sábado, 26 de fevereiro de 2011

LITERATURA E PRECONCEITOS

"Na casa, ainda existem duas pessoas - tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo". Cito esse trecho do famoso livro de Monteiro Lobato, Reinações de Narizinho, a propósito de um tema que fez furor semana passada na Internet. Trata-se da Carta Aberta da escritora Ana Maria Gonçalves ao Ziraldo, vista em http://racismoambiental.net.br/2011/02/carta-aberta-ao-ziraldo-por-ana-maria-goncalves/. A carta reage a um desenho feito por Ziraldo para estampar as camisas de um bloco de carnaval carioca, que retrata Monteiro Lobato abraçado a uma mulata. 

O desenho desencadeou uma grande  polêmica  e motivou a carta aberta. Sua autora cita uma série de documentos escritos por Lobato que manifestam não apenas um racismo "de época", da primeira metade do século XX; os documentos mostram quase um racismo militante. Daí a grande decepção que a autora manifesta com Ziraldo. Sua carta suscitou uma enorme reação nas redes sociais, com opiniões tanto favoráveis à crítica da autora, quanto contrárias à "ditadura do politicamente correto" que não poderia estar presente na literatura, censurando-a. Muitos pensam, com razão, que o lugar de Monteiro Lobato no panteão dos escritores brasileiros é intocável, assim como a qualidade de sua escrita  que embalou gerações de crianças. 

Não entro no mérito da literatura de Lobato, pois não é esse o ponto. Minha filha leu quase todos os livros dele e tem uma gratíssima lembrança de suas páginas. Contudo, acho muito positivo que esses questionamentos sobre a visão de sociedade de Lobato venham à tona. Seus livros são adotados nas escolas brasileiras e, certamente, estão a exigir uma malabarismo dos professores para lidar com frases como a do início de "Reinações...", de modo a evitar não só a reprodução de estereótipos, como também cuidar para que nenhuma criança experimente qualquer sentimento de inferioridade no espaço escolar, espaço "oficial" de formação cultural e pessoal. 

É certo que a frase que destaquei trata de relações sociais históricas, costumes em um passado recente no Brasil - a negra de estimação. Refere-se à trabalhadora doméstica, mulher e negra via de regra, que permanecia décadas no seio de casas de famílias de classe média e alta, cuidando da casa e das crianças dos patrões. Eram também chamadas crias, meninas que iam do interior para as cidades na esperança do acesso ao estudo. Na região amazônica, frequentemente era uma menina de origem indígena. Misto de membro da família e empregada, essa posição era herança da escravidão. Muito mudou nesse campo, os empregados domésticos conquistaram direitos trabalhistas e sociais, ainda que bem mais tarde do que a maioria das profissões. Mas, quanto ao desvalor associado a posições sociais ou a cor da pele, a mudança é mais complicada. Dentre outras razões, porque tocam em visões de mundo e padrões muito enraizados. 

Os argumentos da carta aberta tocam num ponto essencial do racismo “enrustido” de nossa formação societária. A possibilidade de tomar certas idéias comuns sobre as cores dos brasileiros de modo inofensivo, como gostariam aqueles que reagem  simplesmente ao "politicamente correto", cai por terra quando se tem em mente o que a carta destaca, que é o sentimento de uma criança em sala de aula ao ver retratada sua condição social com menos respeito, por menor que pareça. O respeito igual é um direito básico. Sobretudo na infância. Ele é apenas um ponto de partida para se poder então se formar pessoas aptas a enfrentar as  competições e disputas pela vida afora. Portanto, na escola não há como transigir quanto a esse direito. 

As lutas do dia a dia, as dificuldades econômicas já são tantas que não precisa trazer para o interior da escola outras discriminações, como as raciais. Escolas equipadas, conectadas, com professores de alta qualificação, coexistem com escolas sem infraestrutura, improváveis mesmo de se deixar existirem hoje. Buscar recuperar os danos que esses handicaps provocam na educação das crianças é tarefa suficientemente complicada e urgente. Portanto, a importância de as instituições  não abrirem mão do princípio do respeito e dignidade iguais. Não se trata, óbvio, de proibir determinados livros, mas de cuidar muito na escolha dos livros de leitura obrigatória na escola, conforme as faixas etárias, como de certo modo vem sendo feito pelo MEC. Além das quotas, das bolsas e de  outras medidas que consigam efetuar o  delicado balanço entre respeito à diferença e direito à igualdade social.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

FILANTROPIA DE POLÍTICOS: UMA SUGESTÃO

A recente decisão de aumento dos subsídios dos deputados estaduais no Pará, elevando de R$ 12.000 para cerca de R$ 20.000 mensais, assim como ocorreu antes no âmbito do Congresso, suscitou uma série de reportagens mostrando insatisfações da população em diferentes pontos no Estado. Um dos reclamos mais comuns é o fato de o reajuste ter se dado em proporção superior ao reajuste dos preços e, particularmente, ao reajuste do salário mínimo. Como a maioria dos paraenses sofre para fechar as contas do mês, a medida logicamente dá vazão a uma série de juízos que ameaçam a reputação da categoria política. A irritante frase volta a martelar: político não presta, é tudo a mesma coisa! Inclusive, corre na internet a campanha de um professor que, ao comparar sua renda aos custos de um parlamentar brasileiro propõe a infame equação: 1 parlamentar = 344 professores de escola pública. Tudo isso é uma generalização abusiva.

