Um blog de reflexões sobre temas sociais, políticos e culturais da atualidade. Está aberto para compartilhar idéias.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Fora do ar temporariamente
Estarei fora do ar alguns dias pois estarei ministrando uma disciplina para um curso de pós-graduação em Biologia Ambiental. Não sei se terei acesso à rede. Assim, o Sociologando entra em recesso por alguns dias. Um abraço.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Da combinação de bares e telões com lutas
Moro bem pertinho de uma rua de Belém que tem muitos bares ("barzinhos" como se dizia antigamente), pelo menos um dos quais uma "espetaria". A rua costuma engarrafar nas noites de sexta e sábado, tantos carros, transeuntes, mesas nas calçadas... Há vários anos esses bares passaram a dispor de aparelhos de TV e de telões que exibem eventos esportivos, o que é um poderoso atrativo para os consumidores e fazem a festa dos fornecedores de cerveja. As concentrações de fãs em dias de futebol já são velhas conhecidas. Mas, nos últimos meses, tenho verificado com frequência a exibição de lutas nos telões dos bares. Como minha experiência na noite belemense se limita quase sempre apenas a passar na frente dos bares, de carro, acho bizarra aquela combinação de casas cheias, gente bem vestida, muitos jovens, conversas alegres e, ao fundo, dois caras se batendo e se batendo. Num vislumbre rápido, parecem lutas livres, sem regras, o que aumenta meu espanto e me dá a sensação de que o gosto popular está caindo! Sensação elitista por certo.
Como a gente não deve dizer desta água não beberei, eis que nesta última sexta-feira, justamente noite da final de um campeonato da organização americana UFC no Rio de Janeiro (acabo de aprender alguma coisa da sigla), vi-me sentada em um bar até duas da manhã, assistindo a uma série estonteante de lutas de MMA (Artes Marciais Mistas), o tipo de lutas que eu pensava ser de vale-tudo, mas que tem lá suas regras. Ainda acho que devia ter mais regras, acho que não se devia bater na cabeça, por exemplo. O Vitor Belfort saiu com um olho tampado. Mas enfim, não é a total liberdade. A força física necessária é fenomenal. A rápida sucessão de lutas em um campeonato da importância daquele, como pude compreender, não deixava ninguém indiferente. Ao contrário. A gente ia se envolvendo, mesmo que de início não pretendesse olhar.
A estranheza de observadora de fora, crítica daquela junção esquisita de diversão e luta, se dissipara e eu me vi então participando do ritual com todas as suas etapas, inclusive as conversas no dia seguinte sobre os momentos marcantes das lutas. Como se fosse futebol, muita gente assistira à luta e queria compartilhar suas observações. E eu até senti pena que não tivesse sido dia de luta do paraense Machida, que eu nunca vi atuar. Pelo menos dois brasileiros se destacaram, inclusive o que manteve o cinturão de primeiro lugar.
A estranheza de observadora de fora, crítica daquela junção esquisita de diversão e luta, se dissipara e eu me vi então participando do ritual com todas as suas etapas, inclusive as conversas no dia seguinte sobre os momentos marcantes das lutas. Como se fosse futebol, muita gente assistira à luta e queria compartilhar suas observações. E eu até senti pena que não tivesse sido dia de luta do paraense Machida, que eu nunca vi atuar. Pelo menos dois brasileiros se destacaram, inclusive o que manteve o cinturão de primeiro lugar.
No fundo, não nos distanciamos dos nossos antepassados de muitos séculos na apreciação de competições violentas. A isso somamos um gostinho de ver se destacando no certame alguém da nossa região. Desta vez, o amazonense José Aldo. Antes que eu me deixasse levar por uma euforia descabida, um espectador da mesa vizinha arrematou: o único defeito dele é ter nascido em Manaus!
