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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Nos dois lados do Atlântico, um novo livro

Estamos lançando na Feira do Livro, no próximo dia 28, às 18 horas, pela Editora Paka-Tatu, o livro "Nos dois lados do Atlântico: trabalhadores, organizações e sociabilidade". Eis a apresentação:

Com um misto de gratidão, satisfação e honra, apresentamos esta coletânea, que é produto de uma rede acadêmica e institucional coordenada pela Universidade Federal do Pará, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), tendo como colaborador o Centro de Investigação em Sociologia Econômica e das Organizações, do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa - Iseg/UTL-Socius. Essa rede se constituiu por meio da execução conjunta de projetos de pesquisa levados a efeito entre os anos de 2007 e 2011, com apoio do CNPq e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará – FAPESPA. Da cooperação já havia resultado um primeiro livro, intitulado “Organização social do trabalho e associativismo no Contexto da Mundialização: estudos em Portugal, África e Amazônia”, lançado em 2010, publicado pelo Núcleo de Meio Ambiente (NUMA), da UFPA.

Encontram-se aqui estudos sociológicos e antropológicos realizados em Portugal, Moçambique e Brasil. Algumas de suas autoras e autores, vinculados a outras instituições, são nossos parceiros acadêmicos por meio de outras redes e, gentilmente, aceitaram participar desta produção. Todos os que assinam esta coletânea partilham um objetivo semelhante, que é contribuir para desvelar múltiplas manifestações da globalização econômica, em especial do ponto de vista do trabalho, das organizações de trabalhadores e das relações de sociabilidade que lhes são pertinentes. Em particular, aproxima-nos o interesse em analisar como se constituem associações, redes, grupos sociais, equipes, que exibem distintos graus de permanência e formalização. E, assim, verificar em que medida exprimem ligações substantivas entre os membros, conducentes à implementação de projetos colaborativos, de gestão organizacional e de geração de meios de vida autônomos e sustentáveis.

Enfocamos o trabalho tal como é vivenciado em diferentes meios sociais: mercado informal, empresas, organizações de saúde, artes, trabalho em equipes virtuais, trabalho autônomo e comunidades de pescadores artesanais e agricultores.  Examinamos territórios em constituição por parte de categorias rurais tão diversas quanto os assentados da reforma agrária no Estado do Pará, os agricultores no oeste de Portugal e os agricultores e pescadores em Moçambique. Em se tratando de organizações, redes sociais, equipes, “companheiros” de trabalho, promotores de desenvolvimento territorial, a dimensão da comunicação é incontornável, uma comunicação cuja premissa é o reconhecimento dos vários outros, direta e indiretamente envolvidos nas ações coletivas. As dificuldades de efetivo diálogo entre atores desiguais em poder, portadores de culturas e tradições diversas, são aqui consideradas.

Cumpre-nos registrar nosso agradecimento especial aos “informantes” nos diferentes campos de estudo, pessoas que generosamente compartilharam suas experiências e tornaram possível este livro. E, ademais, às agências financiadoras, sobretudo ao CNPq e à FAPESPA, pelo inestimável apoio.

Boa leitura!
Belém (do Pará) e Lisboa, 25 de setembro de 2012

Maria Cristina Maneschy
Ana Calapez Gomes
Ida Lenir Gonçalves

domingo, 13 de maio de 2012

Cadeia produtiva de mães

Dia desses, em discussão em aula sobre relações de gênero e trabalho, discutimos dois textos de literatura - de  Cora Coralina (Tesouros da Casa Velha) e de Maria Lúcia Medeiros (Velas por quem?). Enfocavam uma biografia outrora típica de mulheres pobres em cidades provincianas do Brasil, que começaram cedo nas lides domésticas em casa alheia. Pois bem, nas discussões em sala, surpreendemo-nos, alunos e professora, com os casos de uma aluna e um aluno que eram, respectivamente, filha e neto de uma dessas meninas "crias" em casa de família. Menos surpreendentes foram os relatos de várias alunas, de que podiam estar ali, investindo em sua formação profissional, por disporem dos serviços de uma mulher, geralmente uma empregada doméstica, a quem confiam filhos pequenos ou alguém na casa que requer cuidados contínuos, uma pessoa idosa por exemplo.