Diante de tal estado de espírito coletivo, e achando que há entre os deputados da 17a legislatura, além do representante do PSOL, outros que partilham a idéia de que um reajuste seguindo o IPC seria aceitável, precisamente porque a condição da maioria do eleitorado requer um ato de solidariedade, pode-se pensar em alternativas de uso dos rendimentos ampliados. Qualquer alternativa deve respeitar o merecido reajuste. Tratando-se de subsídio, portanto, exclusivamente pessoal, tudo o que se pode sugerir é a título de colaboração voluntária. Por isso, o exercício aqui proposto é de aplicações no campo da filantropia. Mas, uma filantropia coletiva, não individual, o que é sempre delicado, pois dificilmente se traduz em votos. Em contrapartida, contribuiria para a reputação da categoria como um todo. E em nada afetaria a dedicação dos parlamentares a suas funções principais no exercício dos mandatos. Então, vamos lá. 

Supondo-se que vinte e cinco deputados concordassem em guardar metade do aumento, ou seja, R$ 4.000, destinando então os outros R$ 4.000 para o experimento filantrópico, ter-se-ia cerca de R$100.000 por mês, R$ 1.200.000 por ano. Não é muito para necessidades sociais, mas conforme o tipo de aplicação a ser dado, o valor simbólico seria alto. Se a idéia é palatável, mil e um tipos de aplicação poderiam ser propostos: pesquisas aplicadas, bolsas de estudo e pesquisa, eventos...

Uma idéia que me vem logo à mente refere-se a contribuições na área de saúde. Quando se acompanha a rotina de pacientes à procura de tratamento público para câncer e a infraestrutura precaríssima no Estado para tais males, percebe-se um pouco a dificuldade. Uma idéia seria formar um fundo para despesas de locomoção de pacientes que têm de ir com muita frequência a um hospital receber o tratamento; para quem ganha pouco e a doença impede usar ônibus ou van, gastar com taxis ou contar com a boa vontade de parentes ou conhecidos aumenta muito o sofrimento com a própria doença. Esse tipo de aplicação seria mais eficaz se destinada a municípios que concentram hospitais ou centros de saúde que ministram tais tratamentos, para onde convergem as populações dos municípios do entorno. 

Por outro lado, sabe-se que o mais das vezes cabe a mulheres cuidar dos parentes doentes, acompanhá-los aos tratamentos, além dos cuidados cotidianos com as crianças. Essa divisão tradicional frequentemente reduz sua possibilidade de trabalho remunerado, ou de acesso a um trabalho de melhor remuneração. Assim, um fundo para amenizar os gastos com os cuidados são sempre bem vindos, por exemplo, auxílios para manter crianças em creches e pré-escolas e para manter as crianças depois das aulas, como serviços culturais e educativos (cinema, teatro, esporte, bibliotecas, reforço escolar...), nesses casos em parceria com organizações locais. 

Na verdade, o verdadeiro motivo desta postagem, não é o aumento dos ganhos. A atividade parlamentar requer muitos custos, que não são só monetários. São também pessoais, emocionais, desgates físicos... A dedicação ao labor é necessariamente muito grande. Manter-se preparado, atualizado, antenado, nada fácil. Como muitas outras profissões, o trabalho de um político não acaba quando o relógio de ponto marca a hora. E os custos de uma eleição são cada vez maiores. 

O que verdadeiramente motiva esta sugestão de experimento, é a lembrança de que os debates nas instâncias políticas parecem distantes do cotidiano das pessoas comuns no Estado, mal tratadas, mal trajadas, mal informadas. Enfrentam desde paradas de ônibus sem cobertura, até a negação de informação básica sobre direitos e o acesso a uma obturação de dentes, ou a uma mamografia. A sensibilidade a tais realidades, que desperdiçam vidas, parece distante.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

BELÉM, CIDADE CRIATIVA?

Faço esta pergunta a propósito de um conceito relativamente novo por aqui: cidade criativa. Ele contém idéias muito instigantes. Não se refere a uma característica natural de uma cidade, de um dom ou uma qualidade que determinadas cidades têm e outras não. Ao contrário, refere-se a uma conquista, que resulta de intervenções calculadas e de alianças entre os atores sociais da cidade. 

Toda cidade tem potencial criativo, pois em toda população há vontade de criar, há criadores e inovadores e esse potencial depende de condições para florescer. E o espaço urbano é, por excelência, espaço de encontros, de concentração de pessoas com costumes, visões de mundo e culturas. Então, um campo fértil para inovações. É uma forma de pensar a cidade como um fato social. No dia a dia, vivendo as mazelas da cidade, o trânsito, a violência, o desemprego, a degradação ambiental, tendemos a encará-la como uma supra-realidade, fora do nosso alcance.

Os proponentes desse conceito apontam como característica da cidade criativa, a formulação de objetivos e estratégias para a gestão do território da cidade, envolvendo os seus atores - os habitantes, suas associações, empresas e  governos. Portanto, trata-se de objetivos e metas que não sejam simplesmente "conhecidos" da população, como por exemplo, obras públicas que o governo dá a conhecer aos moradores. 

Uma dimensão notável do conceito é a idéia de tornar a criatividade um recurso de valor econômico. E uma grande  fonte de estímulo à criatividade está na identidade cultural, ou identidades culturais de suas populações. Essa idéia aponta para a necessidade de conhecer, valorizar e estimular as pessoas e os grupos que compõem a vida da cidade, partindo do que os identifica. Não necessariamente essa identidade pré-existe  ou é claramente percebida democraticamente. Há as culturas valorizadas e as não valorizadas, a cultura de elite e a das massas, os bairros centrais e os periféricos,  a arquitetura eleita como "patrimônio" e a que não entra nessa categoria. Há, também, leituras consagradas da história e da cultura local, de seus grandes personagens, que servem a determinados grupos e invizibilizam outros grupos e suas práticas. De todo modo, o conceito realça a capacidade de superar os bloqueios, os guetos, e de encontrar pontos de convergência de objetivos sem sufocar a diversidade social. Tarefa de fôlego em contextos de grande desigualdade! A idéia é de que a identidade pode ser descoberta, redescoberta ou, então, produzida, por exemplo, a partir de estudos sobre a história local, ou a partir da promoção de certos eventos (festas, congressos, manifestações culturais... ), que podem inclusive ser restritos a determinados segmentos. Iniciativas especiais podem fazer com que a população em conjunto vá se apropriando dessas práticas e elas vão passando a fazer parte da identidade do lugar. A respeito da busca de um patrimônio cultural comum, vem-me a mente o filme Narradores de Javé, que focaliza os moradores de uma região a ser inundada por uma barragem e que precisavam encontrar evidências de que o território a ser inundado era seu patrimônio histórico e cultural. 