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Reciprocidade e laços sociais
Marcel Mauss foi um dos grandes cientistas sociais, um clássico, visto como um dos pilares da moderna Antropologia. Recentemente, vem sendo redescoberto pela Sociologia Econômica, especialmente sua obra Ensaio sobre a Dádiva. Ele lançou um olhar original sobre as interdependências humanas, que fundamentam a vida social; as interdependências no plano material, que estrtuturam a divisão do trabalho e as trocas, assim como as interdependências no plano cultural e simbólico. Segundo sua análise, as relações sociais não são apenas funcionalidades, mas símbolos, com vários significados, muitos não ditos. Uma relação não se esgota na função, mas implica sujeitos, considerações recíprocas, expectativas, estratégias e incertezas.
Uma das contribuições fundamentais do referido estudo está nos conceitos de dádiva e de reciprocidade, que constituem, conforme a análise de Mauss, a base dos laços sociais. Ele observou, notadamente a partir de materiais etnográficos de sociedades insulares do Pacífico e de indígenas da América do Norte, que as relações sociais entre pessoas, assim como entre grupos, envolvem, em primeiro lugar, a circulação de bens e serviços sob a forma da dádiva. Além de uma virada teórica no campo específico das Ciências Sociais, o autor atacava assim a perspectiva utilitarista em voga na ciência da Economia, que explicava a ação social, particularmente a ação econômica, pelo auto-interesse dos indivíduos. A equivalência nas trocas, via preço por exemplo, asseguraria, nessa ótica, a satisfação dos agentes econômicos que vão ao mercado para satisfazer seus objetivos e o fazem tanto melhor quanto menos obrigações extra-econômicas os vinculam. Marcel Mauss analisou o quanto a dádiva, o oferecimento de algo ou de um serviço, suscita a relação social, que se concretiza quando o destinatário aceita, recebe a coisa. Ao fazê-lo, expressa a aceitação do vínculo, do laço social que está sendo proposto e, por conseguinte, implica-se na reciprocidade. Por exemplo, receber um presente, realizar um convite, pedir um favor, oferecer um favor, são práticas simbólicas que engajam, manifestam consideração pelo outro e fundam compromissos recíprocos. É essa longa cadeia de dar, receber e retribuir que forma uma comunidade, uma sociedade, ou um conjunto de sociedades que intercambiam. Reside aí o princípio fundador da vida comum.
Enquanto a relação monetária, o pagamento do preço devido pelos bens e serviços trocados encerra a relação, propiciando a satisfação do consumidor que adquire o produto e se retira da cena para consumi-lo, as Ciências Sociais vão olhar para além, de maneira a perscrutar justamente o que alimenta as relações, os vínculos humanos, intra e extra mercado. Então, compreendem que a própria produção e circulação mercantil implicam dimensões extra utilitárias; há simbolismo e busca de sentidos múltiplos também em uma transação econômica. Há motivações ligadas à interação, à participação e ao reconhecimento social, ao entregar mais do que se recebe. É óbvio que o mercado moderno, asséptico, contábil, regulado pelas instituições econômicas, cumpre funções capitais, de cunho instrumental e segundo a lógica da eficácia. Mas ele é, na perspectiva do liberalismo puro, o que Karl Polanyi chamara de "moinho satânico", pois no decorrer do século XIX, reduzira a natureza e os homens a mercadorias, com todas as consequências adversas. E invertera as interações humanas básicas, conforme analisara Marx, no processo que denominou fetichismo da mercadoria. Marcel Mauss, assim como Polanyi, analisaram os mercados como parte das relações sociais, inseridos na teia maior da vida social. Daí esses autores serem adeptos das políticas sociais, do Estado de Bem Estar Social, das proteções sociais, na medida em que a vida social não é feita da circulação de coisas e práticas segundo a lógica do cálculo, mas sim de pessoas em suas relações sociais, necessariamente culturais e simbólicas; envolvem tanto interesse de ganho, quanto desinteresse.
Na perspectiva da dádiva, os aspectos da obrigação e do interesse que motivam as relações e as trocas, conquanto estejam presentes, não aparecem em primeiro plano. Ao contrário, tudo é feito de forma a manifestar o valor do outro, sobretudo a importância do laço social, inserindo seus agentes na rede de sua coletividade. Dádivas e reciprocidades ocorrem entre sujeitos, que agem de maneira deliberada e se lançam nas relações concretas, nas tríades dar, receber e retribuir.
