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sábado, 12 de novembro de 2011

Propagandas sobre feias

Na mesma linha da piada assunto da última postagem, topei com a seguinte propaganda em um cartaz de uma revendedora Peugeot em Belém. Ladeada por duas figuras femininas de biquine, uma magra e uma gorda, desponta a frase seguinte: Quem você levaria para uma ilha deserta? a top model ou a sogrona? Compare: Faça o mesmo na sua garagem.
Difícil acreditar que quem criou a publicidade pense em atrair consumidoras para os carros.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Piadas sobre feias

Ultimamente as piadas, pelo menos na TV, têm se voltado com especial frequência para as mulheres feias. Fazer piada sobre atributos corporais não é novo. Remonta ao nascimento das piadas. Mas, por que as feias entraram em alta agora no mundo das piadas para o grande público? Nem imagino. Tivemos há pouco o caso Rafinha. Ontem, as feias ganharam novo holofote, embora o conteúdo nada tenha a ver com a imbatível marca de mau gosto da piada sobre o estupro, que até na categoria humor negro era ruim.

No quadro Stand up nosso de cada dia, no programa Fantástico do último domingo, o assunto era "cantada de rua". A comediante Micheli Machado iniciou sua fala - que, diga-se de passagem, teve momentos de humor fino - com a seguinte questão:

Por que é que todo homem na rua olha pra toda mulher que passa? Se fosse só pra mulher bonita, ainda vai, porque a gente também olha pros homens bonitos. Mas homem não, homem não seleciona, teve peito e bunda, já está olhando. Olha. É bonita, é feia, tribubu, exótica...

Admite-se que esse tipo de observação dá humor, há quem goste. Mas, nessa lógica, se os homens não discriminam no olhar de macho, por que a moça se incomoda com isso? E, a julgar pelos risos, agradou. Pena. Por que não ser mais democrático no gosto?

Não pude deixar de lembrar dos quadros envolvendo anões, também um antiquíssimo recurso para fazer rir. Sempre me provocou um sentimento misturado, mais incômodo que graça. Sei que isso dá emprego, chances de aparecer, diverte alguns, certamente muitas justificativas existem para usar anões em papéis ridículos. Mas, no fundo, desconcerta, porque o engraçado aqui é a imposição, ou validação da característica da maioria sobre a minoria. Embora neste caso, trata-se da maioria em sua condição de massa, de gado.

A gente não precisa lembrar sempre da vida real ao escutar uma piada. Tira toda a graça. Por exemplo, lembrar de cenas na rua de homens cujos olhares para outros passantes, sejam homens ou mulheres, não são apenas elogiosos ou engraçados, mas também debochados, quase agressivos, quase uma reprovação a determinado modo de se trajar, ou andar. E esse olhar pode se traduzir na liberalidade que o olhador se dá de tocar, até de "passar a mão" em uma pessoa desconhecida. Prática triste. Concordo que certas realidades não precisam ser lembradas e interferir no consumo da piada. Basta rir. Mas bem que as piadas podiam ser um pouco mais imaginativas!

sábado, 22 de outubro de 2011

Orientação sexual de um filho

Uma pessoa amiga relatou-me que seu compadre, pessoa muito próxima, contou-lhe aos prantos que o filho de 22 anos lhe comunicara sua homossexualidade. Um choque do qual ele ainda não se refizera. É claro que não vivi a situação e não tenho a pretensão de saber exatamente o que deve ser feito, a boa solução em mãos. Mas, ao ouvir o relato veio-me à mente a pergunta sobre o que fazia aquele jovem na vida, se estudava, se tinha um emprego ou trabalho que lhe satisfazia, ou se caminhava para tal, se tinha uma boa formação, alegria, valores, enfim, se reunia as condições ideais de uma pessoa preparada para enfrentar a vida com autonomia, o que todos almejam para os filhos. 

Por que a opção sexual parecia tão devastadora e dissociada de outras qualidades pessoais? Há muitas razões, evidentemente. Lidar com as diferenças é difícil, não é natural, mesmo que não haja intolerância ou preconceito, como era o caso daquele pai entristecido. A socialização não ajuda. Por isso, uma grata surpresa foi redescobrir hoje um singelo livro infantil de minha filha, na forma de versos, que se propõe a mexer nessa ferida já entre os pequenos: Na minha escola todo mundo é igual, de Rosana Ramos e Priscila Sanson, da Cortez Editora.