Manifestavam-se ali traços comuns do exercício da maternidade entre nós. Um deles, a "conciliação" vida familiar e atividade profissional, assunto de mulheres. Alunas se referiram a essa experiência, reforçando o que a literatura pertinente aponta quanto ao fato se ser essa uma solução que ainda diz respeito, sobretudo, às mulheres. São elas, principalmente, que enfrentam os dilemas e as culpas quando as formas de acomodar ambos os planos, ambos os sonhos, são atrapalhadas, desajeitadas, não se acha a pessoa certa, não se tem o tempo desejado, não se supre devidamente as carências, das mães e dos filhos. Outro traço comum verificado foi a frequência com que nossas "ajudantes", "secretárias", empregadas domésticas que são, muitas vezes, cuidadoras sem o reconhecimento profissional pertinente, também fazem a conciliação vida e trabalho. Também elas recorrem a outras, da família ou de fora, tirando parte dos rendimentos para pagar uma cuidadora para seus próprios filhos e parentes.

E, assim, desse modo privado, doméstico, seguimos resolvendo parte da tensão da chamada conciliação entre vida familiar e trajetória profissional, com maiores ou menores possibilidades, pois as desigualdades sociais são profundas. Daí me ocorreu a idéia do título desta postagem sobre o dia das mães, a de uma cadeia produtiva que efetiva a maternidade. Trata-se de uma rede social em grande parte informal e silenciosa, feita de trabalhos e cuidados, afeto e conflitos, reconhecimento e invisibilidade, direitos conquistados e, não obstante, negação de direitos.

E as mães seguem dando vida, amor, cuidados, até nos nomes que escolheram para os filhos, sozinhas ou compartilhando a decisão com os companheiros, nomes que refletem o fato de que, especialmente naquele instante em que deram à luz, sonharam um futuro bom para os seus.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Reciprocidade e laços sociais

Marcel Mauss foi um dos grandes cientistas sociais, um clássico, visto como um dos pilares da moderna Antropologia. Recentemente, vem sendo redescoberto pela Sociologia Econômica, especialmente sua obra Ensaio sobre a Dádiva. Ele lançou um olhar original sobre as interdependências humanas, que fundamentam a vida social; as interdependências no plano material, que estrtuturam a divisão do trabalho e as trocas, assim como as interdependências no plano cultural e simbólico. Segundo sua análise, as relações sociais não são apenas funcionalidades, mas  símbolos, com vários significados, muitos não ditos. Uma relação não se esgota na função, mas implica sujeitos, considerações recíprocas, expectativas, estratégias e incertezas.

Uma das contribuições fundamentais do referido estudo está nos conceitos de dádiva e de reciprocidade, que constituem, conforme a análise de Mauss, a base dos laços sociais. Ele observou, notadamente a partir de materiais etnográficos de sociedades insulares do Pacífico e de indígenas da América do Norte, que as relações sociais entre pessoas, assim como entre grupos, envolvem, em primeiro lugar, a circulação de bens e serviços sob a forma da dádiva. Além de uma virada teórica no campo específico das Ciências Sociais, o autor atacava assim a perspectiva utilitarista em voga na ciência da Economia, que explicava a ação social, particularmente a ação econômica, pelo auto-interesse dos indivíduos. A equivalência nas trocas, via preço por exemplo, asseguraria, nessa ótica, a satisfação dos agentes econômicos que vão ao mercado para satisfazer seus objetivos e o fazem tanto melhor quanto menos obrigações extra-econômicas os vinculam. Marcel Mauss analisou o quanto a dádiva, o oferecimento de algo ou de um serviço, suscita a relação social, que se concretiza quando o destinatário aceita, recebe a coisa. Ao fazê-lo, expressa a aceitação do vínculo, do laço social que está sendo proposto e, por conseguinte, implica-se na reciprocidade. Por exemplo, receber um presente, realizar um convite, pedir um favor, oferecer um favor, são práticas simbólicas que engajam, manifestam consideração pelo outro e fundam compromissos recíprocos. É essa longa cadeia de dar, receber e retribuir que forma uma comunidade, uma sociedade, ou um conjunto de sociedades que intercambiam. Reside aí o princípio fundador da vida comum.