Era essa uma maneira muito original de apreciar a natureza das relações sociais. Há importantes implicações epistemológicas nessa forma de olhar a realidade. Na Sociologia Econômica contemporânea, diferentes autores classificam a perspectiva de Mauss como estando a meio termo entre o individualismo e o holismo metodológicos. Ambos partem de postulados exteriores ao campo das interações, ao passo que a dádiva traz a análise para o plano das relações sociais, dos atores que se lançam na aventura de tecer e manter vínculos sociais. Apenas os vínculos herdados, obrigatórios, ou a cultura compartilhada não asseguram a reprodução das sociedades e de seus agentes.
P. S.: Essas reflexões me vêm a propósito do meu aniversário ontem, uma ocasião na qual a gente pode se colocar, aparentemente, na condição de simples destinatário dos presentes, das dádivas e manifestações de apreço, puro recebedor sem obrigação de retribuir. Uma posição de privilégio que a gente acha merecida, uma "superioridade" sobre os outros sentida como justa nesse dia especial. Mas é uma ilusão consentida. Dura vinte e quatro horas. É gostosa e passageira. A gente depende mesmo da nossa teia de relações e das muitas doações e concessões que fazem a vida cotidiana. Sobretudo, dos vínculos que estão muito além dos nossos contatos, espalhados em diferentes espaços e tempos. Mas aí, frequentemente, a reciprocidade tende a ficar embaçada, perdendo-se de vista os nexos entre nós e os tantos outros distantes, o que lhes ocorre e o que lhes falta.
Era essa uma maneira muito original de apreciar a natureza das relações sociais. Há importantes implicações epistemológicas nessa forma de olhar a realidade. Na Sociologia Econômica contemporânea, diferentes autores classificam a perspectiva de Mauss como estando a meio termo entre o individualismo e o holismo metodológicos. Ambos partem de postulados exteriores ao campo das interações, ao passo que a dádiva traz a análise para o plano das relações sociais, dos atores que se lançam na aventura de tecer e manter vínculos sociais. Apenas os vínculos herdados, obrigatórios, ou a cultura compartilhada não asseguram a reprodução das sociedades e de seus agentes.
P. S.: Essas reflexões me vêm a propósito do meu aniversário ontem, uma ocasião na qual a gente pode se colocar, aparentemente, na condição de simples destinatário dos presentes, das dádivas e manifestações de apreço, puro recebedor sem obrigação de retribuir. Uma posição de privilégio que a gente acha merecida, uma "superioridade" sobre os outros sentida como justa nesse dia especial. Mas é uma ilusão consentida. Dura vinte e quatro horas. É gostosa e passageira. A gente depende mesmo da nossa teia de relações e das muitas doações e concessões que fazem a vida cotidiana. Sobretudo, dos vínculos que estão muito além dos nossos contatos, espalhados em diferentes espaços e tempos. Mas aí, frequentemente, a reciprocidade tende a ficar embaçada, perdendo-se de vista os nexos entre nós e os tantos outros distantes, o que lhes ocorre e o que lhes falta.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
O gari e a cracolândia
No atual processo de desocupação do lugar chamado cracolândia em São Paulo, chamou-me a atenção no noticiário de três dias atrás, a resposta de um gari entrevistado quando efetuava a limpeza de um aposento que servira de abrigo para consumidores de drogas que moram, ou passam muito tempo ali. Um volume indizível de detritos, absoluta falta de higiene. Naquele quadro, o repórter perguntou ao rapaz, que portava uma máscara de proteção da boca e do nariz, o que achava de espaço tão inóspito servir de moradia. Ele virou-se para o outro lado e, por um instante, deu a impressão de que não iria responder. Após uma breve reflexão a resposta veio firme:
- É o sistema. A culpa disso aqui é do sistema. Se tivesse educação para os jovens, um lugar desses não existia.
