O
que seria São Paulo sem os italianos, japoneses, sírio-libaneses e
tantos outros? A agricultura do Pará sem os japoneses? ... O que seria o
Brasil sem tanta contribuição estrangeira? E o que será dos cidadãos
brasileiros vivendo em outros países, tantos, com a saída do Brasil do
acordo internacional sobre migrações, no quadro da ONU? O documento traz
recomendações, não obrigações, para uma melhor gestão das migrações no
mundo. Todos nós que temos no sangue e, muitas vezes no nome, marcas
estrangeiras, temos obrigação de analisar o tema das migrações, em
princípio, com reconhecimento e solidariedade. O que o Brasil ganha? E o
que perde? A sociedade brasileira trata bem seus nacionais? Orgulha-se
de seus indígenas? Tratar o tema com divisionismo e ressentimento é
lamentável.
Um blog de reflexões sobre temas sociais, políticos e culturais da atualidade. Está aberto para compartilhar idéias.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
A barragem e nós todos
Leio estarrecida que a tragédia da barragem tem a ver com a ganância do
PT! Que louco! Governos que mais criaram unidades de conservação e
respeitaram as terras indígenas foram dessa legenda. Tais críticas são
incapazes de ver que nossa economia de consumo exacerbado requer mais e
mais minérios...E as desigualdades sociais aceleram o consumismo,
enquanto tantos outros carecem do básico. Nesse quadro, Trump, nosso
governo e muitos outros continuam a separar economia e ambiente, o que é
trágico. Reflexo disso: as ameaças a terras indígenas. Terras
indígenas, protegendo florestas, protegem também o futuro. Precisamos
olhar para nosso próprio modo de vida! A agroindústria precisa da
floresta amazônica. Agrotóxicos são perigosos. E nesse aspecto, andamos
na contramão do mundo. De muitas formas contribuímos para depredar nossa
casa comum.
Brasil sem ideais?
Na política dominante no Brasil há ausência absoluta de ideal. O
primeiro ato do novo governo foi negativo: armas! Armar é desistir do
diálogo e da busca de consensos sobre que Brasil queremos. Falar
"Brasil acima de todos" e, sobretudo, em "Deus", requer tratar as
desigualdades. Se é para falar do Mestre de Nazaré, sem demagogia, os
mais vulneráveis desse Brasil deveriam merecer especialíssima atenção
dos líderes. País sem cidadania é uma noção pobre, pura formalidade.
Mas, nós mal sabemos o que significa o
Brasil como uma sociedade. Tememos o risco em cada esquina, a Venezuela e
um comunismo inexistente! Somos ignorantes ao engolir aquela ração com
produtos perto de vencer para escolas públicas, proposta pelo último
prefeito de São Paulo. É o poder público "oficializando" a hierarquia
social. Pior: definindo crianças de segunda classe para as quais se
destinam quase restos, elas que são justamente o futuro... O mesmo
acontece agora com a ideia da universidade para a elite esclarecida. Os
fatores que impedem tantos jovens de realizarem seu potencial e
inteligência truncam a formação de algo que se possa chamar
verdadeiramente de elite. Nossos ricos adoram a Europa, mas lá não há
nossas desigualdades e o respeito mínimo a cada pessoa é infinitamente
maior que entre nós. Basta colocar o pé em uma faixa de pedestre em
Paris, para experimentar o que é ser pedestre! Nosso Brasil, nossos
dirigentes, nós todos abrimos mão de acreditar e sonhar o futuro: nada
de progresso, nada de desenvolvimento sustentável... Em pouco tempo nem
mesmo as garantias das comunidades indígenas estão asseguradas. Assim,
esse "Brasil acima de todos", não tem substância, não implica em
planejamento ou missão. Até a velha ideia de Justiça e de Estado
democrático de Direito perde vitalidade. Entre nós, preferimos falar de
"vitimismo" do que de inclusão! Que horizonte raso! Ainda bem que o mal é
passageiro! Tudo passa. O essencial da vida, e da vida coletiva, está
além. Suas raízes profundas fincam-se nos melhores valores de nossa
civilização: amor, caridade, justiça, liberdade, reconhecimento,
Direito...
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Ideologia não é o mal
Ideologia não é o mal. As sociedades evoluem com o confronto de valores e visões de mundo! O pensamento único imposto sempre trouxe atraso e opressão. Exemplo, o voto das mulheres foi fruto da crítica a ideologias vigentes! Em Roma e Grécia antiga mulheres não votavam pois não iam à guerra! O Mestre de Nazaré questionou nossa lógica humana estreita e lembrou o valor e a dignidade de cada ser humano, criado por Deus. Ele elevou as mulheres, os doentes e os marginalizados. Todos somos dignos, mesmo se nas classificações humanas pareçamos valer pouco. Então, a liberdade de pensamento e de opinião são parte da vida social e e lhe dão dinamismo. Ideologias "nocivas" se combate com ideias e debate no espaço público...