Enquanto a relação monetária, o pagamento do preço devido pelos bens e serviços trocados encerra a relação, propiciando a satisfação do consumidor que adquire o produto e se retira da cena para consumi-lo, as Ciências Sociais vão olhar para além, de maneira a perscrutar justamente o que alimenta as relações, os vínculos humanos, intra e extra mercado. Então, compreendem que a própria produção e circulação mercantil implicam dimensões extra utilitárias; há simbolismo e busca de sentidos múltiplos também em uma transação econômica. Há motivações ligadas à interação, à participação e ao reconhecimento social, ao entregar mais do que se recebe. É óbvio que o mercado moderno, asséptico, contábil, regulado pelas instituições econômicas, cumpre funções capitais, de cunho instrumental e segundo a lógica da eficácia. Mas ele é, na perspectiva do liberalismo puro, o que Karl Polanyi chamara de "moinho satânico", pois no decorrer do século XIX, reduzira a natureza e os homens a mercadorias, com todas as consequências adversas. E invertera as interações humanas básicas, conforme analisara Marx, no processo que denominou fetichismo da mercadoria. Marcel Mauss, assim como Polanyi, analisaram os mercados como parte das relações sociais, inseridos na teia maior da vida social. Daí esses autores serem adeptos das políticas sociais, do Estado de Bem Estar Social, das proteções sociais, na medida em que a vida social não é feita da circulação de coisas e práticas segundo a lógica do cálculo, mas sim de pessoas em suas relações sociais, necessariamente culturais e simbólicas; envolvem tanto interesse de ganho, quanto desinteresse.

Na perspectiva da dádiva, os aspectos da obrigação e do interesse que motivam as relações e as trocas, conquanto estejam presentes, não aparecem em primeiro plano. Ao contrário, tudo é feito de forma a manifestar o valor do outro, sobretudo a importância do laço social, inserindo seus agentes na rede de sua coletividade. Dádivas e reciprocidades ocorrem entre sujeitos, que agem de maneira deliberada e se lançam nas relações concretas, nas tríades dar, receber e retribuir. 

Era essa uma maneira muito original de apreciar a natureza das relações sociais. Há importantes implicações epistemológicas nessa forma de olhar a realidade. Na Sociologia Econômica contemporânea, diferentes autores classificam a perspectiva de Mauss como estando a meio termo entre o individualismo  e o holismo metodológicos. Ambos partem de postulados exteriores ao campo das interações, ao passo que a dádiva traz a análise para o plano das relações sociais, dos atores que se lançam na aventura de tecer e manter vínculos sociais. Apenas os vínculos herdados, obrigatórios, ou a cultura compartilhada não asseguram a reprodução das sociedades e de seus agentes. 

P. S.: Essas reflexões me vêm a propósito do meu aniversário ontem, uma ocasião na qual a gente pode se colocar, aparentemente, na condição de simples destinatário dos presentes, das dádivas e manifestações de apreço, puro recebedor sem obrigação de retribuir. Uma posição de privilégio que a gente acha merecida, uma "superioridade" sobre os outros sentida como justa nesse dia especial. Mas é uma ilusão consentida. Dura vinte e quatro horas. É gostosa e passageira. A gente depende mesmo da nossa teia de relações e das muitas doações e concessões que fazem a vida cotidiana. Sobretudo, dos vínculos que estão muito além dos nossos contatos, espalhados em diferentes espaços e tempos. Mas aí, frequentemente, a reciprocidade tende a ficar embaçada, perdendo-se de vista os nexos entre nós e os tantos outros distantes, o que lhes ocorre e o que lhes falta.