Uma resposta inesperada, porque fez de imediato uma crítica política ao invés de se deter no lugar, alvo da questão e da tarefa que lhe ocupava no momento. Resposta genérica por certo, mas certeira. Aquele lixo ali, material e humano, tem uma conexão com os arranjos sociais mais amplos da cidade, do país. As políticas sociais e a educação tecem alguns dos fios dessa rede que inclui a cracolândia.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Da Austrália, reenvio mensagem de Natal
Revendo Canberra, republico um dos posts que mais gosto do Sociologando, a propósito desta época que é sempre de lembranças e de renovação em muitos sentidos.
O
título desta postagem inclui a expressão "o menino que faz
aniversário", que ouvi há tempos do colega de pesquisas Jean Hébette, ao
se referir ao Natal, durante uma das reuniões do nosso grupo de
estudos. Hoje vem-me a mente um grande comentador e intérprete da vida
de Jesus, o teólogo russo Aleksandr Mien, cujo livro Jesus, Mestre de Nazaré me foi sugerido por uma colega do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFPA.
Tecendo
suas reflexões em um contexto social e histórico distante, sua escrita
tem uma grande qualidade, que é a de parecer travar um diálogo com o
leitor, propondo uma reflexão conjunta entre autor e leitor. E, assim,
ele vai apresentando a figura de Jesus, sob ângulos por vezes
surpreendentes, munido de farta documentação histórica, situando-o no
seu tempo e, também, no que ele tem de universal e atemporal.
Aproxima-se, portanto, da própria mensagem - muitas mensagens - do
menino que faz aniversário em 25 de dezembro.
Sem
qualquer pretensão de dar uma lição religiosa, totalmente fora de
minhas possibilidades ou competência, este texto reflete sobre alguns
aspectos da obra do "mestre de Nazaré" que a tornam referência em muitas
partes do planeta, referências culturais e ideais.
Dentre
as muitas passagens que valem a leitura da obra de Mien, há os também
muitos episódios em que Jesus exprimiu, por palavras e ações, sua
concepção do ser humano universal, igualmente digno de reconhecimento
independentemente de status, etnia, classe social ou gênero. Assim, por
exemplo, no que tange à condição da mulher, ouve-se do autor que Jesus
disse pela primeira vez a alguém tratar-se do Messias e "revelou a
essência da religião do espírito" , não aos discípulos, mas a uma
mulher, na Samaria; e, "ainda por cima, pecadora e herética...", nos
padrões da época (p. 105).
Mien
situa a visão de Jesus sobre a igualdade radical na condição de ser
humano - nela incluída, portanto, as mulheres e os homens - no contexto
da reflexão filosófica e religiosa da época, em que prevalecia o status
subalterno da mulher.
Para um filósofo como Sócrates, a mulher era "um ser estúpido e enfadonho. No mundo pré-cristão, as mulheres quase sempre não passavam de servas mudas, cuja vida só conhecia o trabalho extenuante e as obrigações de casa. (...) Foi Cristo quem restituiu à mulher a dignidade humana que lhe fora tirada, o direito de ter exigências espirituais. A partir dele, o lugar da mulher não se limitou mais ao lar doméstico. Por isso, no grupo de seus seguidores mais íntimos vemos muitas mulheres.... (p. 105)
Para um filósofo como Sócrates, a mulher era "um ser estúpido e enfadonho. No mundo pré-cristão, as mulheres quase sempre não passavam de servas mudas, cuja vida só conhecia o trabalho extenuante e as obrigações de casa. (...) Foi Cristo quem restituiu à mulher a dignidade humana que lhe fora tirada, o direito de ter exigências espirituais. A partir dele, o lugar da mulher não se limitou mais ao lar doméstico. Por isso, no grupo de seus seguidores mais íntimos vemos muitas mulheres.... (p. 105)
Do
mesmo modo, relembramos a vivência de Jesus no meio das pessoas comuns e
o seu objetivo maior de elevar os seres humanos ao plano divino desde
"este mundo". Daí ter andado e convivido entre os "mais simples", de uma
maneira muito diversa do que igrejas instituídas assumiriam muitas
vezes ao longo de suas histórias: poderes materialmente distantes dos
seus "povos".