Os valores cristãos de amor e poder como serviço têm mais chance de se expandir em ambientes respeitosos ao próximo, em sua diversidade. Não aceitemos essa conversa sem nexo de que ideologia é mal. Estruturas injustas o são. Ideias, valores, visões de mundo servem para impulsionar a busca da justiça e do bem comum! Buscar o bem comum é tarefa já demasiadamente complicada para se restringir o livre pensamento e a pesquisa! Valorizemos a democracia, a justiça e a solidariedade! Discutamos as ideologias e cresçamos com o dom do conhecimento que recebemos do Criador! Não existe sociedade próspera sem liberdade de pensamento e de conhecimento. A verdade da paz e do amor é o que vai se sobrepor a ideologias redutoras do humano.Não a força e muito menos o silêncio imposto por uma falsa noção de que ideologia é o mal.
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Da Sabedoria da Criação e nossas trevas históricas
Nossa forma de enxergar o mundo e de vive-lo é uma construção social. O mundo que conhecemos não é tudo. Nem é o essencial. De fato, nosso real é cheio de contradições e de negações.
Talvez tardiamente adquiri a convicção de que as escrituras "sagradas" são fonte de conhecimento e, sobretudo, de conhecimento crítico sobre o que existe. Na tradição bíblica, nossa origem é representada totalmente diferente do que construímos historicamente. Somos filhos da Sabedoria, da Luz, do Verbo... como nos ensinou João no Prólogo de seu Evangelho: "No princípio existia a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito. O que estava nela era vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram" (Jo 1, 1,5). Então, no cerne da Criação estavam a vida e a luz. É uma bela representação, que nos assimila ao saber do Criador.
João disse, no mesmo texto, que os seres humanos não conheceram a luz que fez o mundo. Ou seja, perdemos ou esquecemos nossa ligação original com a sabedoria e, por fim, tomamos as trevas como o caminho a seguir, o real. Por vezes as trevas parecem vencer - basta ouvir os noticiários, por exemplo. Mas, o real é justamente o oposto do que aprendemos a viver.
Na perspectiva bíblica, o Cristo nos trouxe novamente a Palavra que está no nosso eu profundo: o amor. Ele a expressou nas parábolas como as do filho pródigo e do bom samaritano, assim como no episódio do apedrejamento da adúltera ou no encontro com a samaritana perto do poço de Jacó. Amor, perdão e acolhimento independentemente das diferenças de classe ou etnia, das posições, do que se tenha feito ou cometido... amor e perdão em primeiro lugar. Essa "fórmula" aberta a todos traz nossa verdade, para além das nossas escuridões. Foi assim que em seu evangelho João se referiu pela primeira vez a Jesus: "E a Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós".
A Palavra encarnada era redentora: "Ela deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberam (...) Porque de sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça". Tornar filhos de Deus a todos, significava reconhecer em todos a mesma origem. O apóstolo Paulo falaria muitas vezes da nulidade das classificações sociais. Em Gálatas, ele veio a dizer que não havia mais romano, grego, judeu, homem ou mulher. Ou seja, as classificações não possuem substância. Expressam as trevas que deixamos ocupar o lugar da luz.
Em 1 Coríntios 6,19, Paulo fez a seguinte pergunta: "Ou vocês não sabem que seu corpo é templo do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de Deus? E que por isso vocês não pertencem a si mesmos?". Essa fala é forte. Ela nos interpela individualmente, chama cada um a cuidar de si como de um bem precioso do qual não somos donos exclusivos Recebemos a vida e o corpo como uma graça a honrar e cuidar. E, por conseguinte, somos chamados a cuidar dos outros, iguais em morada do Espírito. Nunca um outro é nossa propriedade. Nunca objeto de nossa dominação. Pois em última instância seu "dono" é o Criador, Sabedoria e Luz. Essa é a substância que nossas histórias negam. Ao afastar a luz, enxergamos as trevas como o real. E, portanto, respondemos mal aos desafios da vida, às carências e dores, sem buscar inspiração na Palavra daquele Filho do Homem que armou sua tenda entre nós. Isso significaria dedicar nossas inteligências e riquezas a cuidar dos outros e da nossa "casa comum". Saúde, cultura, fruição, conhecimento, oportunidades, partilha... esses são os nortes da realidade.
Certo que construímos as declarações de direitos universais, construímos sistemas legais inspirados por certa noção de que cada ser humano tem algo de sagrado e, portanto, de intocável. De digno. Jesus sempre fazia questão de agir e refletir sobre os menores dentre os menores, um mendigo cego, um leproso, uma mulher com hemorragia há doze anos, uma samaritana casada várias vezes, uma adúltera, um pecador arrependido, as crianças etc. Ninguém está excluído da mesa farta do amor. Não por acaso ele começava o resgate da humanidade caída pelos que estavam mais em baixo, mais sofridos e esquecidos.