sábado, 20 de agosto de 2011

Liberdade individual e eutanásia

O argumento central em um debate ao qual assisti sobre eutanásia, do ponto de vista legal, era de que não cabia ao Estado proibir, inserindo-se assim em uma esfera na qual cabe respeitar a liberdade da pessoa em escolher uma morte que considera digna, diante de uma situação que se afigura sem saída, no caso de uma doença terminal. O impedimento legal anula essa faculdade humana de decidir. Simplesmente proíbe. Uma das interlocutoras no debate considerava que, desde mantidos todos os meios possíveis de amparo à pessoa em tal situação, principalmente apoio psicológico visando convencê-la na direção de manter a vida, sua decisão de não prosseguir em uma batalha que vê como perdida, deveria ser respeitada. Lembrava a debatedora o caráter especialíssimo de uma tal decisão, contrária a um instinto básico humano, que é se manter vivo. Daí que, esgotadas todas as possibilidades de assegurar a um doente a continuidade de sua vida em condições que ache dignas de serem vividas, não haveria por que uma lei tomar a decisão, proibindo. Caberia a última palavra à pessoa, respeitando seu estatuto de sujeito. 

O debate, então, levou-me a concordar que não cabe a intervenção legal a priori. Mas, garantida a liberdade de decidir, essa marca da dignidade humana, surge uma questão: cessa então a responsabilidade do contexto? Da família, de outros próximos, das instituições de suporte etc.? Nessa linha, outras questões podem ser levantadas. Em que medida a percepção da perda de sentido da vida também é fruto do contexto, e não só do sofrimento individual? A percepção da pessoa de que a vida não lhe tem mais nenhum sentido, não interpela também esse coletivo? Abordagens puramente profissionais, por mais capacitadas que sejam, são apropriadas para lidar com tal situação limite? Quais os melhores argumentos a serem utilizados para convencer aquela pessoa? Não tenho resposta. Mas, o que eu pensei a partir do debate sobre eutanásia, é que há um perigo de que a necessária garantia de liberdade individual possa, ao mesmo tempo, relaxar a mobilização das pessoas envolvidas no drama e, portanto, levando a sobrecarregar com uma tomada de decisão quem está mais vulnerável. Mas, têm toda razão os debatedores de que aqui não se está mais no terreno legal e, sim, das relações, dos laços sociais e das visões de mundo em jogo. Inclusive, o que os próximos pensam a respeito da própria vida. Situação extremamente complexa.

Uma grande contribuição para se apreender melhor as dimensões humanas envolvidas nesse tema, é a leitura de Viktor Frankl, no livro Em Busca de Sentido. Ele argumentou que a melhor pergunta que se faz em qualquer situação não é o que esperar da vida, mas "o que a vida quer de mim". Nessa perspectiva, a atenção da pessoa é colocada fora dela, para uma tarefa, um sentido. Tendo sobrevivido a uma situação de quase absoluta sujeição aos condicionantes do meio, em que a possibilidade de escolher é praticamente zero, ele defende que o ser humano tem sempre uma capacidade de se elevar diante das condições. Nas suas palavras:
"Sendo professor em dois campos, neurologia e psiquiatria, sou plenamente consciente de até que ponto o ser humano está sujeito às condições biológicas, psicológicas e sociológicas. Mas além de ser professor nessas duas áreas, sou um sobrevivente de quatro campos - campos de concentração - e como tal também sou testemunha da surpreendente capacidade humana de desafiar e vencer até mesmo as piores condições concebíveis (...)

"O ser humano não é completamente condicionado e determinado; ele mesmo determina se cede aos condicionantes ou se lhes resiste. Isto é, o ser humano é autodeterminante em última análise. Ele não simplesmente existe, mas sempre decide qual será sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte.  (...) uma das principais características da existência humana está na capacidade de se elevar acima dessas condições, de crescer para além delas." (152/3)
A leitura desse livro surpreende porque, para além da narrativa vivida de alguns elementos da "arquitetura da destruição" nos campos, ele por vezes conseguia se distanciar da condição de prisioneiro e pensava e atuava como psicoterapeuta, refletindo sobre a condição humana como se dava naquele contexto absolutamente opressor. Em certa medida, um contexto que guarda alguma semelhança com a opressão própria de uma situação em que se coloca a questão da eutanásia, uma doença ou limitação que praticamente elimina a capacidade da pessoa de agir, de interferir no seu destino. Para ler passagens do livro sobre o tema clique em LEIA MAIS,  logo abaixo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Encontro Mundial de Blogueiros

