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domingo, 13 de maio de 2012

Cadeia produtiva de mães

Dia desses, em discussão em aula sobre relações de gênero e trabalho, discutimos dois textos de literatura - de  Cora Coralina (Tesouros da Casa Velha) e de Maria Lúcia Medeiros (Velas por quem?). Enfocavam uma biografia outrora típica de mulheres pobres em cidades provincianas do Brasil, que começaram cedo nas lides domésticas em casa alheia. Pois bem, nas discussões em sala, surpreendemo-nos, alunos e professora, com os casos de uma aluna e um aluno que eram, respectivamente, filha e neto de uma dessas meninas "crias" em casa de família. Menos surpreendentes foram os relatos de várias alunas, de que podiam estar ali, investindo em sua formação profissional, por disporem dos serviços de uma mulher, geralmente uma empregada doméstica, a quem confiam filhos pequenos ou alguém na casa que requer cuidados contínuos, uma pessoa idosa por exemplo.

Manifestavam-se ali traços comuns do exercício da maternidade entre nós. Um deles, a "conciliação" vida familiar e atividade profissional, assunto de mulheres. Alunas se referiram a essa experiência, reforçando o que a literatura pertinente aponta quanto ao fato se ser essa uma solução que ainda diz respeito, sobretudo, às mulheres. São elas, principalmente, que enfrentam os dilemas e as culpas quando as formas de acomodar ambos os planos, ambos os sonhos, são atrapalhadas, desajeitadas, não se acha a pessoa certa, não se tem o tempo desejado, não se supre devidamente as carências, das mães e dos filhos. Outro traço comum verificado foi a frequência com que nossas "ajudantes", "secretárias", empregadas domésticas que são, muitas vezes, cuidadoras sem o reconhecimento profissional pertinente, também fazem a conciliação vida e trabalho. Também elas recorrem a outras, da família ou de fora, tirando parte dos rendimentos para pagar uma cuidadora para seus próprios filhos e parentes.

E, assim, desse modo privado, doméstico, seguimos resolvendo parte da tensão da chamada conciliação entre vida familiar e trajetória profissional, com maiores ou menores possibilidades, pois as desigualdades sociais são profundas. Daí me ocorreu a idéia do título desta postagem sobre o dia das mães, a de uma cadeia produtiva que efetiva a maternidade. Trata-se de uma rede social em grande parte informal e silenciosa, feita de trabalhos e cuidados, afeto e conflitos, reconhecimento e invisibilidade, direitos conquistados e, não obstante, negação de direitos.

E as mães seguem dando vida, amor, cuidados, até nos nomes que escolheram para os filhos, sozinhas ou compartilhando a decisão com os companheiros, nomes que refletem o fato de que, especialmente naquele instante em que deram à luz, sonharam um futuro bom para os seus.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Por um amor que partiu muito cedo


Esta postagem transcreve palavras de uma pessoa amiga, Ana Cleide, escritas para sua amada companheira que faleceu precocemente, interrompendo uma vida produtiva, plena de projetos e reconhecimento. Ana sofre a perda ainda recente e seu texto expressa essa dor aguda e, no momento, incurável. Mas, para além do sofrimento, suas palavras celebram a graça de um amor que se desdobrou em várias facetas de uma relação que vale a pena ser vivida, como o companheirismo, a amizade, as realizações comuns e as individuais, celebradas conjuntamente. Eis um trecho do poema que ela escreveu há alguns dias:

“Meu amor”/ “Minha vida”, era como nos chamávamos pública e intimamente. Em nossa casinha, em todos os lugares do Brasil e do mundo, onde quer que chegássemos, estávamos em ‘nossa casinha’, nossos corpos, onde morávamos juntas. Uma só estava no lar quando a outra estava ali junto. ‘Meu amor’ e ‘minha vida’ eram parceiras, companheiras, amadas,... amantes, amigas, colegas, sócias, namoradas, pesquisadoras, almas gêmeas, siamesas, taurinas, co-autoras, mulheres livres. Metade morreu. 