É assim, por exemplo, que Maria grávida de Jesus, falaria em seu cântico: "Minha alma exalta o Senhor (...) Ele dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos..." (Lucas 1, 46-51). E em outra passagem surpreendente do Evangelho de Lucas, conforme ouvi em uma liturgia, a apresentação de João Batista é feita assim: " Era o décimo quinto ano do império de Tibério César. Pôncio Pilatos era governador da Judéia. Herodes era tetrarca da Galiléia (...) Anás e Caifás eram sumos sacerdotes. A palavra do Senhor foi então dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto" (Lucas 3, 1-2). Ou seja, passando pelos grandes da história, a palavra de Deus foi a um homem no deserto, que pregaria um batismo de arrependimento, um início de mudança de vida e de valores das pessoas, para receberem a maior dádiva que viria: a Luz salvadora de cada um e de todos.
Nossa lógica em geral é orientada pelas trevas, isto é, pelo que é passageiro e sem raízes. Pois, como entender nossas respostas coletivas às crises? As guerras, externas e internas, que travamos?
Escrito algumas décadas antes dos Evangelhos, um pequeno livro da Bíblia chamado Sabedoria, abre com a seguinte frase: "Amem a justiça, vocês que julgam a terra". E mais adiante, consta a seguinte recomendação: "Não busquem a morte no erro da vida de vocês, nem provoquem a ruína com as obras que praticam, pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a destruição dos seres humanos. Ele tudo criou para que exista. As criaturas do mundo são sadias, e nelas não há veneno de ruína. O mundo dos mortos não reina sobre a terra. Porque a justiça é imortal" (Sb 1, 12-15).
Não foi Deus, então, que criou a morte. Na nossa narrativa bíblica, ele é provedor de vida. Além disso, vemos que a morte não reina. O que permanece, nossa rocha dura, é a justiça. Nós humanos construímos sociedades de risco onde o mais frequente, ainda, é a morte por causas evitáveis. Acreditamos ser essa a realidade, pois sentimos tão claramente sua opressão.
Já a "negação religiosa do mundo" aponta para outra realidade. Ela fala que vida é graça e requer cuidado. Não nos pertence. É como um crédito divino. Na perspectiva bíblica, nossos próximos são todos, notadamente os diferentes, os fracos, os frágeis... A mesa posta e a taça transbordante, tão belamente descritas no Salmo 23, é para todo mundo. Porque narramos assim nossa vida, nossa criação e nosso destino? Quando assim o fazemos, expressamos a luz e a sabedoria que nos habitam.
Um dia pudemos acreditar que caminhávamos para sermos melhores. Porém, continuamos com sentimentos muito primitivos. E aderimos cotidianamente ao mal. Em certo momento de nossa história, talvez ainda na noite dos tempos, separamos duas dimensões: de um lado, nossas capacidades de progredir e de moldar o mundo; de outro lado, nossa tendência ao amor. Soltamos os freios da vontade de poder e dominação.
O mundo dos mortos é fortíssimo! O olho por olho continua, a acumulação para um amanhã que não controlamos move exércitos e sociedades. Mas isso tudo não corresponde ao real. Passará!
Talvez tardiamente adquiri a convicção de que as escrituras "sagradas" são fonte de conhecimento e, sobretudo, de conhecimento crítico sobre o que existe. Na tradição bíblica, nossa origem é representada totalmente diferente do que construímos historicamente. Somos filhos da Sabedoria, da Luz, do Verbo... como nos ensinou João no Prólogo de seu Evangelho: "No princípio existia a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito. O que estava nela era vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram" (Jo 1, 1,5). Então, no cerne da Criação estavam a vida e a luz. É uma bela representação, que nos assimila ao saber do Criador.
João disse, no mesmo texto, que os seres humanos não conheceram a luz que fez o mundo. Ou seja, perdemos ou esquecemos nossa ligação original com a sabedoria e, por fim, tomamos as trevas como o caminho a seguir, o real. Por vezes as trevas parecem vencer - basta ouvir os noticiários, por exemplo. Mas, o real é justamente o oposto do que aprendemos a viver.
Na perspectiva bíblica, o Cristo nos trouxe novamente a Palavra que está no nosso eu profundo: o amor. Ele a expressou nas parábolas como as do filho pródigo e do bom samaritano, assim como no episódio do apedrejamento da adúltera ou no encontro com a samaritana perto do poço de Jacó. Amor, perdão e acolhimento independentemente das diferenças de classe ou etnia, das posições, do que se tenha feito ou cometido... amor e perdão em primeiro lugar. Essa "fórmula" aberta a todos traz nossa verdade, para além das nossas escuridões. Foi assim que em seu evangelho João se referiu pela primeira vez a Jesus: "E a Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós".