A constituição de uma cidade criativa parte da cultura, ou das culturas locais, do patrimônio material e imaterial de suas populações, procurando associar esse patrimônio à economia, de maneira a dinamizar sua base econômica.

Segundo a especialista no tema, Ana Carla Fonseca Reis, em texto disponível na internet, a cidade criativa "transforma sua estrutura socioeconômica a partir da criatividade dos habitantes". A empresa, para ser bem sucedida, requer sinergias através de práticas colaborativas entre os atores da cidade. Nas palavras da autora:

A criatividade impulsiona a busca de novos arranjos de governança entre público, privado e sociedade civil; de formas alternativas de financiamento (mais voltadas ao capital de conhecimento do que às garantias físicas); de inovações na gestão da cidade; de valorização da criatividade; e de busca de modelos colaborativos, nos quais todos ganham (ao invés de competitivos, nos quais um ganha no curto prazo e todos perdem).

A autora indica uma série de experiências tidas como sucesso, dentre as quais Barcelona e Bilbao, na Espanha. Neste último, caso tratava-se de uma cidade  que se constituíra em torno de um porto e da atividade de mineração. Com o recuo dessas funções pós 1980, a economia  estagnou. Mas, ela ressalta que a forma de sair da crise é que foi inusitada. Teve a ver com as redes sociais, ou redes sócio-políticas - conceito aplicado pelo sociólogo brasileiro José Ricardo Ramalho. Essa história merece atenção:

Com o objetivo básico de encontrar uma estratégia que lhe granjeasse empregos, impostos, bem-estar social e a reposicionasse no mundo, a recuperação da cidade foi objeto de uma parceria entre agentes públicos e privados, que desenhou oito eixos estratégicos. Entre eles, vários ligados a infraestrutura (metrô, aeroporto), mas todos simbolizados por uma face visível: o Museu Guggenheim. Hoje, muitas cidades miram-se no Guggenheim como produto, esquecendo de analisar o processo que levou à sua construção e que têm no museu apenas a ponta de um iceberg.

Mais perto de nós, Medellín, na Colômbia, classificada cidade mais violenta do mundo em 1991, mudou seu perfil. A formação de uma ampla rede social e a definição de estratégias claras para orientar os investimentos no longo prazo, com grande cuidado com as zonas mais vulneráveis, pesaram no sucesso.

O processo de transformação teve início em um movimento cívico, independente e amplo, que aglutinou do meio acadêmico às empresas privadas, das associações comunitárias às ONGs mais diversas. Seu foco sempre recaiu sobre o investimento em dois setores: educação pública e cultura e teve claramente o apoio do governo municipal, muito criticado por algumas vozes que viam nesse investimento um desvio do premente combate ao crime. (...) Como armas de combate a cidade optou porém por livros, urbanismo social, iniciativas de fomento à criação cultural, fortalecimento à participação cidadã, recuperação da autoestima. (...) A face mais visível desse processo (e sempre há ao menos uma), porém, são as renomadas bibliotecas-parque, equipamentos culturais de ponta, tanto como conceito, quanto como projetos arquitetônicos, construídos nos locais socialmente mais frágeis da cidade. Com vasta programação educativa e cultural, são espaços públicos dos quais a comunidade se apropria, nos quais se desenvolve, se fortalece e se reconhece. (Ana Carla Fonseca Reis)

O conceito não se aplica hoje a Belém. Não se tem definição de objetivos e estratégias de intervenção urbana pelo poder público,  nem estímulo à criatividade e à participação. Um dos leitores da última edição do Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, pergunta o que se sabe do Portal da Amazônia. Tem-se visto na TV insatisfação de moradores  deslocados. O que se sabe dos rumos da especulação imobiliária, das vistas para os rios, para que servem? Como se articulam certas obras  de infraestrutura com intervenções complementares a fim de que as obras tragam benefícios sociais sólidos? Como, por exemplo, os monumentos históricos da Cidade Velha se articulam com o conhecimento da história daqueles espaços? Qual o vínculo  e identidade dos moradores com aqueles edifícios e ruas? Que eventos científicos, artísticos podem ser fomentados sobre as relações entre Belém e suas águas? Tem muita criatividade em Belém, artística e cultural sobretudo.

Os exemplos da autora sobre cidades criativas, dos quais selecionei dois, tratam de dimensões que valem mais do que dinheiro. São, principalmente, ativos sociais: planejamento, formação de redes colaborativas, além de foco nas condições que favoreçam a criatividade da população. Planejar significa combinar as ações e fixar metas de mais longo prazo; aquilo que sempre está nos discursos de eleição. Acho que o conceito é útil pois convida a buscar soluções. Não há fórmula. Do caso de Medellín, ressalta o cuidado com as populações mais vulneráveis, portanto, necessitadas de atenção especial para assumirem seu inevitável protagonismo na transformação da cidade para melhor. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DO CAIRO, LIÇÕES DE POLÍTICA E CULTURA

Enquanto prostestam contra uma ditadura que até bem pouco não aparecia assim a quem via de fora, pois era um governo "amigo" dos "ocidentais", os jovens egípcios estão reensinando algumas coisas sobre política e cultura.

