terça-feira, 26 de abril de 2016

Feminismo e valores cristãos

Feminismo não é ideologia de poder ou de destruiçao dos papeis sociais de mulheres e homens. É uma crítica a um dos tipos de desigualdade presentes em nossa sociedade: a desigualdade de gênero. É uma perspectiva de igualdade de oportunidades, de escolha e de influência na organização social. Não fosse essa crítica, mulheres não estariam hoje votando, trabalhando e cuidando das suas famílias, cada vez mais com o envolvimento genuíno dos companheiros homens. A valorização da paternidade como cuidado efetivo dos filhos pelos pais e mães, é parte desse projeto de igualdade social. Feminismo é, portanto, uma perspectiva de justiça e equidade. A influência da desigualdade de genero transparece, por exemplo, no reduzidissimo numero de mulheres no Congresso Nacional. Encontramos na vida de Jesus exemplos singulares de elevação da mulher, que ele deu muitas vezes, em um contexto histórico marcado pelo patriarcalismo, no qual a mulher era um ser de pouca importância e de poucos direitos. Já Maria em sua história, reverte nossa limitada lógica humana, que preza as hierarquias e o poder, não no sentido de serviço conforme aprendemos na última ceia do nosso Mestre. Para mim, então, feminismo não se opõe aos valores cristãos, ao contrário. Por outro lado, sei que feminismo é plural, com diferentes perspectivas. Mas, em todas as correntes ha um ponto comum: a busca de um mundo justo! E no qual os cuidados sejam valorizados e função de todos os humanos, independentemente do sexo.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Diversidade dos nossos dons e bem coletivo

No meu entender, limitado portanto, uma das mensagens da segunda leitura das missas deste domingo é um elogio à diversidade de crenças e culturas e um reconhecimento dos distintos trabalhos, dons com que contribuímos para o bem comum. Eis um pequeno trecho: "Há uma diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Ha diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum..." (1Cor 12,14/11). Então, essa antiga carta guarda lições cheias de frescor. É uma pena que tanto se critiquem as religiões como formas de sujeição ideológica, e muitas vezes o são, pois podem ser manipuladas... Mas, nas suas fontes estão balizas de nossa história, pontos altos de nossas civilizações. São leituras da condição humana, sobre quem somos e quem podemos ser, interpretações que vão além das nossas misérias objetivas e classificações, por exemplo, de ricos e pobres, homens e mulheres, nascidos em um ou outro país, analfabetos ou letrados, negros e brancos, tradicionais ou modernos, praticantes da religião A ou B etc. Ser todos dotados de dons pelo Espírito maior, e dons exercidos para o bem comum, como diz a Carta aos Coríntios, não é pouco! Nos obriga no mínimo ao respeito mútuo, nos compromete ao cuidado pessoal e coletivo e nos convida a reconhecer a graça que recebemos, independente de nossos méritos, ou posição social. Um texto como esse, portanto, traz um conhecimento profundo de nós mesmos e das sociedades que construímos. Além de conhecimento, é chamado à ação e a viver a vocação com tudo o que ela representa em compromisso com o próximo. Nessa perspectiva, então, o que existe não esgota o real, muito pelo contrário.
Não me arvoro a conhecedora da religião que professo - e muito menos sou praticante fiel (quem dera!) - mas queria dividir esta impressão da leitura de Paulo, um mestre que há dois milênios tem muito a nos dizer.

Esquecimento do passado, perdão e vida nova, em narrativas do Evangelho


A leitura de ontem (da liturgia católica) refere-se a uma das mais belas páginas dos Evangelhos. Traz a Palavra sobre a mulher adúltera que, pela lei, se deveria apedrejar - e que Ele não condenou - contrapondo-se assim à lógica humana. Esse episódio, juntamente com aquele sobre a atitude do pai que recebeu o filho pródigo com imensa alegria, independente do que tenha feito enquanto esteve longe, tem muito significado hoje. O Mestre indica o que é nossa tendência profunda: o amor, o perdão e a plena consciência de nossa condição igual de filhos, filhas, irmãos, em uma vida que vai além desta. Conscientes de nossas fragilidades comuns, mas ao mesmo tempo, de nossa grandeza. Todos temos grandezas. Além disso, somos chamados a esquecer o passado, a olhar para a frente, a perdoar a si e aos outros, porque a vida nova se abre a todo instante. Vida nova nessa perspectiva, liberta das mesquinhezas humanas, inscritas na nossa lógica cotidiana. No caso da adúltera, faríamos a condenação, talvez inclusive chamando o homem adúltero para tornar equitativa a pena. No caso do filho pródigo, iríamos primeiro condena-lo por seus erros, ainda que o acolhendo com alegria. Jesus considerou o pecado, mas amou a pessoa. Não castigou. Não castiga. E castigos, cabem a Deus, como lhe aprouver, não a nós! O que a experiência narrada nos Evangelhos mostra é o perdão, o amor. 