A Ana batalhadora que vejo pelos corredores da UFPA, sempre empolgada com o trabalho e com a vida, vai saber superar essa etapa da dor e fazer da saudade e da lembrança, a força para prosseguir em suas buscas, indagações, projetos e fazeres, para si e para outros com quem convive.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Namoros novos, velhas atitudes

Em seu tempo, a pílula anticoncepcional foi saudada como grande fator de libertação das mulheres, conferindo-lhes um controle inédito sobre sua vida reprodutiva e sexualidade. Contudo, essa novidade extraordinária, cultural, científica, tecnológica, mantinha a dominação masculina nessa esfera da vida, a tradicional divisão de trabalho que  faz recair sobre as mulheres os maiores ônus do planejamento e  do controle da natalidade. 

No caso da pílula, são elas que assumem sós os efeitos colaterais possíveis da sua administração por longo tempo. No caso da esterilização, a laqueadura de trompas é uma intervenção cirúrgica mais complicada que a vasectomia masculina, mas a primeira predomina numericamente. Essa prática se ajusta à visão naturalizada de que a contracepção é, em primeiro lugar, assunto de mulher. Aliás, para muitas pessoas a própria concepção é assunto principalmente da mulher, como mostram as taxas de mães solteiras sem parceiro conhecido e os abandonos de bebês em que só se tem notícia da mãe, a grande culpada. 

A vigência de tais valores evidenciam-se em esferas públicas, na carência de creches e outros equipamentos coletivos na maioria das cidades brasileiras, estruturas que facilitem a conciliação entre trabalho e maternidade, especialmente para mulheres de baixa renda. É certo que a lei procura trazer equidade a essas relações, mas a força dos costumes ainda manda nas atitudes e na definição de políticas públicas e privadas. Ainda manda na tolerância que se tem com as dificuldades cotidianas que mulheres pobres enfrentam nos postos de saúde em busca de cuidados para os filhos pequenos. Ou na prática de compra de votos femininos com esterilização, cada vez mais rara, felizmente. 

As mulheres no Brasil e em outros países conquistaram autonomia que  gerações passadas desconheciam. Deixaram de ser sujeitas aos ritmos das suas muitas gestações, ou de suas irmãs cujos filhos tinham de ajudar a cuidar, ou ter de casar com o primeiro namorado para abafar a vergonha da família e o incerto futuro como mãe e pai ao mesmo tempo.

Uma médica que atende adolescentes opinava estes dias que se a pílula fosse boa, sem efeitos, certamente já se teria inventado uma pílula para homens. Admirava-se ao constatar como as namoradas de hoje se submetem aos papéis tradicionais em matéria de relações sexuais, arcando com os maiores custos da contracepção. Equidade, responsabilidade compartilhada, nada disso. No início da vida adulta, elas aceitam geralmente de bom grado o lugar convencional, enquanto perseguem seus projetos e sonhos, que podem ser os mesmos dos namorados, pois os direitos são iguais. Mas as preocupações e providências para evitar filhos precoces não são iguais. Elas transam sem grandes culpas e experimentam a liberdade sexual sem mexer no script.

Os métodos contraceptivos temporários considerados mais incertos e arriscados, o preservativo e a tabela, são também os que  induzem à partilha mais equilibrada da responsabilidade entre os parceiros. Planejamento, autocontrole e sensibilidade um para com o outro são mais necessários quando se lança mão deles. São atitudes, portanto, que questionam mais a fundo os padrões comportamentais que se acomodam à pretensa sujeição das relações sexuais aos ditames da biologia. Pelo menos nesse aspecto são  mais avançados do que a pílula e os outros métodos centrados na mulher. Cultivam novas atitudes.

domingo, 19 de junho de 2011

Mensagens de uma festa de casamento

Ontem, durante uma festa de casamento, um amigo dos noivos fez uma fala na qual leu um poema que consta da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. É o texto "Acima de tudo o amor". Independentemente de fé religiosa, vale sempre a pena deixar-se seduzir por aquelas palavras. Por curiosidade, então, consultei o texto. Os organizadores da Edição Pastoral da Bíblia, que possuo, lembram que as cartas de Paulo são documentos complexos, com muitas dimensões e mensagens a serem apreciadas. Sem entrar no mérito da fé e ciente de minha ignorância em matéria teológica, reflito aqui sobre apenas algumas das mensagens que o texto encerra e que são "boas para pensar" em qualquer tempo, mesmo fora do campo religioso. É num sentido não religioso que estou refletindo aqui.