Em primeiro lugar, uma lição muitas vezes repetida nas relações entre países. É a plasticidade do conceito de democracia e das instituições encarregadas de defendê-la. A lição é afirmada pela postura embaraçosa de governos de outros países em apoiar o clamor das ruas no Cairo e, ao mesmo tempo, assegurar a estabilidade da transição. Como dizem os analistas, do ponto de vista dos interesses americanos, europeus e israelenses, é preciso mudar sem mudar. Por conta dos protestos de hoje, o grande público toma consciência dos investimentos militares que têm sido feitos por anos a fio no Egito pelos EUA e de como o país tem a mão firme no bloqueio à Faixa de Gaza, sendo então ator fundamental no conflito de Israel com a Palestina. Nas relações internacionais que favorecem governos não só corruptos e autoritários, mas violentos, soa mal o emprego dos termos democracia e direitos humanos. As modernas declarações de direitos ficam pálidas quando episódios assim trazem à tona o que se faz em seu nome.

Em segundo lugar, os manifestantes iluminam o quanto de artificialidade há nas supostas barreiras entre culturas diferentes. Está claro que o argumento do mal menor de se manter um governo laico para evitar a ascensão do integrismo religioso não se sustenta no caso. Os jovens insatisfeitos no Cairo têm muito mais em comum com jovens desempregados e que se vêem sem perspectiva em muitos outros países, do que divergências culturais. Anseios de liberdade de escolha, liberdade política, justiça, auto-estima, emprego, oportunidades de realização de projetos pessoais e profissionais, um estado a serviço dos cidadãos... é isso que basicamente os move. O atendimento a esses anseios não requer negação de valores culturais. Requer medidas políticas e econômicas.

A lição de que há anseios universais que se exprimem naqueles protestos é muito evidente.  Portanto, há mais fatores de promoção de diálogo intercultural do que obstáculos. Mais uma vez se observa como diferenças culturais e religiosas podem ser manipuladas, exacerbadas, gerando preconceitos e intolerância, porque há interesses não declarados que precisam ser assegurados, sobretudo quando estão em jogo bens econômicos estratégicos.

O problema das diferenças culturais não se resume a manipulações, por certo. Porém, não se pode aceitar levemente a idéia de que tradições e culturas diferentes sejam fechadas a diálogo. E, portanto, tome repressão para evitar o pior, o terrorismo de base religiosa, usado como justificativa para fechar os olhos a barbáries locais. Não seríamos o que somos hoje, em nenhum lugar, se séculos e séculos de intercâmbios e de trocas culturais não nos tivessem precedido. Muito da "natureza" que nos cerca é fruto de trocas passadas. A esse respeito, vale a leitura do livro de Lévi-Strauss, Raça e História.

Quando sabemos pela imprensa que as forças integristas não lideram os movimentos, percebemos então mais essa lição que vem do Egito:  são vazios muitos discursos anti-imigração em países ricos que apelam para as diferenças culturais para justificar as dificuldades de integração; inclusive, as reclamações formuladas por governos nesses países de que os imigrantes trazem valores incompatíveis com os "valores nacionais". As bases para o diálogo é que são negadas, antes de as diferenças eclodirem em conflitos étnicos.

Quando eu estudava na França, durante a guerra contra o Iraque do primeiro governo Bush, ouvi de uma colega argelina, doutoranda em geologia, que ela sentia naquele momento uma vontade de usar o véu islâmico, que normalmente não usava, expressando assim um sentimento que misturava humilhação e desejo de afirmar o valor de sua cultura, motivada por aquela intervenção americana sobre um "país árabe", vista como ilegítima. Anos depois, na Austrália, minha filha adolescente teve como amiga na escola uma jovem afegã, de uma família muçulmana que aparentemente era seguidora rígida dos preceitos religiosos e que acabavam de obter o estatuto de refugiados no país. Pelas conversas que mantinham na escola, no MSN, vi como partilhavam desejos, preocupações, dúvidas comuns à idade.

Por tudo isso, são valiosas as lições que vêm do Cairo.

http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/02/764083-confrontos+deixam+3+mortos+e+mais+de+600+feridos+no+cairo+diz+governo.html

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ORGANIZAÇÕES INFLEXÍVEIS

À notícia impressionante da queda de um prédio em Belém, ontem seguiu-se uma grande tristeza, diante das pessoas que morreram, se feriram, desapareceram. E as que perderam bens e empregos.

Dá uma tristeza, também, o fato em si do desabamento, a ruína de uma obra dessas, antes de tudo um trabalho humano coletivo. De muitas mãos.

Particularmente, não gosto de prédios residenciais muito altos. Mas eles são, sempre, um prodígio de técnica, testemunham a capacidade humana de superar limites ambientais, para o bem e para o mal. A engenharia é um grande testemunho. Pode-se, com razão, questionar sobre a qualidade da participação dos muitos atores que intervêm nesse esforço coletivo, sobre a divisão entre poder de decisão e execução, entre saber e fazer. De qualquer modo, isso não invalida o caráter de produção coletiva que uma obra desse porte representa. As ferragens retorcidas e os pedaços de concreto amontoados também estão dolorosamente a dizer da falha do trabalho humano, da súbita inutilidade de tantas horas de empenho, de aplicação, de cálculos, de decisões, de gestos, transpostos para o corpo da obra.