Também fez parte das leituras de hoje, esse trecho de Paulo, a reforçar também a novidade dessa forma de sentir, pensar e agir. Diz ele: Irmãos, eu não julgo tê-lo alcançado [a Cristo]. Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente... (Filipenses 3, 13-14). 
Ao compartilhar esta reflexão da leitura de hoje, não pretendo fazer proselitismo, ou me considerar à altura daquela sabedoria mais que milenar. Jamais. Nunca. É só para dividir mesmo e convidar a folhear aquelas páginas cuja mensagem ainda fala ao coração, chamando por mudança, por tolerância, por respeito às pessoas em suas diferenças e integridade. Independente de qual seja nossa fé, ou falta de fé, eu acho que essas páginas são uma fonte de conhecimento do que somos e do que podemos vir a ser, como pessoas, como comunidades, como sociedade. 
O que somos se manifesta, por exemplo, no drama dos imigrantes que os países europeus hoje não querem, que as leis vedam a entrada. Como o Mestre - e mestres de outras denominações religiosas - agiria nesse caso? E em tantos outros casos nos quais nos relacionamos como estranhos. Ainda não aprendemos com aquele samaritano justo - vejam só, membro de um grupo étnico desvalorizado socialmente na época - ele que verdadeiramente acolheu o próximo que havia sido assaltado...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal, nossa humanidade comum e nossas famílias

Aos leitores deste Blog.
Aproveitamos o espírito natalino para expressar mensagens de amizade, força e votos de um ano novo melhor. São votos genuínos. A esperança que se acende em meio aos temores e aos riscos comuns, em tempos de incertezas, unem-nos neste momento forte para compartilhar este lado mais belo de nossa complicada humanidade. Ou seja, nossa fome de bem, de vida boa para o maior número e de alegria. 
Se o Natal nos possibilita voltar a atenção para a fonte primeira desta data, a mensagem do Menino, temos então o privilégio de nos maravilhar com aquele que foi um momento maior de nossa história coletiva. E, também, de nos admirar com o fato de estarmos ainda hoje a nos organizar para a "Noite Feliz", a destinar o melhor de nossos esforços para vivê-lo como um momento especial, se possível com aqueles a quem mais amamos, não importa de que meios materiais disponhamos. Como somos capazes de fazer isso? É certo que muito do Natal é consumo, é comércio... mas todos sabemos que não é só, é muito mais! O que esse movimento continua a nos ensinar, a nos chamar e a advertir?
Esse menino que está para renascer, traz com ele uma radical mensagem de amor e paz, capaz de mudar nosso modo de ser e, também, a organização de nossa vida social. Quando ele nos convida a olhar para todo ser humano como "filho", herdeiro do Reino, a todos como merecedores dessa paz e dessa felicidade, quando ele próprio sendo Rei viveu entre os "mais pequeninos", iniciou a transmissão da Boa Nova já ao nascer, ele nos incitava a mudar para melhor.
O tema do perdão, a reconciliação e, ainda, a humildade como marca de respeito e reconhecimento pelo outro, foram temas de primeira grandeza. Somos seres difíceis, temos sentimentos baixos, orgulho e sede de poder e precisamos sempre ser lembrados do que somos, em contraposição ao que podemos ser. E, para trilhar esse caminho, dispomos de uma qualidade que prezamos acima de muitas coisas: o livre-arbítrio, nossa liberdade de escolha e de ação. Somos convidados a ser melhores, mas podemos escolher não sê-lo. E quanto pendemos para esta negativa!
Mas o Natal, festa cíclica que tanto amamos, fonte de lembranças queridas de quase toda infância, rememora a mensagem do amor maior, sem medidas. E, assim, começamos a entender como foi possível para os primeiros seguidores, as primeiras comunidades cristãs e seus continuadores, tocar os poderes constituídos, "contaminar" Estados e sistemas políticos e nos permitir, dois milênios depois, continuar a reviver um dos maiores momentos de nossa história terrena. Independentemente de nossa filiação religiosa, ou da ausência dessa filiação, a mensagem subverte, questiona fundo... Assim, podemos sonhar e exercitar esse potencial maior que Jesus veio mostrar que temos, que podemos e que devemos. Amar ao próximo como a nós mesmos, expressando nosso amor por Deus. A fonte da vida plena sendo não a Lei, suas formalidades, mas o amor, a fraternidade universal.
Neste Natal, desejo aos que estão lendo estas linhas que curtam suas famílias, seus próximos mais próximos, uma benção. Mesmo quando as relações no meio da família não vão tão bem, elas sempre merecem nosso empenho, nosso esforço para faze-las melhor, para honrar e agradecer por essas pessoas existirem em nossas vidas. Deixar a família se esvair é uma perda extraordinária, um custo altíssimo. Investir no amor familial, aproveitando o Natal  uma oportunidade que não se deve perder. Todos temos algum defeito, somos todos humanos. Mas, sobretudo, todos podemos melhorar. E, a partir daí, sentirmo-nos também fortes para conviver com nossa família maior, todos os próximos conforme ensinou Jesus ao falar sobre o bom samaritano.No caso de Belém, de nossa Belém assim chamada em homenagem à Belém original, investir para fazer dela uma cidade humana e receptiva, armando nela manjedouras de acolhimento e atenção. Feliz Natal e Feliz Ano Novo para todos nós!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Homenagem ao Prof. José Marcelino