No caso da homossexualidade, sabemos bem que preconceito pode gerar intolerância que, não raro, vira violência. Ela reduz quem a pratica a uma condição próxima da selvageria, de um ser bruto, tal qual o ser humano que é capaz de comemorar a morte de alguém. Isso, a propósito das comemorações pouco convencionais de líderes ocidentais quando sabem da morte de inimigos políticos, nestes tempos de "primavera árabe". Tempos de fronteiras morais confusas. Ou melhor, mostras de que as fronteiras morais dos nossos mundos são sempre confusas.

domingo, 10 de abril de 2011

Discriminações na noite em Belém

Pela filha de uma colega de trabalho, soube hoje de uma prática comum em uma boite de Belém. Não sei se o mesmo se dá em outras do gênero, pois meu conhecimento da vida noturna na cidade é limitado. É uma boite considerada hoje um point de jovens da elite. A casa anuncia, como muitas outras na cidade, que as mulheres, se entrarem até uma certa hora não pagam. Já vi propaganda estendendo esse mimo a estudantes. Esse tipo de "discriminação positiva" é antigo e, na gozação, costuma-se falar que "mulher e cachorro não pagam". Até aí, tudo muito conhecido, herança de tempos em que as mulheres não tinham acesso ao dinheiro, mantida na atualidade por interesse de mercado. E, é claro, uma proteção bem aceita pelas beneficiárias, sobretudo em uma fase da vida em que geralmente a grana é curta, depende de mesadas ou da boa vontade dos pais em pagar a conta da balada.

Contudo, a dita boite inovou na proteção extra e, a meu ver, escorregou para uma discriminação. Para o ingresso gratuito das jovens até a hora determinada, há uma organização prévia, na forma de uma lista na internet, onde a interessada pode colocar seu nome de modo a facilitar a identificação na porta. Vale ressaltar que, caso ela não queira enfrentar a fila e correr o risco de esgotarem os lugares gratuitos, é sempre possível comprar ingresso, como fazem os frequentadores homens. Caso queira o benefício, a lista é recomendável. Mas, como a procura é grande, forma-se longa fila na porta, que permanece grande mesmo depois da hora limite para a gratuidade das moças. Aí, então, é que mora o perigo. Um grupo de rapazes bem vestidos seleciona na fila as moças consideradas "bonitas" e as convida a entrar por uma porta reservada, longe das vistas do público que se espreme do lado de fora. Imagino a sensação das não escolhidas, bem vestidas, maquiadas, animadas... ao serem preteridas por tal critério. Não é racial, não é de gênero, não é étnico. É pelo velho critério da "boa aparência" que costumava estampar tantos anúncios de emprego. Tudo muito sutil, discreto, segundo minha fonte. 

Talvez por inexperiência na noite belenense, a prática me deixou estupefata. Mais ainda por constatar que isso não incomoda tanto aos jovens clientes que vão gastar seu dinheiro em uma casa que, ao agir assim, não os respeita como pessoas. Discriminando a uns, atinge a todos pois cria um critério de separação totalmente arbitrário. Já não bastam as muitas seleções prévias na sociedade para que se possa chegar até ali, pagando ou se beneficiando da gratuidade oferecida. O critério de escolha das bonitas é pessoal, dependendo do "olho" dos funcionários que discretamente fazem seu trabalho. Um pouco de burocracia, com suas regras formais e impessoais seria um avanço, pois igualaria as oportunidades e faria valer o anunciado: até a meia noite, mulheres não pagam. Chegando-se depois, vale a outra regra, a do pagamento.

Por que um grupo de pessoas sensíveis não aciona judicialmente a casa por discriminação? Talvez o prestígio, a qualidade dos shows e, portanto, o privilégio de estar entre os eleitos encobre o senso crítico. Seus frequentadores aceitam as regras do jogo pois concordam quanto ao valor do que procuram. A reação teria de vir de fora, como acontece quando vizinhos interpelam casas noturnas por poluição sonora. Ainda bem que a noite de Belém tem outros charmes!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sobre 31 de março

Faço esta postagem inspirada por blogueiros que fizeram análises certeiras no dia certo (blogdoflavionassar.blogspot.com e yudicerandol.blogspot.com, por exemplo) sobre o "estranho" convite de militares para cerimônia do 47º aniversário da "revolução democrática" - o 31 de março. Há, também, a matéria de capa da revista Carta Capital esta semana, intitulada O Fantasma Fardado, questionando a atitude de militares em 2011. Por isso, é oportuno lembrar a história da brava Zuzu Angel que perdeu um filho assassinado em prisão nas dependências do Exército, em 1971.  Sua história foi retratada no filme de Sérgio Rezende. Lembro-me de uma passagem em que ela conversava com um militar no quartel onde procurava notícias do filho. Seu argumento baseava-se na civilização que os mesmos governantes diziam defender. Dizia mais ou menos assim: admitamos que meu filho fez algo errado; ele merece um julgamento normal, ter sua prisão decretada e conhecida, eu poderia vir trazer uma maçã para ele. Apontava inutilmente, para um oficial, a ilegalidade do regime que apregoava defender uma missão. A música que Chico Buarque fez quando de sua morte captou, antes de tudo, o sentimento da mãe à procura infinda:    Quem é essa mulher Que canta sempre esse lamento Só queria lembrar o tormento Que fez o meu filho suspirar (...) Só queria agasalhar meu anjo E deixar seu corpo descansar.
Aniquilar fisicamente opositores incômodos é prática antiquíssima, mas tende a ser contida com a emergência das democracias baseadas em direitos, notadamente em direitos humanos. Uma característica de regimes  ditatoriais é, precisamente, lançar mão desse recurso como política estatal e paraestatal, mesmo que oficialmente haja leis contrárias.
Outra característica de regimes ditatoriais é arvorarem-se em defensores da moral e dos bons costumes e, portanto, reprimirem fortemente os "desvios" culturais. Isso não ocorre mais no Brasil que envereda pelo caminho do reconhecimento multicultural e étnico. 
Não obstante, em 1 de abril deste mesmo ano, em Minas Gerais, membros de torcida manifestaram preconceito  contra um jogador de vôlei assumidamente homossexual. As cenas da partida na TV, quando se ouvem os gritos contra o jogador, ilustram um sentimento primitivo animando uma massa de espectadores.
No Brasil de hoje, espantam as manifestações de apreço a um regime de exceção, assim como espanta uma reação coletiva de puro preconceito. Parecem anacronismos, mas pelo visto não são.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