Muitas perguntas se levantam, é claro, sobre os erros, as razões, as culpas, os responsáveis, as indenizações etc. Acho que vale lembrar, também, um tipo de pergunta que não é nova, que várias pessoas se fazem: por que tão altos os prédios em Belém? são realmente necessários? há premência de espaço? Imagino que perguntas semelhantes foram feitas quando da construção do primeiro grande edifício em Belém, o Manoel Pinto da Silva, inovador em todos os sentidos em sua época.

Mas hoje, com a quantidade de prédios cada vez mais altos que se constroem na cidade, que deixam para trás os vinte andares que costumavam ser o limite das construções até os anos de 1990, outros questionamentos aparecem: quais os princípios que orientam as decisões sobre a localização dos prédios altos no espaço da cidade? respeitam-se critérios ambientais e culturais? como se equilibram os interesses e as demandas de mercado com esses critérios? Em uma economia capitalista liberal, de respeito absoluto à propriedade privada, a decisão do que fazer em um terreno cabe ao seu proprietário, como bem se sabe. Mas, em se tratando de obras de grande envergadura, sabe-se também que os impactos - as "externalidades" na linguagem econômica - vão muito além dos limites da propriedade.

Assim, pode-se também perguntar que categorias de atores sociais decidem, ou pelo menos são ouvidos, quanto a critérios de localização das obras. Aparentemente, apenas os agentes econômicos, as empresas detentoras dos imóveis, além dos órgãos públicos e agências reguladoras. E, aparentemente, o poder destas últimas é menor. Fatores menos ponderáveis como a incidência da luz solar na rua e nas casas vizinhas, o direito à paisagem, a circulação de ar, a memória coletiva da rua ou do bairro não contam, ou contam muito pouco. São as regras de nosso jogo coletivo de produção da cidade, movida a mercado liberalizado, a oportunidades de ganho e de acesso à boa moradia a quem pode pagar. 

Muitas vozes há tempos vêm reclamando o respeito a um plano diretor na Região Metropolitana de Belém, o zoneamento e, ademais, que a cidade disponha de equipamentos compatíveis com o volume da ocupação e com o tamanho das construções e seus impactos, na forma de sistema de esgotos, redes de drenagem, recolhimento de lixo, trânsito, combate a incêndios, dentre outros.

A julgar pelos reclamos daqueles diretamente envolvidos e implicados, como os trabalhadores da construção por meio de seu sindicato, além dos moradores vizinhos, havia evidências de problemas na construção. Mas, por razões que os estudos vão indicar, não foram levados em conta.

Esses elementos configuram uma estrutura de comunicação fechada, pouco permeável, entre a obra e o sistema no qual se insere. E o que é uma obra de construção civil? Uma grande organização, mas que não funciona como "sistema de atores", conceito este formulado por sociólogos das organizações. Feed-backs não são incorporados no estilo de gestão vigente. É possível, também, que tendam a ser minimizados devido ao peso dos compromissos e encargos financeiros envolvidos no empreendimento. Uma vez em movimento, difícil fica parar, rever, retroceder.

Apesar da brutal diferença em volume e impacto social e ambiental, acho que a rigidez que acompanha o processo de expansão imobiliária nas áreas nobres de Belém é de mesma natureza da rigidez que acompanha o empreendimento hidrelétrico de Belo Monte, no Xingu. Em Belo Monte, as manifestações de insatisfação, as abordagens diferenciadas que apontam problemas, são levadas em conta apenas na medida em que há pressão social. Já sobre o uso e a apropriação dos espaços urbanos, a pressão é menor. É por isso que chamei esta postagem de organizações inflexíveis. Agem como se detentoras exclusivas, e legítimas, da razão técnica que dispensa outras considerações.

A pergunta espontânea que muitos fazem quanto ao por que da altura crescente dos prédios em Belém suscita uma resposta imediata: há demanda, há mercado a atender. Mas há também uma resposta que remete ao padrão de sociedade que acordamos construir e manter, que é muito desigual. Não há como construir edificações mais baixas ao longo de todo o espaço da cidade, pois não há poder de compra democraticamente distribuído pela população da cidade. Assim, o poder de compra se concentra verticalmente e se dilui horizontalmente. Não se misturam as pessoas que se encontram nos diferentes estratos sociais. Muito menos, se possível, suas moradias. Mas, aqui, já se está muito longe do prédio que ruiu.

Um prédio residencial é, também, uma fábrica de sonhos. Investir em uma casa é um sonho, realizá-la tem efeitos psicológicos que se estendem por toda a vida, sentimento de realização, de cumprimento de objetivos, segurança para os filhos se for o caso, para si... Esses sonhos desabaram junto para muita gente. Tomara que possam refazê-los logo. E que os que perderam entes queridos encontrem forças para superar a dor.

A cidade está triste.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DEPOIS DA CHUVA

Ninguém por certo fica indiferente diante dos sofrimentos trazidos pela atual estação de chuvas, sobretudo na região serrana do Rio de Janeiro, nas primeiras semanas do ano, amplamente mostrados na TV. Na ocasião, além das costumeiras promessas de ação, muitas análises e propostas importantes tem sido feitas. Como de praxe, as justas críticas ao que se fez e deixou de fazer, constata-se aqui e ali desleixo, indícios de corrupção que atrasaram a adoção de técnicas que teriam minimizado as perdas, a exemplo de sistemas de alarme, ou  treinamentos da população. Vem a público que, por entraves burocráticos, determinado aparelho de monitoramento que havia sido comprado não funcionava na hora H. Ganham novo fôlego propostas de reforma urbana e  as lembranças sobre o quanto o inchaço das cidades deve à falta de reforma agrária. Pela enésima vez, fica patente o déficit habitacional. Pela enésima vez, também, vemos pessoas entrevistadas residindo à margem de rios ou em encostas dizendo que sabem dos riscos, convivem com a insegurança, mas não saem, ou não podem sair. 