Através de uma das redes de que participo, soube da realização nos dias 28, 29 e 30 de Outubro de 2011, em Foz do Iguaçu, do 1º  Encontro Mundial de Blogueiros. Entre os muitos convidados estão o sociólogo espanhol Manuel Castells e os jornalistas brasileiros Luis Nassif, Hildegard Angel e Paulo Henrique Amorim. As inscrições podem ser feitas na página do evento: www.blogueirosdomundo.com.br.
Consta que há grande expectativa quanto à presença de Julian Assange, criador do Wikileaks, no encontro mundial.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Efeitos das redes sociais

Ontem tive um grande apoio do mecânico que atende minha família há alguns anos, um apoio gratuito, pois ele me acompanhou durante toda a  manhã para comprar uma direção hidráulica. No percurso, lembrei-me que cheguei a esse mecânico por indicação de um colega de trabalho. Na perspectiva sociológica, digo que tive acesso a um recurso através de minha rede social, um recurso que estava imerso nessa rede, que eu não disporia sozinha, ou poderia até dispor com bem mais dificuldade. Com sorte, eu conseguiria logo chegar a um bom profissional procurando em catálogos ou na internet, sem  levar os esperados canos. A recomendação do mecânico pelo colega, acompanhada da dose de confiança que tenho por ele, poupou dissabores e me rendeu uma ajuda inesperada ontem.

Quanto, nas nossas movimentações de rotina, dependemos das nossas redes pessoais, formadas por laços próximos e distantes, com efeitos que se estendem no tempo e no espaço? São as redes informais, nas quais circulam bens e serviços, mas também dádivas e reciprocidades. É claro, nas redes há sentimentos de pertencimento, afinidades, simpatias pessoais, lealdades também. Mas esses não são ingredientes inevitáveis, pois nos laços mais periféricos de nossas redes, pessoas que apenas "conhecemos", ou nas redes às quais se vinculam os nossos contatos, os amigos de nossos amigos, também podem estar imersos recursos que vão se mostrar essenciais num dado momento, tirando-nos de uma enrascada, até nos conduzir a um emprego por exemplo, como observou Mark Granovetter, um dos principais teóricos da análise de redes sociais.

Nossa vida, portanto, depende de uma miríade de intervenções dos elos das nossas redes. E, assim, também nós contribuímos, consciente ou inconscientemente, de maneira gratuita ou interessada, para muitos outros a quem estamos ligados. Isso foi magistralmente ilustrado no cinema em A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra.

Com as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs), nossas redes crescem em número de elos. Em que sentido nossas redes virtuais mesclam-se com nossas redes "presenciais"? Em que medida os interesses formais e objetivos que frequentemente induzem à formação das redes virtuais podem se transmutar em sentimentos de afinidade pessoal, incorporando as dimensões de reciprocidade, dádiva e sentido de pertencimento e lealdade com os demais elos? Isso é positivo do ponto de vista do balanço que conseguimos estabelecer entre nossas relações mais próximas - família e amigos principalmente - e as relações mais formais, "uniplex"? Uniplex, um termo da análise de redes sociais, são aquelas caracterizadas por um objetivo principal, a exemplo de uma relação de trabalho, ao passo que as relações multiplex envolvem conteúdos variados, como quando encontramos nossos colegas de trabalho na esfera do lazer, do esporte ou de um trabalho voluntário.

http://fgonit.blogspot.com/2009/10/as-redes-sociais-como-factor.html

Mais contatos significam mais tempo para mantê-los, para alimentá-los, salvo se, numa perspectiva estratégica, consigo otimizar meus laços sociais, mantendo bons contatos com pessoas que, por sua vez, possuem conexões chave para meus interesses, ao invés de dispersar meu tempo em ligações que não serão todas "úteis". Há uma literatura que enfatiza esse sentido instrumental das relações. Ela também discute o dilema de que, cotidianamente, as conexões mais eficientes são justamente aquelas estabelecidas sem a perspectiva instrumental, que se nutrem da gratuidade e do desinteresse. 