O desdém pelas hierarquias sociais ficou patente nas manifestações de divindade de Jesus em momentos ordinários, entre pessoas comuns e não em situações solenes ou majestáticas, de evidente poder e autoridade. Foi assim na famosa transformação de água em vinho durante uma festa de casamento, episódio sobre o qual Mien assim analisa:
Foi
assim que o poder de Jesus sobre a naureza se manifestou pela primeira
vez, não com sinais temíveis, mas em uma mesa posta, no meio das canções
alegres de uma festa de casamento. Usou pela primeira vez o seu poder
sobrenatural quase por acaso, para que não se tornasse triste um dia
festivo. Afinal, ele viera para dar aos homens a alegria, a plenitude, a
vida 'em abundância'. (p. 78)
Há,
ainda, a célebre cobrança do amor incondicional pelos outros,
recíproco, a começar pelos inimigos, como resultado dessa sua concepção
universal do ser humano digno de respeito e reconhecimento. Além do
"oferecer a outra face" ao agressor, Jesus contribuiu também na história
da construção do Direito como "domesticação da vingança". Sua concepção
de irmão e próximo rompia com a noção corrente: irmão e próximo
passava a ser qualquer um, sem relação com sua posição ou comunidade de
origem. A compaixão, a solidariedade, as ações para com os outros eram
os indicadores dessa condição de irmandade ou proximidade. Esses
sentimentos e ações recíprocos deveriam nortear a normatização da vida
coletiva, as relações jurídicas, como se verifica na seguine passagem:
Nos
códigos pagãos a punição muitas vezes era mais pesada do que a própria
infração. (...) "Olho por olho, dente por dente". Jesus distinguiu com
nitidez o direito penal de uma justiça baseada em outros princípios.
Para todo mundo, é natural odiar seus inimigos; mas os filhos de Deus
devem vencer o mal com o bem, devem lutar em seus corações contra o
sentimento de vingança. Não só. Devem desejar o bem daqueles que o
ofendem. Esta é uma tarefa bastante ousada, um modo de manifestar uma
força interior autêntica (...).
E as belas palavras de Jesus:
Se amais só aqueles que vos amam, que mérito tereis com isso? (p. 96)
Tem-se
aqui muito mais do que a recomendação de princípios técnicos que tornem
justa a justiça. Na fórmula mesma da lei devem inscrever-se princípios
de reciprocidade humana, isto é, o sentimento claro dos laços que
aproximam os membros dessa humanidade comum. Jesus fazia uma cobrança
singular, pois uma tal tarefa, como diz o intérprete, deveria expressar
uma grande força interior.
Na
sua trajetória, Jesus fez inúmeros convites, endereçados
democraticamente, sem distinções. Certamente em todas as culturas, um
convite feito a alguém, a uma festa, a uma confraternização, a uma
partilha, a um trabalho, a uma ação coletiva, a uma ceia... é a
expressão, por excelência, do reconhecimento da pessoa em seu valor, em
sua dignidade. Sobretudo, em sua individualidade. É, assim, uma relação
entre sujeitos.
Todos,
por certo, já vivemos a tristeza de não sermos convidados. Bem a
propósito, o colega Jean Hébette relatava dias atrás o depoimento de um
pescador que entrevistara durante uma pesquisa de campo. Era um
participante de um movimento social em defesa de lagos contra a pesca
predatória no município de Porto de Moz, à margem do rio Xingu. O
entrevistado manifestara seu orgulho de estar sendo convidado por muitos
para participar de eventos, de reuniões dentro e fora de sua localidade
e de seu município.
Os
convites do aniversariante Jesus não foram dirigidos a um sujeito
passivo, como se sabe bem. Aceitá-lo era dar um grande passo, laborioso,
implicava compromissos que não eram leves, pois se tratava de construir o Reino de Deus.
Na história humana foram muitas as visões diferentes - e os embates e
as guerras - quanto ao que significa este Reino, como construí-lo.