A essas imagens do Sudeste, somam-se as cenas menos espetaculares de Belém, em mais um dia em que coincidem chuvas fortes com marés de sizígia - as marés de lanço no dizer dos pescadores - produzindo enchentes. Quantos sofás, poltronas, colchões, armários e geladeiras semi-submersos a indicar que não mais servirão. Ver pela TV as pessoas saindo de casa com água pela cintura em meio à poluição dá arrepio só de pensar em doenças, no mínimo. E a fala do prefeito entrevistado de que a conclusão da Macrodrenagem vai sanar os alagamentos soa pouco convincente diante de uma história rotineira.
 
Para além de discussões super pertinentes dos problemas e das soluções, deparei-me com duas análises que, escritas em tempos muito diferentes, tratam o tema com sensibilidade e originalidade. Para além da busca de culpados individuais ou institucionais, eles apontam para culpas coletivas. Sublinham como os impactos das chuvas espelham os paradoxos da nossa organização social, tão voltada para o crescimento e para a produção, que celebra o aumento do consumo e da renda e,
ao mesmo tempo, despreocupada com o que vai em suas suas periferias, no sentido espacial e social. O tipo de "fé no progresso" que nos move coletivamente cerra-nos o olhar para os processos da natureza e para saberes e práticas mais atentos à complexidade desses processos.

A primeira dessas análises a que me refiro está no texto que Carlos Drummond de Andrade escreveu para o Jornal Correio da Manhã de 14 de janeiro de 1966, chamado "Dias escuros", republicado há poucos dias no Viomundo (http://www.viomundo.com.br/). Impressiona a semelhança dos problemas de hoje e os de quase meio século e a sagacidade e a generosidade de seu olhar de poeta ao se debruçar sobre o assunto. Merece ser lido e pensado. Por isso, selecionei alguns trechos.

Eis que em um dia "sem luz", ele se referia à cidade do Rio "ensopada de chuva" e à sorte dos moradores mais vulneráveis: 
 
"Chego à janela e não vejo as figuras habituais dos primeiros trabalhadores. (...) Barracos que se desmancham como armações de baralho e, por baixo de seus restos, mortos, mortos, mortos. Sobreviventes mariscando na lama, à pesquisa de mortos e de pobres objetos amassados".
 
Crítico mordaz da sociedade, ele se refere à cidade "...tão rica de galas e bens supérfluos, e tão miserável em sua infra-estrutura de submoradia, de subalimentação e de condições primitivas de trabalho"


A tragédia denunciava "velhos erros sociais e omissões urbanísticas". Assim, ele reclamava sobre o papel do remorso que faltava diante dos que mais sofriam. Drummond se impressionava especialmente com a sorte dos trabalhadores, "a mão de obra que dorme nos morros sob a ameaça contínua da natureza" e que, portanto, mais fortemente sofria os impactos. E mencionou então as crianças que "nem tiveram tempo de crescer para cumprimento de um destino anônimo". 

Desde então, é fora de dúvida que os trabalhadores no Brasil conquistaram direitos significativos.  Ampliou-se a "armadura assistencial" cuja ausência ele lamentava. Ela vem com os aluguéis sociais, o acesso facilitado ao FGTS e ao crédito imobiliário, procuradores e defensores públicos mobilizados rapidamente para agilizar os trâmites relativos às mortes e perdas materiais, além de uma previdência social muito mais inclusiva. Mas é bem certo, também, que persistem estruturas sociais que conduzem crianças e jovens aos "destinos anônimos", não só nas encostas e beiras de rios, como também nas prisões em que sobressaem os jovens.
 
O texto revela uma outra semelhança entre hoje e ontem. Uma semelhança positiva se assim se pode dizer. É a solidariedade imediata das pessoas, sobre a qual ele disse ser uma "corrente de afeto solidário, participante, que procura abarcar todos os flagelados". Essa ajuda espontânea emociona sempre, mesmo se se cobra do Estado, com toda razão, a necessidade de treinar voluntários para atuar organizadamente em situações de calamidade, o que ocorre na Austrália, no Japão, no Canadá etc., como destacam os noticiários.

O outro texto é de Leonardo Boff. Em" O preço de não escutar a natureza" (www.adital.com.br), ele toca em uma "ferida mais funda", penso. Clique em "leia mais", abaixo, para prosseguir.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PRECONCEITOS... E OS DIREITOS NA CORDA BAMBA

A primeira vez que ouvi sobre o "caso Dreyfus", foi no decorrer do meu curso de graduação em Ciências Sociais. Aprendi, então, que esse foi um evento marcante do contexto em que a Sociologia como ciência se consolidou na França, na virada do século XIX para o XX. Vivia-se um período que pode ser considerado como de consolidação da modernidade na Europa, expresso nos processos de industrialização e de urbanização crescentes, na  constituição do Estado laico e na emergência da primeira geração dos direitos sociais. A ciência da sociedade tanto resultava desses processos de mudança quanto deveria ser um apoio na conformação da nova ordem social, ao elucidar os problemas  decorrentes da divisão do trabalho, do individualismo, das lutas de classe, do novo espírito científico e do tradicionalismo etc.

No entanto, mais do que um elemento naquele contexto, um olhar mais próximo sobre o drama pessoal e humano de um capitão judeu condenado injustamente traz à tona questões atuais sobre a força dos preconceitos e sobre como, especialmente em contextos de crise social, preconceitos podem legitimar transgressões das leis em nome de "interesses maiores", que justificam passar por cima de indivíduos em favor da coletividade. Ainda mais, se os indivíduos em questão são membros de categorias sociais menos valorizadas, subalternas, que carecem de igual reconhecimento. Seus dramas podem, assim, ser menos sentidos pelos demais membros do corpo social, ideologicamente aliviados da culpa pelas injustiças eventualmente cometidas em nome de um "bem maior". 