Anteontem faleceu o Professor José Marcelino Monteiro da Costa, de quem tive o privilégio de ser aluna. Escrevi um pequeno texto em sua homenagem, no que fui seguida por outros colegas da UFPA que lhe prestaram reconhecimento. Merece destaque a homenagem de Heraldo Mas ao colega.
 
José Marcelino da Costa foi, para mim, um grande professor de Economia Brasileira. Aprendi muito e devo, portanto, algumas conquistas de minha carreira profissional às bases teóricas que obtive como sua aluna. Também tive embates políticos com ele durante as mobilizações para mudança de coordenação do NAEA, quando eu lá estudava, mas esses embates não mudaram em nada o respeito e reconhecimento. Há cerca de dois anos encontrei com ele em um restaurante em Belém e pude manifestar-lhe pessoalmente esse meu senso de gratidão, ao que ele agradeceu. Fico contente de ter feito isso. Foi um construtor, prestou efetivas contribuições na formação de muita gente de valor nestas terras amazônicas.

De Heraldo Maués:
Colegas,

Uno-me à manifestação da colega e amiga Cristina. Trabalhei com o Marcelino no NAEA desde 1977, quando ali entrei como professor do PLADES, a minha primeira experiência de ensino na pós-graduação. Pouco depois, em 1980, fui vice-coordenador do PLADES na gestão do coordenador Carlos Coimbra que, por razões de saúde, teve de se afastar, deixando-me na condição de coordenador do mestrado. Com isso passei a ter maior aproximação com Marcelino, ainda no período da ditadura militar. O NAEA era então uma espécie de refúgio para todos aqueles que queriam discutir uma teoria social e econ?mica mais avançada, inclusive os textos de Marx e Engels. Marcelino uma vez me alertou que eu estava sendo monitorado pelo SNI e que havia restrições para que participasse de evento importante, promovido pelo NAEA em Belém, com a participação de diplomatas brasileiros e estrangeiros (estes representantes de toda a Pan-Amaz?nia, de onde eram recrutados muitos dos alunos do PLADES). Ele no entanto garantiu minha presença, que estava sendo ameaçada, por restrições daquele órgão cuja ingerência era poderosa nas universidades brasileiras.

Mais tarde, após a conclusão das disciplinas do meu doutorado, quando concorri à coordenação do NAEA, nosso grupo era de oposição àquele apoiado por Marcelino. Isso no entanto não impediu que continuássemos mantendo relações cordiais, durante toda a minha gestão à frente do NAEA (1985-1989).

Presto aqui esta homenagem ao Marcelino que, juntamente como Armando Mendes,  Alexei Turenko e outros colegas da antiga Faculdade de Economia, gestou a ideia de um núcleo de integração da pesquisa e pós-graduação na UFPA e que foi quem o implantou e coordenou por vários anos. O NAEA, como núcleo de integração, teve e continua tendo papel fundamental na pesquisa e pós-graduação da UFPA, tendo, num certo sentido, também influenciado na origem de vários outros programas de pós-graduação, inclusivo o nosso, o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/PPGCS, que já tem formado um contingente importante de mestres e doutores em sociologia e antropologia no Pará.