A Palavra encarnada era redentora: "Ela deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberam (...) Porque de sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça". Tornar filhos de Deus a todos, significava reconhecer em todos a mesma origem. O apóstolo Paulo falaria muitas vezes da nulidade das classificações sociais. Em Gálatas, ele veio a dizer que não havia mais romano, grego, judeu, homem ou mulher. Ou seja, as classificações não possuem substância. Expressam as trevas que deixamos ocupar o lugar da luz.
Em 1 Coríntios 6,19, Paulo fez a seguinte pergunta: "Ou vocês não sabem que seu corpo é templo do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de Deus? E que por isso vocês não pertencem a si mesmos?". Essa fala é forte. Ela nos interpela individualmente, chama cada um a cuidar de si como de um bem precioso do qual não somos donos exclusivos Recebemos a vida e o corpo como uma graça a honrar e cuidar. E, por conseguinte, somos chamados a cuidar dos outros, iguais em morada do Espírito. Nunca um outro é nossa propriedade. Nunca objeto de nossa dominação. Pois em última instância seu "dono" é o Criador, Sabedoria e Luz. Essa é a substância que nossas histórias negam. Ao afastar a luz, enxergamos as trevas como o real. E, portanto, respondemos mal aos desafios da vida, às carências e dores, sem buscar inspiração na Palavra daquele Filho do Homem que armou sua tenda entre nós. Isso significaria dedicar nossas inteligências e riquezas a cuidar dos outros e da nossa "casa comum". Saúde, cultura, fruição, conhecimento, oportunidades, partilha... esses são os nortes da realidade.
Certo que construímos as declarações de direitos universais, construímos sistemas legais inspirados por certa noção de que cada ser humano tem algo de sagrado e, portanto, de intocável. De digno. Jesus sempre fazia questão de agir e refletir sobre os menores dentre os menores, um mendigo cego, um leproso, uma mulher com hemorragia há doze anos, uma samaritana casada várias vezes, uma adúltera, um pecador arrependido, as crianças etc. Ninguém está excluído da mesa farta do amor. Não por acaso ele começava o resgate da humanidade caída pelos que estavam mais em baixo, mais sofridos e esquecidos.
É assim, por exemplo, que Maria grávida de Jesus, falaria em seu cântico: "Minha alma exalta o Senhor (...) Ele dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos..." (Lucas 1, 46-51). E em outra passagem surpreendente do Evangelho de Lucas, conforme ouvi em uma liturgia, a apresentação de João Batista é feita assim: " Era o décimo quinto ano do império de Tibério César. Pôncio Pilatos era governador da Judéia. Herodes era tetrarca da Galiléia (...) Anás e Caifás eram sumos sacerdotes. A palavra do Senhor foi então dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto" (Lucas 3, 1-2). Ou seja, passando pelos grandes da história, a palavra de Deus foi a um homem no deserto, que pregaria um batismo de arrependimento, um início de mudança de vida e de valores das pessoas, para receberem a maior dádiva que viria: a Luz salvadora de cada um e de todos.
Nossa lógica em geral é orientada pelas trevas, isto é, pelo que é passageiro e sem raízes. Pois, como entender nossas respostas coletivas às crises? As guerras, externas e internas, que travamos?
Escrito algumas décadas antes dos Evangelhos, um pequeno livro da Bíblia chamado Sabedoria, abre com a seguinte frase: "Amem a justiça, vocês que julgam a terra". E mais adiante, consta a seguinte recomendação: "Não busquem a morte no erro da vida de vocês, nem provoquem a ruína com as obras que praticam, pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a destruição dos seres humanos. Ele tudo criou para que exista. As criaturas do mundo são sadias, e nelas não há veneno de ruína. O mundo dos mortos não reina sobre a terra. Porque a justiça é imortal" (Sb 1, 12-15).
Não foi Deus, então, que criou a morte. Na nossa narrativa bíblica, ele é provedor de vida. Além disso, vemos que a morte não reina. O que permanece, nossa rocha dura, é a justiça. Nós humanos construímos sociedades de risco onde o mais frequente, ainda, é a morte por causas evitáveis. Acreditamos ser essa a realidade, pois sentimos tão claramente sua opressão.
Já a "negação religiosa do mundo" aponta para outra realidade. Ela fala que vida é graça e requer cuidado. Não nos pertence. É como um crédito divino. Na perspectiva bíblica, nossos próximos são todos, notadamente os diferentes, os fracos, os frágeis... A mesa posta e a taça transbordante, tão belamente descritas no Salmo 23, é para todo mundo. Porque narramos assim nossa vida, nossa criação e nosso destino? Quando assim o fazemos, expressamos a luz e a sabedoria que nos habitam.
Um dia pudemos acreditar que caminhávamos para sermos melhores. Porém, continuamos com sentimentos muito primitivos. E aderimos cotidianamente ao mal. Em certo momento de nossa história, talvez ainda na noite dos tempos, separamos duas dimensões: de um lado, nossas capacidades de progredir e de moldar o mundo; de outro lado, nossa tendência ao amor. Soltamos os freios da vontade de poder e dominação.