Muitos outros aspectos entram em jogo quando se pensa em termos de redes sociais. Um deles, o significado das relações informais entre pessoas e grupos muito desiguais em poder ou recursos. As redes pessoais, nesses casos, poderão ser ingredientes de estratégias de dominação, como ocorre no velho clientelismo ou paternalismo. Assim como redes implicam inclusão, elas também excluem: quem não é "dos nossos", quem não foi indicado por alguém, quem é isolado, quem não tem um "capital de relações".

Voltando ao episódio que vivi ontem, é bom de vez em quando a gente se perguntar em que proporção somos, representamos ou disponibilizamos recursos para outrem, comparativamente ao que recebemos, pedimos ou necessitamos dos nossos pares nas redes sociais.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Convite Simpósio Democracia, Feminismos e Movimentos de Mulheres

Convido meus queridíssimos "seguidores" para um evento super importante que está sendo promovido pelo GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero), da UFPA, nos dias 5 e 6 de maio. A programação detalhada está no blog Política e Crônicas, cujo link está abaixo, na lista de blogs a conferir. 

Dentre as várias mesas de grande interesse, destaco as que ocorrerão ao longo do dia 6 de maio, sexta-feira. As expositoras convidadas estão na liderança de associações  de mulheres de vários municípios do Pará e pretendem refletir sobre suas experiências na obtenção de recursos, cidadania, em suma, de empoderamento local, enfrentando os desafios de contestar padrões de comportamento relativos a sua posição social de classe e de gênero. 

São experiências que merecem ser conhecidas do público mais amplo e a oportunidade é única. Conforme o contexto, elas estão atuando em frentes diversas: na implantação de unidades de conservação ambiental; em processos de co-gestão e de aproveitamento de recursos da biodiversidade amazônica; de valorização dos saberes locais; geração de trabalho e renda, notadamente em localidades rurais; finalmente, de reconhecimento de sua condição de trabalhadoras. Fazendo parte de redes sócio-políticas diversas, elas têm histórias de sucesso e, também, de fracassos, de conquistas e recuos.  

Paradoxalmente, uma característica comum à maioria das experiências associativas é a pouca atenção de governos municipais. É paradoxal, tendo em vista que muitas iniciativas têm potencial de dinamizar as economias locais. Em um Estado no qual o setor formal da economia é restrito, não se pode mais afirmar que falta capacidade de iniciativa nestas paragens. Suas histórias se passam em um verdadeiro "mar" de infraestrutura precária, necessidades de fomentar habilidades técnicas e de gestão, cegueira política, além dos velhos preconceitos quanto à capacidade econômica e política de mulheres de pouca renda e escolaridade. Tudo isso reforça a baixa auto-estima e a desconfiança, interna e externamente às comunidades de origem, reproduzindo, mas também revertendo, a velha invisibilidade. 

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

BELÉM, CIDADE CRIATIVA?

Faço esta pergunta a propósito de um conceito relativamente novo por aqui: cidade criativa. Ele contém idéias muito instigantes. Não se refere a uma característica natural de uma cidade, de um dom ou uma qualidade que determinadas cidades têm e outras não. Ao contrário, refere-se a uma conquista, que resulta de intervenções calculadas e de alianças entre os atores sociais da cidade. 

Toda cidade tem potencial criativo, pois em toda população há vontade de criar, há criadores e inovadores e esse potencial depende de condições para florescer. E o espaço urbano é, por excelência, espaço de encontros, de concentração de pessoas com costumes, visões de mundo e culturas. Então, um campo fértil para inovações. É uma forma de pensar a cidade como um fato social. No dia a dia, vivendo as mazelas da cidade, o trânsito, a violência, o desemprego, a degradação ambiental, tendemos a encará-la como uma supra-realidade, fora do nosso alcance.

Os proponentes desse conceito apontam como característica da cidade criativa, a formulação de objetivos e estratégias para a gestão do território da cidade, envolvendo os seus atores - os habitantes, suas associações, empresas e  governos. Portanto, trata-se de objetivos e metas que não sejam simplesmente "conhecidos" da população, como por exemplo, obras públicas que o governo dá a conhecer aos moradores. 