Atenciosamente

Heraldo Maués
De Eneida Assis:


Puxa Cristina,

Li a sua mensagem somente agora pela manhã desta quinta, fiz o NAEA em 1976 à época praticamente o único local que oferecia uma oportunidade de se fazer uma pós-graduação. Foi muito bom, o Juan trabalhava com ele e havia professores ótimos, alguns já se foram como o Constantino, Tupiassu, Roberto. Era um ambiente bom e estimulante. Nessa época funcionava nos altos do IFCH, Tua noticia me fez lembrar de alguns de minha turma: Graça Godinho, Antonio Maria da Sociologia, Luís Brito do BASA, Carmona da Venezuela, MariaEugenia Rios, Espírito Santo da Geografia, Mano Alceu do BASA e Luís Dendê que recebeu esse nome devido ser à época um dos responsáveis pelos estudos sobre aplicabilidade do dendê em outras áreas da industria, o Marcelino conversava muito com a turma. Ele vai deixar saudades.


De Luzia Álvares (no Facebook):

Outra pessoa que partiu ontem: José Marcelino Monteiro da Costa, um dos fundadores do NAEA e meu professor na instituição. Esteve na minha banca de seleção a esse núcleo e sempre foi respeitado. Tivemos embates por lá a quando do inicio das mudanças de coordenação , mas nunca uma contenda para afetar seus compromissos com a turma, àquela altura: Antonio Lamarão Corrêa, Marco Aurélio Arbage Lobo, Moacir Feitosa (Maranhão), Geraldo Gobitch, Aldenor do Nascimento. Condolências aos familiares e paz à alma do Professor Marcelino. 



segunda-feira, 15 de abril de 2013

A um jovem de 20 anos

Como mostrar a um jovem que 20 anos é muito cedo? Que ainda dá tempo de errar, de aprender (aliás, sempre, diga-se de passagem), que uma das coisas boas do passar do tempo (apesar de que o "senhora" precede todas as conversações, mesmo num bar... ai!), uma das coisas boas é a perspectiva diferente da vida, a tal "maturidade", uma calma para aceitar as limitações... A noção de que, enfim, vale a pena!!! Mesmo que o caminho seja duro. A gente sabe que escolhas nessa fase da vida são importantes, mas não são definitivas. 

Eu queria dizer a esse jovem o que corre em muitas postagens no Facebook, sobre a necessidade de se ter o pensamento aberto, a esperança, a curiosidade... O que parece sem saída, sem sentido... hoje, vai mudar! Vai assumir outra importância! Que passado o tempo que a gente tiver a graça de poder usufruir, o dom de usufruir, de aprender com a vida e de comemorar aqueles aniversários da tal terceira idade... a gente até se arrepende de ter perdido tempo com sentimentos e angústias que são compreensíveis, mas que passam, passam... Eu queria dizer uma mensagem que tocasse o coração de um jovem, coisas que eu não me disse e não ouvi na minha época, porque como esse jovem triste de hoje, eu tive tristezas e angústias, e tristezas e angústias e, sobretudo, dúvidas, incertezas e questões sobre o sentido... E que eu também estive fechada para ouvir essas lições envelhecidas (porque são lições de todas as épocas). Só chegando na cinquentena é que a gente percebe a preciosidade do tempo que nos é dado viver... 

E compreende a grandeza de pessoas como a Cora Coralina, minha grande colega Luzia Álvares e tantas outras que souberam e sabem construir sempre, que se realizaram no trabalho mesmo com filhos e responsabilidades familiares... E compreende a grandeza dessas mulheres e homens que sofrem com vidas tão limitadas, trabalho, casa, trabalho, contas a pagar, direitos espoliados... 

E, especialmente, dizer a um jovem envolvido na violência mais barra pesada, que tira a vida de outrem por ninharia e que também perde a vida por nada, que eles também têm sua cota de ação para melhorar o seu contexto, para progredir, pois sucumbir às circunstâncias objetivas não é lei natural nem social. Que esses jovens nesse Brasil profundo têm sua parcela na evolução de nós todos, na escrita dessa obra conjunta que é nossa história no planeta, essa diversidade social, cultural extraordinária! Mesmo que muito louca, é uma grande história. Quando a gente está muito jovem não enxerga isso, muitas vezes, mas é uma baita história! 