O mundo dos mortos é fortíssimo! O olho por olho continua, a acumulação para um amanhã que não controlamos move exércitos e sociedades. Mas isso tudo não corresponde ao real. Passará!
domingo, 16 de julho de 2017
Negação do real e Palavra divina
Nessa segunda década do século XXI, temos pouco a comemorar. Do Brasil mais a vergonha do quadro social do que qualquer orgulho de nossos avanços. E temos orgulhosos feitos em cultura, arte, tecnologia, ciência, história...
Tememos o desconhecido na esquina, toleramos desigualdade e injustiça, somos violentos no trato, ainda que cordiais e alegres. E reclamamos pouco do que fazemos com os jovens nascidos e vividos em situações de risco... a encher as prisões e inflar os números de delitos. Morte prematura do futuro. Não relacionar nossos medos e dores com a negação cotidiana a crianças e jovens de oportunidades de acesso ao patrimônio social. Negados lhes são uma viagem, um tratamento dentário, uma língua estrangeira, uma biblioteca, uma visita a um museu, um quarto de estudo...
Tudo isso se reflete na trágica composição de nossas casas legislativas, com muitos insensíveis, salvo notáveis exceções.
De outras bandas, também tem mil exemplos que derrubam qualquer narrativa da história como progresso. Vemos o desmonte "à la légère" dos sistemas de proteção social, base do conceito de cidadania. Herança que começou a se institucionalizar em fins do século XIX. Como aceitamos abrir mão do princípio de que cabe ao conjunto da sociedade - representado por Estados garantidores da cidadania - proteger os seus membros? Todos! Assegurar-lhes as condições básicas para participar na construção do todo pelo trabalho, pela vida, pela civilidade, pela solidariedade e pelo amor. Como esse princípio é abandonado, quando a própria própria proteção da vida alimentaria o mercado muito mais do que o princípio da escassez e da concorrência desregulada. E tantos estudos e pesquisas mostram a falácia de que justiça social é pura questão contábil. Redistribuição de renda e redução de desigualdade são questões contábeis e orçamentárias, mas submetidas a valores coletivos.
E o ideal da tecnologia que aliviaria a humanidade da pena de trabalhar e sofrer? Por que desemprego não se combate com redução de jornada para abrigar o maior número? Não tenho expertise para toda a resposta. Mas a resposta é técnica e, sobretudo, política. Envolve escolhas de sociedade. E muitos estudos competentes o provam.
Mesmo quem não suporta Marx admite a tese: nossas forças produtivas avançam incontinenti, sabemos curar doenças e fomes, produzir e usufruir em escalas e maneiras que nenhum "século anterior poderia sonhar". Mas, seguimos velhas conversas. Como consumidores, separamo-nos do cidadão que somos, nas palavras do cientista político Robert Reich, que nos vê como figuras cindidas: até nos preocupamos com o coletivo, mas queremos mesmo é fazer o dinheiro render mais.
Lamento que uma de nossas fontes mais profícuas de conhecimento sobre o mundo e sobre nós mesmos, muitos consideram ultrapassada; no caso de nossa tradição histórica, as escrituras bíblicas. Nelas estão fontes de negação do real fortíssimas. Sobretudo, indicações de que muito de nosso "real" não tem substância, são "nadas" (expressão do teólogo Karl Barth); nadas pelos quais vivemos, morremos e matamos, como se fossem tudo.
Segundo esses textos antigos nossas lógicas são pobres. Por exemplo, na abertura do Evangelho de João está narrada nossa origem humana na sabedoria: "No princípio era a Palavra, e a Palavra era Deus. (...) O que estava nela era vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram. (...) A luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todos os seres humanos. Ela estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não a conheceu". (Jo 1, 1-11) E prossegue então reafirmando nossa igualdade absoluta, pois nos torna todos "filhos". Essa igualdade de origem é descontruída em nossa história. A vinda do Filho reafirma essa sabedoria original da qual emanamos: "E a Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (...) de sua plenitude todos nós recebemos, e graça e mais graça". Mas, a mesma negação de que fala João, reproduzimos. Não vemos a tenda.
Outra negação do real Maria expressa no seu cântico, inspirada pelo Espírito Santo (pela luz, portanto, que nos gerou a todos). Disse: "... Ele agiu com a força de seu braço. Dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos sem nada".
Será que nos deixamos inspirar por essa inspiração de Maria? O que queria ela dizer com essa reflexão sobre a ação do Criador cuja "misericórdia perdura de geração em geração"? (Lucas 1, 46-53). Quem segrega somos nós, quem culpa somos nós, quem discrimina somos nós e quem hierarquiza somos nós.