Esta reflexão vem a propósito do livro recente de Louis Begley, O Caso Dreyfus - Ilha do Diabo, Guantánamo e o pesadelo da História. Ele nos aproxima dos muitos personagens daquele drama, e dos desafios que viveram. Portanto, para além da importância histórica do evento. Ademais, ao levantar paralelos com os processos dos prisioneiros na base americana de Guantánamo pós 11 de setembro, ele aponta para a permanência de atitudes que põem em risco as democracias e seus sistemas jurídicos.

Surpreendentemente, o tema é atual. Clique abaixo em "leia mais" para saber.


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

EM BUSCA DO OURO

O impulso para ganhar dinheiro, a auri sacra fames sobre a qual se referiu Max Weber no seu livro sobre a ética protestante e o capitalismo, motivou e ainda motiva corridas por ouro e pedras preciosas em diversos lugares no planeta. Páginas expressivas da colonização européia no Novo Mundo, como ocorreu no Brasil e na Austrália, foram vividas por pessoas que se aventuravam em busca de um Eldorado. Essas duas experiências tiveram traços em comum, embora correspondessem a sistemas sociais muito diferentes. Em um caso, tratava-se de uma"colônia de exploração" e, no outro, de uma "colônia de povoamento", segundo a terminologia consagrada pela pesquisa histórica. As diferenças ressaltam no uso de escravos, trabalhadores livres ou remunerados como modalidade principal de trabalho, no grau de controle da produção pela metrópole e na aplicação dos ganhos obtidos então. Em comum, além de violência, racismo e exploração, é notável que a busca pelo ouro em ambos os contextos esteve na origem de movimentos de libertação do jugo colonial. Ela ajudou, portanto, a forjar sonhos locais de autonomia, aproximando de certo modo essas realidades distantes e "atrasadas", dos processos sociais em curso na Europa ocidental e nos EUA nos séculos XVIII e XIX.

No Brasil, a Inconfidência Mineira foi precedida de várias tentativas de fugir às taxações e controles, notadamente às "derramas" instituídas obrigatoriamente pelo governo para compensar os fracos recolhimentos de impostos sobre o ouro.

http://archive.amol.org.au/eureka/gallery2/001.htm
Na Austrália, no Estado de Victoria, a Rebelião de Eureka em 1854 (Eureka Stockade), foi um levante dos garimpeiros nas minas de Ballarat contra a imposição de licenças para garimpar, a serem pagas independentemente dos resultados em ouro, penalizando sobretudo os de menos sorte. Assim como se considera a Inconfidência um marco na independência no Brasil, na Austrália considera-se aquele movimento um marco no desenvolvimento da democracia e da identidade do país. Os garimpeiros revoltosos na Austrália formaram um movimento de reforma política chamado Ballarat Reform League, com bandeira própria inspirada no Cruzeiro do Sul. Tiveram entre seus líderes homens que haviam atuado no movimento cartista na Inglaterra e em outros movimentos libertários de trabalhadores na Europa nos anos de 1840. Resultaram da Rebelião de Eureka, a reforma das leis reguladoras da mineração e o direito de os garimpeiros votarem para o legislativo local. Neste ponto, portanto, uma radical diferença em relação à resposta estatal à Inconfidência cerca de sessenta anos antes em Minas Gerais.

Hoje, próximo à cidade de Melbourne, o turista pode  visitar uma localidade insteiramente reconstruída segundo o que seria a vila mineradora de Ballarat daquela época e, também, experimentar a apuração do ouro na batéia. O conjunto lembra uma povoação do faroeste americano retratada nos muitos filmes do gênero. Assiste-se, ainda, a uma impressionante representação em som e luz da Rebelião. Aliás, representações de acontecimentos ou de processos históricos desse tipo fazem falta no Brasil. Elas poderiam ser feitas junto a monumentos históricos; em Belém, por exemplo, nos muros do Forte do Castelo, nas ruínas do Engenho Murucutú, ou em partes das Igrejas setecentistas projetadas por Antonio Landi.
Uma visita a Ouro Preto, linda cidade pelo patrimônio arquitetônico super bem preservado, classificado patrimônio cultural da humanidade e, também, por suas paisagens montanhosas, hoje bastante ocupadas, propicia uma rara sensação de mergulhar na história colonial brasileira e na origem do Estado das Minas Gerais, no interior de um Brasil que no século XVIII adentrara para bem além da zona costeira. Os edifícios e as igrejas imponentes no alto de suas ladeiras, exprimem parte da riqueza gerada na época pela extração do ouro. Este ouro, bem se conhece, foi em sua maior parte (dados oficiais) para Portugal e, de lá, seguiu também para a Inglaterra, onde deu sua contribuição no financiamento da Revolução Industrial. Testemunho do tributo dos escravos à modernidade capitalista emergente!

A senzala guardada nos porões da Casa dos Contos e duas minas abertas à visitação - uma movida a trabalho manual de escravos até sua desativação e a outra com escravos apenas nas duas primeiras décadas e, depois, por mineiros assalariados e uso crescente de maquinário até a década de 1980 - lembram as bases da sociedade que se erigiu dessas fontes. Impressionantes e sombrios caminhos, agora muito limpos, a evocar vozes passadas, andares, carregares, suores, obrigações, vigilância e, não raro, pressas para escapar ao oxigênio perigosamente rarefeito nas condições de iluminação e ventilação vigentes, sobretudo nas estreitas galerias da mina operada manualmente. Sem imagens da época, pode-se apenas imaginar o que se passou nessas minas.