E, incrível, a grande força da mudança social, da reescrita da história para melhor, é a juventude, as novas gerações, que contestam, questionam, desdenham do que é ultrapassado...

Juventude é dialética por excelência, síntese de contradições, mudança e conservação, absoluto e relativo. Nosso mundo maltrata os jovens e, ao mesmo tempo, evolui em grande parte por conta deles.  

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Medo, preconceito e deixa estar o social

Essa frase é muito boa para pensar: O que se opõe à fé não é o ateísmo, mas o medo. O medo paraliza e isola as pessoas das outras pessoas. É de Leonardo Boff, em entrevista que consta no seu site. 

Na nossa cidade, conhecemos o medo que isola as pessoas. Se não se cruzar diretamente com a fonte do medo, basta abrir o jornal. Esse medo também paralisa, embota a vontade e a criatividade. Um efeito mais grave é que ele reacende preconceitos e fomenta apartheids que não cabem mais na civilização dos direitos humanos e universais. Mas, no caminho que vamos trilhando, reforçamos o egoísmo como característica principal da organização social. E perde-se a fé na possibilidade de mudar essa organização, reformando o contexto. Assim, em Belém por exemplo, corre solta a expansão imobiliária orientada só pelos padrões do mercado, sem orientação coletiva ou visão da cidade como bem público das gerações presentes e futuras. A cidade cresce sob a lógica do cada um por si, conforme o que se tem, o que explica o desconhecimento do plano diretor

Reagir coletivamente contra as fontes do medo parece impensável, tarefa inalcançável. E vai-se levando a vida, assistindo a propagandas de carro ou de bens de consumo fazendo de conta que não se sabe que não podem ser usufruídos como estão sendo mostrados. Ou planejando o programinha de lazer do fim de semana, torcendo para que saia tudo bem, tantos são os riscos... A grande fonte do medo, a desigualdade geral e duradoura, inscrita no modelo que consagra o usufruto de uns - indiferente à privação de tantos outros - essa fonte vai sendo mantida. E seus efeitos, sofridos ou pensados em silêncio. Mas, com certeza, pesando no coração de cada um. 

Como introduzir a fé? Uma fé mobilizadora, estimulante da ação coletiva, da reação contra essa vida presa, frente a qual o sentimento geral é de impotência e de falta de sentido? Concordo que tradições religiosas que pregam a centralidade do amor ao próximo, do perdão, do sair de si e dar ao outro, lições sempre válidas, têm cada vez mais um lugar no conjunto de esforços para construir o "céu" neste mundo. Sobretudo, pelo amálgama que essas mensagens propõem entre o individual e o coletivo, entre a pessoa e sua sociedade, uma não se opondo à outra, uma precisando da outra. Mudar o mundo não dispensa mudar a si, tentar ser uma pessoa melhor. E, cada vez mais, as religiões expressam a noção da interdependência e interpenetração entre sociedade e natureza, revertendo a antiga hierarquia que representava os humanos no topo da criação e a natureza a seu serviço.

As perspectivas religiosas fertilizam a busca do genuíno interesse próprio na realização do interesse comum. A espiritualidade, portanto, contribui na construção do mundo novo, promessa aberta e cada vez mais possível nos dias de hoje. Meios materiais e intelectuais, pelo menos, não nos faltam.

 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sobre solidariedade e racionalidade ambiental

Recebi o seguinte comentário, da colega e parceira de pesquisa Maria José Aquino Teisserenc, referindo-se sobre a postagem "Atingidos de Belo Monte e a divisão do trabalho no século XXI". Ela suscita outras aplicações do pensamento de Durkheim, bem interessantes para pensarmos sobre solidariedade e diversidade social:


Concordo sobre a pertinência do raciocínio de Durkheim para pensar os desafios de hoje. A partir da idéia de solidariedade na apreciação sobre a divisão do trabalho social, a questão da interdependência (contraditória e complementar) da diversidade social, cultural, biológica, tem sido colocada por autores como Enrique Leff e Arturo Escobar como possível caminho a ser percorrido se quisermos fazer face ao totalitarismo da racionalidade de mercado (pela qual foi a Amazônia inventada e integrada às engrenagens do "Crescimento-Desenvolvimento-Modernização") e em defesa da promoção e da afirmação de uma outra racionalidade, a ambiental, talvez. Nesta outra racionalidade o diverso, o diferente, deve ser percebido como um outro pleno de alma, de legitimidade para ensinar, aprender, intercambiar... Continuaremos.