Uma dimensão notável do conceito é a idéia de tornar a criatividade um recurso de valor econômico. E uma grande  fonte de estímulo à criatividade está na identidade cultural, ou identidades culturais de suas populações. Essa idéia aponta para a necessidade de conhecer, valorizar e estimular as pessoas e os grupos que compõem a vida da cidade, partindo do que os identifica. Não necessariamente essa identidade pré-existe  ou é claramente percebida democraticamente. Há as culturas valorizadas e as não valorizadas, a cultura de elite e a das massas, os bairros centrais e os periféricos,  a arquitetura eleita como "patrimônio" e a que não entra nessa categoria. Há, também, leituras consagradas da história e da cultura local, de seus grandes personagens, que servem a determinados grupos e invizibilizam outros grupos e suas práticas. De todo modo, o conceito realça a capacidade de superar os bloqueios, os guetos, e de encontrar pontos de convergência de objetivos sem sufocar a diversidade social. Tarefa de fôlego em contextos de grande desigualdade! A idéia é de que a identidade pode ser descoberta, redescoberta ou, então, produzida, por exemplo, a partir de estudos sobre a história local, ou a partir da promoção de certos eventos (festas, congressos, manifestações culturais... ), que podem inclusive ser restritos a determinados segmentos. Iniciativas especiais podem fazer com que a população em conjunto vá se apropriando dessas práticas e elas vão passando a fazer parte da identidade do lugar. A respeito da busca de um patrimônio cultural comum, vem-me a mente o filme Narradores de Javé, que focaliza os moradores de uma região a ser inundada por uma barragem e que precisavam encontrar evidências de que o território a ser inundado era seu patrimônio histórico e cultural. 

A constituição de uma cidade criativa parte da cultura, ou das culturas locais, do patrimônio material e imaterial de suas populações, procurando associar esse patrimônio à economia, de maneira a dinamizar sua base econômica.

Segundo a especialista no tema, Ana Carla Fonseca Reis, em texto disponível na internet, a cidade criativa "transforma sua estrutura socioeconômica a partir da criatividade dos habitantes". A empresa, para ser bem sucedida, requer sinergias através de práticas colaborativas entre os atores da cidade. Nas palavras da autora:

A criatividade impulsiona a busca de novos arranjos de governança entre público, privado e sociedade civil; de formas alternativas de financiamento (mais voltadas ao capital de conhecimento do que às garantias físicas); de inovações na gestão da cidade; de valorização da criatividade; e de busca de modelos colaborativos, nos quais todos ganham (ao invés de competitivos, nos quais um ganha no curto prazo e todos perdem).

A autora indica uma série de experiências tidas como sucesso, dentre as quais Barcelona e Bilbao, na Espanha. Neste último, caso tratava-se de uma cidade  que se constituíra em torno de um porto e da atividade de mineração. Com o recuo dessas funções pós 1980, a economia  estagnou. Mas, ela ressalta que a forma de sair da crise é que foi inusitada. Teve a ver com as redes sociais, ou redes sócio-políticas - conceito aplicado pelo sociólogo brasileiro José Ricardo Ramalho. Essa história merece atenção:

Com o objetivo básico de encontrar uma estratégia que lhe granjeasse empregos, impostos, bem-estar social e a reposicionasse no mundo, a recuperação da cidade foi objeto de uma parceria entre agentes públicos e privados, que desenhou oito eixos estratégicos. Entre eles, vários ligados a infraestrutura (metrô, aeroporto), mas todos simbolizados por uma face visível: o Museu Guggenheim. Hoje, muitas cidades miram-se no Guggenheim como produto, esquecendo de analisar o processo que levou à sua construção e que têm no museu apenas a ponta de um iceberg.

Mais perto de nós, Medellín, na Colômbia, classificada cidade mais violenta do mundo em 1991, mudou seu perfil. A formação de uma ampla rede social e a definição de estratégias claras para orientar os investimentos no longo prazo, com grande cuidado com as zonas mais vulneráveis, pesaram no sucesso.