Dois temas ressaltam logo no início da carta: subversão das hierarquias sociais e relativização dos saberes oficiais. Assim, referindo-se ao espírito que animava o anúncio do Evangelho, Paulo indicou a vã pretensão de se considerarem superiores aos demais, aqueles reputados como detentores privilegiados dos conhecimentos e da sabedoria do mundo, bem como os mais fortes. 

"Entre vocês não há muitos intelectuais, nem muitos poderosos, nem muitos de alta sociedade. Mas, Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante". (Coríntios 1-2) 

A loucura referia-se àquele saber que não era o reconhecido e institucionalizado: "Minha palavra e minha pregação não tinham brilho nem artifícios para seduzir os ouvintes, mas a demonstração residia no poder do Espírito, para que vocês acreditassem, não por causa da sabedoria dos homens, mas por causa do poder de Deus". Tratava-se de um saber engajado na promoção humana, mobilizador das pessoas para o crescimento conjunto. Um saber generoso, portanto. Esse ponto reaparece no poema sobre o amor, quando dizia que conhecer sem amar era inútil: "Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transpor montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada".

A conversão de que ele falava produzia uma força interior que tornava o sujeito autônomo perante as forças do meio, como expressa a frase : "... o homem espiritual julga a respeito de tudo, e por ninguém é julgado. Pois, quem conhece o pensamento do senhor para lhe dar lições? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo". É uma extraordinária afirmação do poder da pessoa como sujeito, capaz de se transformar interiormente e agir em conformidade com essa força, transformando o contexto social em benefício da maioria. A maioria aqui não oprime o sujeito, mas parte dele, justamente de sua elevação. Tem-se aí, também, a inversão da polaridade força e fraqueza. Por mais fraca, pequena, desprovida de reconhecimento social que fosse a pessoa, abrir-se ao que vinha do "Espírito de Deus" tornava-a integral, plena, engrandecida. Por outro lado, Paulo diz que esteve pregando entre os Coríntios "cheio de fraqueza, receio e tremor", sem o brilho e os artifícios que facilitariam a sedução do público.

A carta exprime sabedorias que atravessam os tempos e sempre conseguem dizer algo novo ao leitor, religioso ou não. Essas palavras antigas têm um frescor próprio dos grandes textos e dos grandes autores. 

Ele abordou o tema da limitação dos saberes oficiais, da ciência instituída. E, portanto, de certo modo convidava a olhar para saberes outros, populares, desprovidos de prestígio e consideração. Não falou propriamente em diálogo entre saberes, mas acho que a idéia do diálogo encontra legitimidade em seu texto, pela ênfase no reconhecimento. Para ele, os pequenos do mundo estavam como que mais prontos para a nova visão que elevaria a todos. 

Arrisco dizer que essas reflexões enriquecem um tema contemporâneo, que é a degradação ambiental. As palavras da carta convidam a relativizar os saberes e as práticas dominantes e a compartilhar e trocar conhecimentos científicos com populações locais (indígenas, comunidades pesqueiras e camponesas...) no trato com seu meio. E, assim, a colocar em relevo os direitos ao território e aos meios de vida, condição para o para o diálogo de saberes na busca de melhores modos de gestão ambiental. Obviamente, uma discussão bem distante do texto original que, ademais, toca em muitas outras questões.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

De namorados e outros dias festivos

Há muito tempo o dia dos namorados nada me dizia, salvo a atenção breve despertada pelas propagandas e pelas notícias que o associam com o santo casamenteiro, no dia seguinte. Mas, com uma filha que aniversaria 12 de junho e que está na fase de curtir o namoro, a data me tocou um pouco este ano. Então, pensei que como a data geralmente não diz respeito a quem está na vida a dois há tempos, talvez fosse oportuno criar um dia dos casados. Quem sabe dava uma "animada" nas muitas relações que caíram no hábito, um pouco tragadas pelos compromissos, pelos anos de estrada, que deixaram de lado carinhos especiais, a atenção com aquelas pequenas coisas, pequenas mesmo, como a aparência, os gestos, de repente um convite para sair a dois, uns elogios... É claro que essas coisinhas podem ter sido deixadas de lado em prol de substitutos de qualidade, como a amizade profunda, o companheirismo, o apoio, o incentivo e o sentimento de se ter constituído uma família, laços de enorme significação. O equilíbrio entre perdas e ganhos nessa trajetória é complexo, uma verdadeira construção pode-se dizer, com muita probabilidade de fracasso. O dia dos casados poderia ajudar não só o comércio, como também os casais que precisam de uma lembrança do valor dos atos simbólicos. A sociedade não dispensa seus símbolos, suas festas coletivas; a sociedade conjungal também, por que não? Mas, aí, também cabe pensar nos tantos e tantas que não casam, porque não quiseram ou não encontraram, ou se separaram e não acharam nova "alma gêmea"... E aí, como fica? 