Muitas interpretações conflitantes, que enfatizaram determinados ângulos
ou interpretações, em detrimento de outros, ortodoxias em lugar de
diálogos e de ecumenismo. Tudo bem conhecido.
Independentemente
da crença específica que se tenha, ou não se tenha, é notável que a
data do Natal é símbolo de tanta coisa boa. Queiramos ou não, entre os
povos seguidores do Cristianismo e, mesmo em outros, a rotina muda. É
certo que para uns mais do que para outros. A mensagem daquela biografia
que hoje se relembra, é forte. É forte no que ela tem de universalismo,
de apreço pela humanidade e, notadamente, ao combinar de modo tão
peculiar o interesse pelo coletivo e, dentro deste coletivo, também pelo
mais particular, o mais humilde - basta que lembremos as passagens
sobre a alegria da volta do filho que partira, a ovelha desgarrada...
Nesse sentido, a gente sente e, humildemente, pensa compreender a grandeza dessa construção e dessa herança.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
O chefe político recupera o mandato
Destaque político de hoje: os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiram liberar nesta
quarta-feira (14) a posse do ex-governador do Pará Jader Barbalho (PMDB)
no Senado. E lá se vai para o Congresso Nacional mais uma vez, quem é talvez o político paraense de maior brilho, de maior projeção nacional, mal se desembarançando de um emaranhado de processos judiciais, de denúncias, de suspeitas, efim, de um imbroglio que se colou à sua figura de modo inseparável nas últimas décadas.
Foi para ele que dei meu primeiro voto. Ele fazia então oposição ao regime militar, membro do MDB, escrevera um pequeno livro chamado Guerras a Vencer, que exibia na capa uma fotografia da exuberante floresta amazônica. Um político promissor, combatente contra as trevas da época de pleno apogeu do modelo desenvolvimentista da fronteira amazônica. Tinha preocupações com justiça social.
Ao longo dos anos, com seus sucessivos mandatos, seu poder político e econômico cresceu exponencialmente, em boa parte graças a seus méritos pessoais e políticos, aos quais acrescentou "tino empresarial" que lhe permitiu amealhar fortuna. Foi crescendo, também, sua habilidade no trato com os eleitores, notadamente com o enorme eleitorado de baixa renda, junto ao qual soube desenvolver um estilo de liderança carismática. Seu status político, seu capital simbólico nos termos do sociólogo Pierre Bourdieu, mistura gratidão, reciprocidade e reconhecimento de um político "que faz, apesar de...", que trabalha, age. Tradicional e moderno ao mesmo tempo. Muitos
políticos até então eram peças decorativas, quase inertes fora do ciclo eleições, mandato discreto ou sumido, reeleição. O ex-governador planejou. Fez governo itinerante.
Chegou a presidir o Senado. Quantas casas humildes no interior do Pará, de norte a sul, ostentaram calendários com a fotografia do líder nas paredes quase nuas?
Em paralelo, foram crescendo em relação a ele e a seus próximos as suspeitas, denúncias e processos relativos a malversação de recursos públicos. Esses processos ao mesmo tempo que chamuscavam a respeitabilidade da figura pública junto ao eleitorado fiel, iam desvelando um conjunto de práticas que constroem o poder político, um amálgama de relações e compromissos públicos e privados, de atos mais e menos claros e lícitos. Em torno de si, esses componentes obscuros do poder foram ficando particularmente nítidos por causa da magnitude de sua figura e dos postos que galgou na hierarquia do Estado. Traziam progressivamente à tona parte do engodo inscrito nas relações políticas nesse nível.
De uns anos para cá, seus mandatos têm se concentrado em se safar das acusações e processos. A grandiosa figura, por vezes, parece esmirrada sombra do passado, a se debater em defesa não mais de uma honra, mas de salvamento da carreira política. O que sobra para cumprir a missão confiada nas urnas? E, ainda assim, seu capital eleitoral se mantêm extraordinário. Os acordos interpartidários para cargos majoritários passam necessariamente por ele, um fiel da balança inescapável. Mesmo que forçado a cobrir o brilho próprio, ou emprestá-lo a outrem.