O processo de transformação teve início em um movimento cívico, independente e amplo, que aglutinou do meio acadêmico às empresas privadas, das associações comunitárias às ONGs mais diversas. Seu foco sempre recaiu sobre o investimento em dois setores: educação pública e cultura e teve claramente o apoio do governo municipal, muito criticado por algumas vozes que viam nesse investimento um desvio do premente combate ao crime. (...) Como armas de combate a cidade optou porém por livros, urbanismo social, iniciativas de fomento à criação cultural, fortalecimento à participação cidadã, recuperação da autoestima. (...) A face mais visível desse processo (e sempre há ao menos uma), porém, são as renomadas bibliotecas-parque, equipamentos culturais de ponta, tanto como conceito, quanto como projetos arquitetônicos, construídos nos locais socialmente mais frágeis da cidade. Com vasta programação educativa e cultural, são espaços públicos dos quais a comunidade se apropria, nos quais se desenvolve, se fortalece e se reconhece. (Ana Carla Fonseca Reis)

O conceito não se aplica hoje a Belém. Não se tem definição de objetivos e estratégias de intervenção urbana pelo poder público,  nem estímulo à criatividade e à participação. Um dos leitores da última edição do Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, pergunta o que se sabe do Portal da Amazônia. Tem-se visto na TV insatisfação de moradores  deslocados. O que se sabe dos rumos da especulação imobiliária, das vistas para os rios, para que servem? Como se articulam certas obras  de infraestrutura com intervenções complementares a fim de que as obras tragam benefícios sociais sólidos? Como, por exemplo, os monumentos históricos da Cidade Velha se articulam com o conhecimento da história daqueles espaços? Qual o vínculo  e identidade dos moradores com aqueles edifícios e ruas? Que eventos científicos, artísticos podem ser fomentados sobre as relações entre Belém e suas águas? Tem muita criatividade em Belém, artística e cultural sobretudo.

Os exemplos da autora sobre cidades criativas, dos quais selecionei dois, tratam de dimensões que valem mais do que dinheiro. São, principalmente, ativos sociais: planejamento, formação de redes colaborativas, além de foco nas condições que favoreçam a criatividade da população. Planejar significa combinar as ações e fixar metas de mais longo prazo; aquilo que sempre está nos discursos de eleição. Acho que o conceito é útil pois convida a buscar soluções. Não há fórmula. Do caso de Medellín, ressalta o cuidado com as populações mais vulneráveis, portanto, necessitadas de atenção especial para assumirem seu inevitável protagonismo na transformação da cidade para melhor. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Significados de Redes Sociais

As redes de relações sociais, como se sabe, estão atravessadas por poderes, posições desiguais, centralidades e distâncias. Mas as redes são também o modo pelo qual as pessoas participam da rede maior, a sociedade. Esta totalidade social parece se sobrepor às pessoas, a ponto de a "vontade da maioria" prevalecer - e o direito e a política muitas vezes consagram essa hierarquia. Mas, trata-se de uma ideologia. Compreender a sociedade através de suas redes, chama a atenção para as reais interdependências entre as pessoas e para as influências que as pessoas exercem sobre as suas relações. E, por conseguinte, sua influência na sociedade mais ampla.
Nesse sentido, duas antigas visões sobre redes sociais merecem ser lembradas. Sobretudo nestes tempos de ligações virtuais e de "sociedade em rede". Sem entrar no aspecto das desigualdades de posição nas redes, as citações a seguir chamam a atenção para um significado das ligações entre as pessoas, que são o que são através das redes. Por outro lado, se as redes têm muita força sobre os elos, estes, por sua vez, não são inertes, passivos reprodutores de papéis. Essa visão dinâmica da rede é muito especial de ser considerada nestes tempos e espaços globalizados, em que as pessoas parecem tão impotentes diante dos mercados sem fronteiras, das tecnologias de informação e comunicação, da mundialização da economia, das guerras etc. Clique no link "Leia mais" para ler as citações do escritor Saint-Exupéry e do sociólogo Norbert Elias.