Mais tarde o Filho, convidando-nos a amar os inimigos, fez uma afirmação já presente nos antigos salmos: Deus não distingue; acolhe! "... amem seus inimigos, façam o bem e emprestem sem esperar nada em troca. Então a recompensa de vocês será grande. E vocês serão filhos do Altíssimo, pois ele é bondoso também para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, como o Pai de vocês é misericordioso" (Lucas, 6, 35-36). Nosso dever, portanto, é a misericórdia, como nos "fabricou" a Palavra original. A exclusão, a hierarquia, não nos cabe. Não nos cabe nem nos gabar, pois Ele é bondoso também com os maus. Ou seja, calma lá! O que nos interpela é nossa condição original de Filhos da sabedoria, da luz. Como impregnar nossa lógica humana dessa lógica dialética? Penso que é preciso meditar profundamente sobre as palavras de João, de que rebemos dessa plenitude, graça e mais graça.
Graça e mais graça é o que temos, o que usufruímos, o mundo, a natureza e nossos pares. Gratidão e reconhecimento do próximo são atitudes mais consoantes com nossas tendências profundas do que o fechamento, o exclusivismo, em suas traduções de racismo, xenofobia, discriminações etc.
Nestes tempos de autoridades desgastadas, importa refletir o significado do que disse Jesus a Pilatos: "Você não teria nenhuma autoridade sobre mim, se ela não lhe tivesse sido dada do alto" (João, 19, 11). E Paulo, anos depois, diria na Carta aos Romanos: "... não existe autoridade que não venha de Deus...". Parece estranho, mas é crítica radical! Ocupar função política no corpo social não é tarefa leve, nem particularista. Advogar-se poder "divino" e exerce-la segundo lógica humana pequena, fere nossa constituição mais profunda.
Então, essas sabedorias estão aí, sempre novas, sempre mobilizadoras, a negar nossas lógicas e convicções sobre o real. Ela aponta para respostas aos nossos problemas que vão sempre no sentido da partilha, da solidariedade e da confiança própria da condição de filhos de um Pai misericordioso - a cada dia suas preocupações. Essa confiança se opõe ao desejo e à prática da acumulação, dos muros, da punição e da classificação. E, assim, libera nossa capacidade maior, a inteligência e a criatividade inspiradas na sabedoria original da luz. Por que narramos nossa origem de tão alto e construímos nossas sociedades de tão baixo?
Segundo esses textos antigos nossas lógicas são pobres. Por exemplo, na abertura do Evangelho de João está narrada nossa origem humana na sabedoria: "No princípio era a Palavra, e a Palavra era Deus. (...) O que estava nela era vida, e a vida era a luz dos seres humanos. Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram. (...) A luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todos os seres humanos. Ela estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não a conheceu". (Jo 1, 1-11) E prossegue então reafirmando nossa igualdade absoluta, pois nos torna todos "filhos". Essa igualdade de origem é descontruída em nossa história. A vinda do Filho reafirma essa sabedoria original da qual emanamos: "E a Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (...) de sua plenitude todos nós recebemos, e graça e mais graça". Mas, a mesma negação de que fala João, reproduzimos. Não vemos a tenda.
Outra negação do real Maria expressa no seu cântico, inspirada pelo Espírito Santo (pela luz, portanto, que nos gerou a todos). Disse: "... Ele agiu com a força de seu braço. Dispersou os arrogantes de coração. Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos sem nada".
Será que nos deixamos inspirar por essa inspiração de Maria? O que queria ela dizer com essa reflexão sobre a ação do Criador cuja "misericórdia perdura de geração em geração"? (Lucas 1, 46-53). Quem segrega somos nós, quem culpa somos nós, quem discrimina somos nós e quem hierarquiza somos nós.
Mais tarde o Filho, convidando-nos a amar os inimigos, fez uma afirmação já presente nos antigos salmos: Deus não distingue; acolhe! "... amem seus inimigos, façam o bem e emprestem sem esperar nada em troca. Então a recompensa de vocês será grande. E vocês serão filhos do Altíssimo, pois ele é bondoso também para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, como o Pai de vocês é misericordioso" (Lucas, 6, 35-36). Nosso dever, portanto, é a misericórdia, como nos "fabricou" a Palavra original. A exclusão, a hierarquia, não nos cabe. Não nos cabe nem nos gabar, pois Ele é bondoso também com os maus. Ou seja, calma lá! O que nos interpela é nossa condição original de Filhos da sabedoria, da luz. Como impregnar nossa lógica humana dessa lógica dialética? Penso que é preciso meditar profundamente sobre as palavras de João, de que rebemos dessa plenitude, graça e mais graça.
Graça e mais graça é o que temos, o que usufruímos, o mundo, a natureza e nossos pares. Gratidão e reconhecimento do próximo são atitudes mais consoantes com nossas tendências profundas do que o fechamento, o exclusivismo, em suas traduções de racismo, xenofobia, discriminações etc.
Nestes tempos de autoridades desgastadas, importa refletir o significado do que disse Jesus a Pilatos: "Você não teria nenhuma autoridade sobre mim, se ela não lhe tivesse sido dada do alto" (João, 19, 11). E Paulo, anos depois, diria na Carta aos Romanos: "... não existe autoridade que não venha de Deus...". Parece estranho, mas é crítica radical! Ocupar função política no corpo social não é tarefa leve, nem particularista. Advogar-se poder "divino" e exerce-la segundo lógica humana pequena, fere nossa constituição mais profunda.