Os guias locais, bem informados e atenciosos, falam das muitas estratégias que foram utilizadas para se evadir do pagamento dos impostos à Coroa, a quinta parte do ouro extraído (donde a expressão "quinto dos infernos"). Repete-se, então, que "a corrupção no Brasil vem desde essa época". O comentário soa bizarro ao turista, certo e errado ao mesmo tempo, enganador mais do que esclarecedor. O que era certo na razão de Estado da época, na ordem jurídica correspondente, era injusto sob tantos outros pontos de vista, e isso em nada justifica moralmente a corrupção entre nós, na República do século XXI. A idéia denota perigosamente a naturalização desse comportamento, naturalização que ajuda a mantê-lo. Seria talvez preferível pensar que se trata de uma das heranças do sistema colonial, de um preço decorrente desse "começo" de nação tão conturbado e insidioso nas suas metamorfoses e evolução.

A visita ensina sobre a história do trabalho no Brasil. Assim, vê-se que dentre as peças técnicas expostas nos museus, a quantidade de instrumentos de repressão - algemas, coleiras, correntes, troncos, chicotes, palmatórias ... - parece suplantar a de instrumentos agrícolas, teares, boticões de dentista, urinóis e escarradeiras.  

Aprende-se, ademais, a fonte de expressões linguísticas correntes, ligadas ao trabalhar naquele contexto. Além do quinto dos infernos, o "fazer nas coxas" que associamos a algo apressado e, portanto, mal feito, teria como origem a moldagem das telhas pelo escravo sobre suas coxas, resultando em telhas de diferentes padrões. Há, também, as expressões que soam mais alegres, que remontam a antigas práticas de resistência. O "santo do pau oco" é bem conhecido.  Menos conhecida é a origem do "lavar a égua", isto é, sair-se bem em um evento, atividade ou jogo; ela vem da antiga prática de esconder parte do ouro em pó, no pelo de éguas que, depois, eram lavadas para se recuperar clandestinamente o ouro.

No plano da arte sacra, riquíssima na cidade, resssaltam as muitas igrejas setecentistas, cujo valor histórico, artístico e cultural é inquestionável. Elas são apontadas como representações das mais significativas do barroco colonial e do rococó. A beleza, como disse uma vez um comentarista, é sempre uma beleza triste. Ao olhar para aqueles incontáveis santos, oratórios, crucifixos, cetros, ostensórios, peças e adereços usados em procissões, indaga-se sobre o propósito para os homens e as mulheres da época, daquelas ações de devoção tão frequentes, tão ostensivas, de toda a vida aparentemente regulada pelas relações religiosas naquele contexto de extrativismo pleno de acasos e perigos, além da repressão. O mobiliário das residências das elites, aparece muito austero pelos padrões de hoje. 

As igrejas também traduzem um aspecto de enorme significação da vida social de então: as irmandades religiosas, que bancaram cada uma a construção de sua igreja, incluindo irmandades de escravos. Propiciavam, ainda, uma espécie de previdência mutualista. A Igreja de Santa Efigênia foi de uma irmandade de escravos. Dela se diz que foi construída graças ao lendário líder Chico Rei, de nome original Galanga, que teria sido um nobre africano que não se reduziu à escravidão. Trabalhou em uma mina que depois comprou e, então, comprou a libertação de muitos de sua tribo de origem. As ruínas do que teria sido sua residência jazem mal conservadas próximo a uma das minas, na rua Chico Rei. 

A construção da Igreja de Santa Efigênia foi supervisionada pelo pai do Mestre Aleijadinho, este último a figura maior na escultura religiosa no Brasil daquele período, filho de uma escrava. Ele contou com a atenção do pai para florescer no campo das artes. Nas muitas esculturas de sua autoria nas igrejas de Ouro Preto e na cidade de Congonhas, aparecem sinais de rebeldia e crítica ao sistema colonial: marca de enforcamento nas figuras de Jesus, ou botas de soldados portugueses nos soldados romanos representados nas cenas da Paixão de Cristo. Seu pai teve de negociar com os membros da irmandade da Igreja da Conceição, cuja construção ele mesmo dirigiu e ornou, para que o filho Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho), pudesse ser lá batizado. Ela, como as demais irmandades de brancos, não admitia negros nos seus cultos. Mas a ameaça de deixar inconcluso um trabalho realmente insubstituível, abriu uma brecha naquela regra da ordem estamental e o menino foi batizado aos seis anos de idade.

A riqueza material decorrente do ouro, ainda que expatriada em maior proporção, também se expressou no florescimento cultural entre os membros da elite, como indicam, por exemplo, as produções literárias de Tomás Antônio Gonzaga e seu drama amoroso com Maria Dorotéia - A Marília de Dirceu -  e da poetisa Bárbara Eliodora, esposa de um dos inconfidentes. Os participantes do movimento da Inconfidência eram em grande parte militares graduados e profissionais qualificados, além de artesãos. A produção artística refletiu de diferentes modos, não linerares, anseios de liberdade e autonomia, além de abrigar exercícios de  crítica social.

Lembrou-nos o guia, que a posição da estátua de Tiradentes no meio da praça principal, no local onde sua cabeça foi exposta, dá as costas a um prédio que foi a residência oficial do governador, ou seja, a um símbolo do poder colonial. 

Os monumentos daquela região aurífera estão a indicar as muitas dimensões sociais e humanas das chamadas corridas pelo ouro, que importa conhecer e refletir. 

Seria fantástico se as escolas brasileiras, inclusive as públicas, abrissem  em sua programação visitas a regiões históricas do país.