Ainda colhendo os frutos de sua popularidade, retoma agora o mandato no Senado. Para que batalhas?
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Emprego em Belém e o ponto de ônibus
O sentimento de alívio com o resultado do plebiscito mal se define e me vem à mente dois episódios durante a minha atual procura por uma empregada, ocorridos um na semana passada e outro no último sábado. Duas candidatas entrevistadas, uma residente na Terra Firme e outra ao final do Quarenta Horas não aceitaram a oferta. A justificativa que apresentaram foi exatamente a mesma: suas casas ficam longe do ponto de ônibus. Como em alguns dias a jornada vai até 19:30, ambas alegaram que nesse horário é muito perigoso fazerem o trajeto do ponto à casa.
Não é surpresa entre nós, em muitas cidades brasileiras, esse tipo de barreira. Mas, de todo modo, se a gente parar para pensar, é sempre chocante. Uma baita limitação à livre circulação. Em Toronto, no Canadá, as mulheres conquistaram o direito, a partir de uma certa hora da noite, de solicitarem aos motoristas de ônibus para pararem onde elas querem descer, ao longo do percurso do ônibus, mesmo que seja fora do ponto. Descendo mais próximo do destino, evitam se exporem a assédios.
Longe, tão longe do Canadá, as pessoas por aqui se acostumam a esses limites cotidianos que usurpam um direito humano tão básico, todo dia, minando a própria idéia de que se tem aí a negação de um direito. É um toque de recolher discreto, sem nome.
Os dois pequenos casos que presenciei podem não ser "representativos", afinal tantos trabalham até tarde, tantos estudam, enfrentam as barreiras e conseguem uma ascensão social. Mas, parte do preço que pagam é desprovido de razão, é irracional como muitos aspectos da nossa urbe.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
A valiosa pobreza
Com o plebiscito batendo à porta, clima de eleições, novamente ascende o tema da pobreza para o centro dos discursos. Talvez com mais intensidade do que nos pleitos eleitorais normais. Fala-se mais da pobreza agora pois é em torno dela e das propostas para atacá-la que se estrutura o cerne dos argumentos pró e, na defensiva, os argumentos contra a divisão. Fala-se abertamente das responsabilidades do Estado no campo da saúde, habitação, saneamento e educação, especialmente em Belém. "Pobres" são entrevistados de ambos os lados e, obviamente, sua indignação é igual.
O que irrita é constatar que, muitas vezes, pessoas comuns que clamam pela ação estatal contra a situação de pobreza e se sensibilizam com os discursos "sociais" reclamam de ter de pagar impostos sobre a renda, do alto valor dos impostos cobrados etc. Uma choradeira. Por vezes a desculpa é a corrupção, que desvia parte do que é arrecadado; mas, se der, sonega-se. Por outro lado, quando se trata de políticas de redistribuição direta de renda, os julgamentos costumam ser pesados: o mercado deve ser o caminho; receber sem trabalhar estimula a acomodação, estimula a ter mais filhos etc.etc. Eu tenho que defender o meu.
A pobreza assume um alto valor no mercado eleitoral; seu voto é decisivo num contingente de eleitores onde ela impera. Mas a incoerência nas representações e atitudes continua. Afinal, os espaços sociais que se frequenta, os equipamentos coletivos que se utiliza - escolas, transportes, atendimento médico...- são separados nesta sociedade dual. E o Pará, para onde vai? Um incauto pode, com razão, ser cativado com os apelos a favor do sim. E ver a mudança pretendida não passar disso.
A pobreza assume um alto valor no mercado eleitoral; seu voto é decisivo num contingente de eleitores onde ela impera. Mas a incoerência nas representações e atitudes continua. Afinal, os espaços sociais que se frequenta, os equipamentos coletivos que se utiliza - escolas, transportes, atendimento médico...- são separados nesta sociedade dual. E o Pará, para onde vai? Um incauto pode, com razão, ser cativado com os apelos a favor do sim. E ver a mudança pretendida não passar disso.
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