Então, essas sabedorias estão aí, sempre novas, sempre mobilizadoras, a negar nossas lógicas e convicções sobre o real. Ela aponta para respostas aos nossos problemas que vão sempre no sentido da partilha, da solidariedade e da confiança própria da condição de filhos de um Pai misericordioso - a cada dia suas preocupações. Essa confiança se opõe ao desejo e à prática da acumulação, dos muros, da punição e da classificação. E, assim, libera nossa capacidade maior, a inteligência e a criatividade inspiradas na sabedoria original da luz. Por que narramos nossa origem de tão alto e construímos nossas sociedades de tão baixo?
sábado, 22 de abril de 2017
Feminismo não é anti-cristão, é sobre justiça
Feminismo não é ideologia de poder ou de destruição dos papeis sociais de mulheres e homens. É uma crítica a um dos tipos de desigualdade presentes em nossa sociedade: a desigualdade de gênero. É uma perspectiva de igualdade de oportunidades, de escolha e de influência na organização social. Não fosse essa crítica, mulheres não estariam hoje votando, trabalhando e cuidando das suas famílias, cada vez mais com o envolvimento genuíno dos companheiros homens. A valorização da paternidade como cuidado efetivo dos filhos pelos pais e mães, é parte desse projeto de igualdade social. Feminismo é, portanto, uma perspectiva de justiça e equidade. A influência da desigualdade de gênero transparece, por exemplo, no reduzidíssimo numero de mulheres no Congresso Nacional. Encontramos na vida de Jesus exemplos singulares de elevação da mulher, que ele deu muitas vezes, em um contexto histórico marcado pelo patriarcalismo, no qual a mulher era um ser de pouca importância e de poucos direitos. Já Maria em sua história, reverte nossa limitada lógica humana, que preza as hierarquias e o poder, não no sentido de serviço conforme aprendemos na última ceia do nosso Mestre. Para mim, então, feminismo não se opõe aos valores cristãos, ao contrário. Por outro lado, sei que feminismo é plural, com diferentes perspectivas. Mas, em todas as correntes ha um ponto comum: a busca de um mundo justo! E no qual os cuidados sejam valorizados e função de todos os humanos, independentemente do sexo.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
A centralidade das margens
Sábado, na calçada perto do meu prédio vi um casal sentado à porta de uma loja já fechada. Pareciam moradores de rua. Na pouca luz noturna, eram vultos. De certo modo, aquela presença apagada num sábado à noite estava lá dizendo algumas coisas sobre nós, de como vivemos juntos na mesma cidade e tão distantes. Ou seja, no centro de nossa vida comum tem algo que não bate bem.
Há um princípio do qual não conhecemos na prática todas as implicações. É o princípio da centralidade das margens, ou seja,o que é pequeno, marginal e fora da cena principal é importante. A margem, de fato, fala do principal de nossa vida em sociedade, que é uma vida pobre e mesquinha, pois valoriza o exclusivismo e os sinais de sucesso e poder. Então, para manter essa construção social não se olha, ou se olha pouco para as margens, as zonas sombrias para onde se empurra os derrotados, os incompetentes, os sem méritos, os mal nascidos e os que diferem do padrão. Não é a toa tanto medo e tanto risco. E nesse afã pela ascensão na escala humana, achamos plausível cortar direitos que oferecem alguma proteção aos vulneráveis, já que importa manter a máquina grande funcionando e quem for bom que vença. Que ordem é essa?
Acho que toda a caminhada terrestre do Mestre de Nazaré expressa o princípio da centralidade das margens. Nele vemos o Criador atento aos mais pequenos e aos marginais. Para Ele nenhuma vida era irrelevante. Nenhuma merecia ser sacrificada por projetos coletivos. Se todos contribuíam para o corpo social, portanto, todos dependiam uns dos outros. Leis nunca podiam se sobrepor à vida, daí as curas que fazia aos sábados, a intimidade com pecadores e impuros e o desafio que desconcertou os acusadores da adúltera, que não conseguiram jogar a primeira pedra.
A vida vinha sempre em primeiro lugar. As imagens do pastor que se preocupa com cada ovelha, os salmos que falam de um Deus que sabe o número de fios de cabelo de cada um de nós, ou que conhece a palavra que queremos dizer antes de ela chegar na boca... Quantas pessoas terão lido essas passagens e experimentado no seu íntimo o ser reconhecido e amado? A festa do pai comemorando o retorno do filho é uma figuração precisa dessa visão de mundo que fez a síntese mais perfeita entre o individual e o coletivo, entre a pessoa, a sociedade e a história.