LITERATURA E PRECONCEITOS

"Na casa, ainda existem duas pessoas - tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo". Cito esse trecho do famoso livro de Monteiro Lobato, Reinações de Narizinho, a propósito de um tema que fez furor semana passada na Internet. Trata-se da Carta Aberta da escritora Ana Maria Gonçalves ao Ziraldo, vista em http://racismoambiental.net.br/2011/02/carta-aberta-ao-ziraldo-por-ana-maria-goncalves/. A carta reage a um desenho feito por Ziraldo para estampar as camisas de um bloco de carnaval carioca, que retrata Monteiro Lobato abraçado a uma mulata. 

O desenho desencadeou uma grande  polêmica  e motivou a carta aberta. Sua autora cita uma série de documentos escritos por Lobato que manifestam não apenas um racismo "de época", da primeira metade do século XX; os documentos mostram quase um racismo militante. Daí a grande decepção que a autora manifesta com Ziraldo. Sua carta suscitou uma enorme reação nas redes sociais, com opiniões tanto favoráveis à crítica da autora, quanto contrárias à "ditadura do politicamente correto" que não poderia estar presente na literatura, censurando-a. Muitos pensam, com razão, que o lugar de Monteiro Lobato no panteão dos escritores brasileiros é intocável, assim como a qualidade de sua escrita  que embalou gerações de crianças. 

Não entro no mérito da literatura de Lobato, pois não é esse o ponto. Minha filha leu quase todos os livros dele e tem uma gratíssima lembrança de suas páginas. Contudo, acho muito positivo que esses questionamentos sobre a visão de sociedade de Lobato venham à tona. Seus livros são adotados nas escolas brasileiras e, certamente, estão a exigir uma malabarismo dos professores para lidar com frases como a do início de "Reinações...", de modo a evitar não só a reprodução de estereótipos, como também cuidar para que nenhuma criança experimente qualquer sentimento de inferioridade no espaço escolar, espaço "oficial" de formação cultural e pessoal. 

É certo que a frase que destaquei trata de relações sociais históricas, costumes em um passado recente no Brasil - a negra de estimação. Refere-se à trabalhadora doméstica, mulher e negra via de regra, que permanecia décadas no seio de casas de famílias de classe média e alta, cuidando da casa e das crianças dos patrões. Eram também chamadas crias, meninas que iam do interior para as cidades na esperança do acesso ao estudo. Na região amazônica, frequentemente era uma menina de origem indígena. Misto de membro da família e empregada, essa posição era herança da escravidão. Muito mudou nesse campo, os empregados domésticos conquistaram direitos trabalhistas e sociais, ainda que bem mais tarde do que a maioria das profissões. Mas, quanto ao desvalor associado a posições sociais ou a cor da pele, a mudança é mais complicada. Dentre outras razões, porque tocam em visões de mundo e padrões muito enraizados. 

Os argumentos da carta aberta tocam num ponto essencial do racismo “enrustido” de nossa formação societária. A possibilidade de tomar certas idéias comuns sobre as cores dos brasileiros de modo inofensivo, como gostariam aqueles que reagem  simplesmente ao "politicamente correto", cai por terra quando se tem em mente o que a carta destaca, que é o sentimento de uma criança em sala de aula ao ver retratada sua condição social com menos respeito, por menor que pareça. O respeito igual é um direito básico. Sobretudo na infância. Ele é apenas um ponto de partida para se poder então se formar pessoas aptas a enfrentar as  competições e disputas pela vida afora. Portanto, na escola não há como transigir quanto a esse direito. 

As lutas do dia a dia, as dificuldades econômicas já são tantas que não precisa trazer para o interior da escola outras discriminações, como as raciais. Escolas equipadas, conectadas, com professores de alta qualificação, coexistem com escolas sem infraestrutura, improváveis mesmo de se deixar existirem hoje. Buscar recuperar os danos que esses handicaps provocam na educação das crianças é tarefa suficientemente complicada e urgente. Portanto, a importância de as instituições  não abrirem mão do princípio do respeito e dignidade iguais. Não se trata, óbvio, de proibir determinados livros, mas de cuidar muito na escolha dos livros de leitura obrigatória na escola, conforme as faixas etárias, como de certo modo vem sendo feito pelo MEC. Além das quotas, das bolsas e de  outras medidas que consigam efetuar o  delicado balanço entre respeito à diferença e direito à igualdade social.