Então, pode-se pensar em dias da amizade, que também é uma relação que requer cuidado, talvez ainda mais frágil, própria de certas etapas da vida, difícil de manter em outras. E um dia da vida? Seria um dia de agradecer e celebrar o fato de se continuar neste mundo; radicalizada, a idéia implicaria suspender as barreiras de classe, barreiras étnicas, barreiras de idade, pois estar vivo é uma dádiva, na qual entra uma dose de sorte, e não tem a ver com essas marcas de distinção social, a não ser pelas probabilidades diferentes de ser exposto à violência ou a doenças próprias da condição social. Esse dia da vida nos levaria a ver nos outros a mesma condição de humanidade e vulnerabilidade e a demonstrar esse reconhecimento; por 24 horas. Mas, como o comércio ganharia com isso? Como seria uma comemoração substantiva, fora do padrão um grande bolo em uma praça pública, chamada pelo governo local nos aniversários da cidade? Alguém dá uma idéia?

Feliz Dia de Santo Antônio para todos. Muita festa!

domingo, 1 de maio de 2011

Que dizer do amor?

Que dizer a alguém que inicia no mundo das relações amorosas, que experimenta a primeira rejeição com o término de um namoro? Alguma música fala que o amor é sempre risco, pois comporta a possibilidade do rompimento, da traição, enfim, do próprio fim. Mas fala também que o risco é compensado, de longe, pela intensidade dos momentos juntos, pelos sonhos e cumplicidades, de curtir paixão... A dura frase de Vinícius: "que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure", é uma verdade que não serve de consolo nessa hora. Compreender que o balanço de ganhos e perdas pode ser positivo depende de tempo e de maturidade, vem muito depois.

Minha vontade é dizer o que parece então inatingível: que, em primeiro lugar, é preciso amar a si mesmo, condição para viver a plenitude da relação com outros, para viver um grande amor e para aguentar os trancos do caminho, com a convicção de que vale a pena. Que é preciso não jogar todas as cartas da própria felicidade e sentido de realização no outro, o que é válido tanto no amor quanto na convivência em geral. Não ser um peso, mas uma alegria, uma dádiva para outrem. E é impossível sem gostar de si.

Queria lhe convencer que a fossa termina, nada como o tempo para superar a fossa. E queria ter o poder de assegurar que o amor próprio balança mas não cai. Também, dizer que uma história de amor enfrenta inúmeros desafios, tantas vezes escritos e cantados. No início da vida parecem improváveis, não se aplicam. Longínquos os desafios do tempo, a incidência dos valores culturais que associam prazer e beleza a juventude, alimentando as crises de "meia-idade". Preocupações da vida, família, trabalho, dinheiro etc., muitas vezes vão colocar à prova um casamento.

Um dos resultados do fim do primeiro namoro devia ser o de aprender a equilibrar o desejo de estar junto o tempo todo, de tudo compartilhar, com a necessidade de não se abandonar à relação. Compreender que a solidez de uma parceria de amor depende da integridade dos parceiros como pessoas, de seu sentimento de autonomia, realização pessoal e liberdade, ao mesmo tempo em que se submetem aos compromissos e inevitáveis "abrir mão" do auto-interesse em prol da união. Uma experiência complexa! E uma difícil competência!

Sei que é raro ter essa força num momento em que o que se quer é um colo, um carinho, um aconchego. Quando se precisa de um afeto novo, mas o maior desejo é a volta do amor perdido. Por isso, pode chorar. Mas, se puder, não muito!

Palavras de uma amiga blogueira: Com o tempo, passa-se a entender que o amor da hora é sempre um primeiro amor, o maior, o mais importante e insuportavelmente insubstituível.