Também é assim a narrativa do encontro de Jesus com a mulher samaritana à beira de um poço onde ela havia ido buscar água. Além de mulher, com a qual um judeu adulto não devia falar, ela era de uma etnia considerada impura e, ainda, tinha tido vários maridos. E, no entanto, foi ela a primeira pessoa a quem Ele contou ser o Messias. E aprendeu que esse Messias trazia uma água viva, capaz de saciar as sedes humanas para sempre. E, também, que o que importava de agora em diante, não era mais o culto prestado a Deus em templos especiais e nem a oferta de sacrifícios, mas o culto em espírito, ou seja, na vida cotidiana, uma espiritualidade viva. Seu alimento era essa Palavra que mudava radicalmente nossos valores e nos ensinava a olhar para o alto e para o lado com um novo olhar e um novo coração.
Em tudo isso estava presente a mensagem maior, a doação do Pai aos filhos. A partir dela não éramos mais dominantes e dominados, gregos ou romanos, judeus ou pagãos, homens ou mulheres... O poder maior não era o dos reis e dos impérios, mas o do serviço e da inclusão de todos no amor do Pai. Por isso Jesus disse a frase que ecoaria longe: meu reino não é deste mundo. Os reinos deste mundo não têm substância.
Que legado é esse que alimenta nossa memória coletiva e que ainda celebramos, passados mais de dois milênios? E, ao mesmo tempo, não compreendemos, pois a lógica é tão estranha aos nossos apegos mundanos! Aponta uma perfeição que preferimos pensar ser inalcançável. E então fica aquele abismo entre a profundidade da Palavra e o que vai na nossa prática. E muitas vezes praticamos uma fé intimista, sem efeitos solidários, na qual muitas vezes eu mesma me incluo. Assim, toleramos uma sociedade com tantas pessoas à margem. A vida plena é para todos, e não por nossos méritos, mas pelo amor do Criador, que aponta sempre para nosso potencial e nossa força.
Acho que toda a caminhada terrestre do Mestre de Nazaré expressa o princípio da centralidade das margens. Nele vemos o Criador atento aos mais pequenos e aos marginais. Para Ele nenhuma vida era irrelevante. Nenhuma merecia ser sacrificada por projetos coletivos. Se todos contribuíam para o corpo social, portanto, todos dependiam uns dos outros. Leis nunca podiam se sobrepor à vida, daí as curas que fazia aos sábados, a intimidade com pecadores e impuros e o desafio que desconcertou os acusadores da adúltera, que não conseguiram jogar a primeira pedra.
A vida vinha sempre em primeiro lugar. As imagens do pastor que se preocupa com cada ovelha, os salmos que falam de um Deus que sabe o número de fios de cabelo de cada um de nós, ou que conhece a palavra que queremos dizer antes de ela chegar na boca... Quantas pessoas terão lido essas passagens e experimentado no seu íntimo o ser reconhecido e amado? A festa do pai comemorando o retorno do filho é uma figuração precisa dessa visão de mundo que fez a síntese mais perfeita entre o individual e o coletivo, entre a pessoa, a sociedade e a história.
Também é assim a narrativa do encontro de Jesus com a mulher samaritana à beira de um poço onde ela havia ido buscar água. Além de mulher, com a qual um judeu adulto não devia falar, ela era de uma etnia considerada impura e, ainda, tinha tido vários maridos. E, no entanto, foi ela a primeira pessoa a quem Ele contou ser o Messias. E aprendeu que esse Messias trazia uma água viva, capaz de saciar as sedes humanas para sempre. E, também, que o que importava de agora em diante, não era mais o culto prestado a Deus em templos especiais e nem a oferta de sacrifícios, mas o culto em espírito, ou seja, na vida cotidiana, uma espiritualidade viva. Seu alimento era essa Palavra que mudava radicalmente nossos valores e nos ensinava a olhar para o alto e para o lado com um novo olhar e um novo coração.
Em tudo isso estava presente a mensagem maior, a doação do Pai aos filhos. A partir dela não éramos mais dominantes e dominados, gregos ou romanos, judeus ou pagãos, homens ou mulheres... O poder maior não era o dos reis e dos impérios, mas o do serviço e da inclusão de todos no amor do Pai. Por isso Jesus disse a frase que ecoaria longe: meu reino não é deste mundo. Os reinos deste mundo não têm substância.
Que legado é esse que alimenta nossa memória coletiva e que ainda celebramos, passados mais de dois milênios? E, ao mesmo tempo, não compreendemos, pois a lógica é tão estranha aos nossos apegos mundanos! Aponta uma perfeição que preferimos pensar ser inalcançável. E então fica aquele abismo entre a profundidade da Palavra e o que vai na nossa prática. E muitas vezes praticamos uma fé intimista, sem efeitos solidários, na qual muitas vezes eu mesma me incluo. Assim, toleramos uma sociedade com tantas pessoas à margem. A vida plena é para todos, e não por nossos méritos, mas pelo amor do Criador, que aponta sempre para nosso potencial e nossa força.
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