse sua vida interrompida nesse  
momento?
*Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco - Pernambuco
 
Maria José*
Heleieth Saffioti politiza o conceito de gênero a partir da condição da mulher, 
contribuindo para que esta categoria gênero (...) fortaleça as lutas e seja mais um instrumento
para desvelar as desigualdades e explicitar a construção social da desigualdade. 
Sua contribuição, que é relacionar as categorias de gênero e classe, o fez de forma muito
importante para o Brasil, onde a luta pela igualdade tem como questões estruturantes o gênero, 
a raça e a classe.
* Conselho Pastoral de Pescadores - Bahia 

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma grande pesquisadora sobre a condição da mulher

Através do GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero), soube hoje da morte da Professora Heleieth Saffioti, uma das pesquisadoras que abriu ricos caminhos de investigação sobre a condição social da mulher no Brasil. Caminhos que não mais fecharam ou, melhor dizendo, enveredaram por vias muito profícuas, através dos estudos feministas e de gênero desde então.

Não a conheci pessoalmente. Mas, certamente, compartilho com muitos colegas o reconhecimento de que ela foi uma referência na formação dos cientistas sociais brasileiros. Em seu grande livro A mulher na sociedade de classes, nos anos 1970, sob uma perspectiva marxista, ela levou seus leitores a compreenderem essa "condição", ou seja, essa posição social particular da mulher, seu status diferenciado do status dos homens, na dinâmica social mais ampla. As discriminações que as mulheres sofriam, expressas com especial clareza nas principais características de sua inserção no mercado de trabalho, não eram resultado de uma disfunção, ou de uma visão atrasada, sobretudo em sociedades economicamente menos desenvolvidas. Visão que, portanto, seria superada com a modernização. Saffioti evidenciava, por exemplo, através das estatísticas sobre trabalho feminino no Brasil, o quanto elas estavam atrás em carteira de trabalho assinada, salários e acesso ao emprego formal.


A notar que, com sua respeitável bagagem acadêmica, ela elaborou um estudo pioneiro sobre o emprego doméstico - que era então, disparado, o principal absorvedor da força de trabalho feminina no país. Eram trabalhadoras que tinham alcançado há apenas poucos anos, em 1972, uma cobertura mais convincente de direitos trabalhistas. A nova legislação deixava para trás aspectos das relações servis que as profissões domésticas haviam recebido do escravismo e que teimavam em permanecer nas relações entre patrões/patroas e empregados, sobretudo empregadas, pois eram mulheres que prevaleciam numericamente nessas profissões.

Pois bem, Heleieth Saffioti analisou com notável profundidade teórica e empírica, várias teias que ligavam as discriminações, não só de gênero, mas também étnicas, e as rodas da economia capitalista. Também no capitalismo moderno, a divisão sexual do trabalho era um elemento estrutural da ordem social. Neste caso, herdando princípios de classificação subalterna historicamente anteriores, as mulheres apresentavam-se como força de trabalho passível de um grau de exploração mais acentuada, em benefício dos empregadores. Na condição social da mulher trabalhadora conjugavam-se sistemas discriminatórios de gênero e de classe, contribuindo a sua maneira para a reprodução do modo de produção cujo móvel é a acumulação. Ademais, as mulheres, que haviam sido alvo de pouca atenção entre os clássicos das Ciências Sociais, apareciam também desempenhando papéis de grande relevo na sustentação do sistema econômico. De um lado, concebidas e auto concebendo-se como "ajudantes", trabalhadoras secundárias, de menor importância, elas assumiam com frequência funções que Marx havia analisado como parte do "exército industrial de reserva", do tipo que podiam ser dispensadas e reabsorvidas conforme os ciclos econômicos. E, ainda, com seu labor gratuito na manutenção cotidiana dos trabalhadores da ativa e das próximas gerações, as mulheres no lar também foram percebidas como estruturalmente ligadas com a reprodução da ordem social de classe. Essas atribuições naturalizadas como femininas, contribuíam para rebaixar o valor da mão de obra no mercado. As ideologias de gênero amenizavam a percepção dessas formas de exploração que se davam dentro e fora dos espaços da produção econômica.

Estas linhas sobre seus estudos de fato não fazem justiça à obra da autora e ao impacto que suscitou no meio acadêmico. Faço estas reflexões no sentido de reafirmar a importância de um estudo que pioneiramente no Brasil analisou as vivências das mulheres trabalhadoras e sua importância sociológica. Suas pesquisas contribuíram para uma compreensão mais política dos trabalhos no lar, para a politização da categoria cuidado,  que a pesquisa feminista impulsionou e que o movimento feminista conseguiu muitas vezes traduzir em políticas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Esperanças pós-eleitorais: interessa uma mulher na presidência?

Boa parte dos observadores do período eleitoral levantaram expectativas de que uma mulher na presidência do país, pelo fato de ser uma mulher, abre perspectivas muito interessantes. De um lado, sublinham o valor simbólico de uma mulher à frente de um dos países de presença notável no mundo. Muitos exemplos são dados em apoio a essa visão, desde o número de mulheres presidentes ou primeiras ministras, que se conta nos dedos, até a reduzidíssima quota de mulheres em direção de empresas, organizações públicas e privadas, e não só no Brasil.

Uma das vozes nessa linha está no blog Política e Crônicas, da cientista política Luzia Álvares:

O Brasil está ainda impactado com a eleição de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente da República. Não é para menos. Se há 78 anos o olhar espantado era para as “eleitoras”, ou seja, para as mulheres que haviam conquistado o direito de votar nos seus representantes políticos, havendo clara alusão de intelectuais e da mídia da época às “mulheres públicas”, combinando com a menção às prostitutas, o que dizer hoje da que ousou aceitar sua candidatura, lutou pela vitória e foi eleita para o mais alto cargo político do país? (Expectativas e frustrações, 12/11/2010)


Assim, trata-se de um passo cuja importância não pode ser menosprezada, mesmo por quem não foi eleitor de Dilma. Há, ademais, os que citam os números de violência de gênero no Brasil, inclusive as manifestações homofóbicas, que, em certa medida,visam grupos que quebram a normatização vigente de poder, ou de comportamentos de um modo geral. Finalmente, vale lembrar que um dos primeiros a cumprimentar Dilma eleita foi ninguém menos que o presidente do Irã, cuja legislação penal inclui punir uma mulher por meios que, para muitos, são impensáveis hoje. Enfim, há aqueles que, sem entrar nos conteúdos de propostas, partidos, compromissos etc. saúdam a alternância inédita entre os sexos no poder, por contribuir para configurar novos padrões sociais, sacudir preconceitos e padrões naturalizados. Por isso, saudou-se à esquerda como à direita, o início do primeiro pronunciamento da candidata, ainda na noite da eleição:

... meu primeiro compromisso: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.
A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Isso não é pouco!

Além desses aspectos simbólicos, muitos analistas propõem uma abordagem de gênero e discutem então que uma mulher traz uma competência especial para o executivo. Esse é um ângulo escorregadio. Pois, de imediato, parece basear-se na idéia de uma "essência" feminina, diversa da "masculina". E para se contrapor a isso, basta lembrar de tantas mulheres que não conseguem fazer diferença no campo político. Contudo, o argumento é mais complexo. Clique em "leia mais" para saber.