segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ORGANIZAÇÕES INFLEXÍVEIS

À notícia impressionante da queda de um prédio em Belém, ontem seguiu-se uma grande tristeza, diante das pessoas que morreram, se feriram, desapareceram. E as que perderam bens e empregos.

Dá uma tristeza, também, o fato em si do desabamento, a ruína de uma obra dessas, antes de tudo um trabalho humano coletivo. De muitas mãos.

Particularmente, não gosto de prédios residenciais muito altos. Mas eles são, sempre, um prodígio de técnica, testemunham a capacidade humana de superar limites ambientais, para o bem e para o mal. A engenharia é um grande testemunho. Pode-se, com razão, questionar sobre a qualidade da participação dos muitos atores que intervêm nesse esforço coletivo, sobre a divisão entre poder de decisão e execução, entre saber e fazer. De qualquer modo, isso não invalida o caráter de produção coletiva que uma obra desse porte representa. As ferragens retorcidas e os pedaços de concreto amontoados também estão dolorosamente a dizer da falha do trabalho humano, da súbita inutilidade de tantas horas de empenho, de aplicação, de cálculos, de decisões, de gestos, transpostos para o corpo da obra.

Muitas perguntas se levantam, é claro, sobre os erros, as razões, as culpas, os responsáveis, as indenizações etc. Acho que vale lembrar, também, um tipo de pergunta que não é nova, que várias pessoas se fazem: por que tão altos os prédios em Belém? são realmente necessários? há premência de espaço? Imagino que perguntas semelhantes foram feitas quando da construção do primeiro grande edifício em Belém, o Manoel Pinto da Silva, inovador em todos os sentidos em sua época.

Mas hoje, com a quantidade de prédios cada vez mais altos que se constroem na cidade, que deixam para trás os vinte andares que costumavam ser o limite das construções até os anos de 1990, outros questionamentos aparecem: quais os princípios que orientam as decisões sobre a localização dos prédios altos no espaço da cidade? respeitam-se critérios ambientais e culturais? como se equilibram os interesses e as demandas de mercado com esses critérios? Em uma economia capitalista liberal, de respeito absoluto à propriedade privada, a decisão do que fazer em um terreno cabe ao seu proprietário, como bem se sabe. Mas, em se tratando de obras de grande envergadura, sabe-se também que os impactos - as "externalidades" na linguagem econômica - vão muito além dos limites da propriedade.

Assim, pode-se também perguntar que categorias de atores sociais decidem, ou pelo menos são ouvidos, quanto a critérios de localização das obras. Aparentemente, apenas os agentes econômicos, as empresas detentoras dos imóveis, além dos órgãos públicos e agências reguladoras. E, aparentemente, o poder destas últimas é menor. Fatores menos ponderáveis como a incidência da luz solar na rua e nas casas vizinhas, o direito à paisagem, a circulação de ar, a memória coletiva da rua ou do bairro não contam, ou contam muito pouco. São as regras de nosso jogo coletivo de produção da cidade, movida a mercado liberalizado, a oportunidades de ganho e de acesso à boa moradia a quem pode pagar. 

Muitas vozes há tempos vêm reclamando o respeito a um plano diretor na Região Metropolitana de Belém, o zoneamento e, ademais, que a cidade disponha de equipamentos compatíveis com o volume da ocupação e com o tamanho das construções e seus impactos, na forma de sistema de esgotos, redes de drenagem, recolhimento de lixo, trânsito, combate a incêndios, dentre outros.

A julgar pelos reclamos daqueles diretamente envolvidos e implicados, como os trabalhadores da construção por meio de seu sindicato, além dos moradores vizinhos, havia evidências de problemas na construção. Mas, por razões que os estudos vão indicar, não foram levados em conta.

Esses elementos configuram uma estrutura de comunicação fechada, pouco permeável, entre a obra e o sistema no qual se insere. E o que é uma obra de construção civil? Uma grande organização, mas que não funciona como "sistema de atores", conceito este formulado por sociólogos das organizações. Feed-backs não são incorporados no estilo de gestão vigente. É possível, também, que tendam a ser minimizados devido ao peso dos compromissos e encargos financeiros envolvidos no empreendimento. Uma vez em movimento, difícil fica parar, rever, retroceder.

Apesar da brutal diferença em volume e impacto social e ambiental, acho que a rigidez que acompanha o processo de expansão imobiliária nas áreas nobres de Belém é de mesma natureza da rigidez que acompanha o empreendimento hidrelétrico de Belo Monte, no Xingu. Em Belo Monte, as manifestações de insatisfação, as abordagens diferenciadas que apontam problemas, são levadas em conta apenas na medida em que há pressão social. Já sobre o uso e a apropriação dos espaços urbanos, a pressão é menor. É por isso que chamei esta postagem de organizações inflexíveis. Agem como se detentoras exclusivas, e legítimas, da razão técnica que dispensa outras considerações.

A pergunta espontânea que muitos fazem quanto ao por que da altura crescente dos prédios em Belém suscita uma resposta imediata: há demanda, há mercado a atender. Mas há também uma resposta que remete ao padrão de sociedade que acordamos construir e manter, que é muito desigual. Não há como construir edificações mais baixas ao longo de todo o espaço da cidade, pois não há poder de compra democraticamente distribuído pela população da cidade. Assim, o poder de compra se concentra verticalmente e se dilui horizontalmente. Não se misturam as pessoas que se encontram nos diferentes estratos sociais. Muito menos, se possível, suas moradias. Mas, aqui, já se está muito longe do prédio que ruiu.

Um prédio residencial é, também, uma fábrica de sonhos. Investir em uma casa é um sonho, realizá-la tem efeitos psicológicos que se estendem por toda a vida, sentimento de realização, de cumprimento de objetivos, segurança para os filhos se for o caso, para si... Esses sonhos desabaram junto para muita gente. Tomara que possam refazê-los logo. E que os que perderam entes queridos encontrem forças para superar a dor.

A cidade está triste.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DEPOIS DA CHUVA

Ninguém por certo fica indiferente diante dos sofrimentos trazidos pela atual estação de chuvas, sobretudo na região serrana do Rio de Janeiro, nas primeiras semanas do ano, amplamente mostrados na TV. Na ocasião, além das costumeiras promessas de ação, muitas análises e propostas importantes tem sido feitas. Como de praxe, as justas críticas ao que se fez e deixou de fazer, constata-se aqui e ali desleixo, indícios de corrupção que atrasaram a adoção de técnicas que teriam minimizado as perdas, a exemplo de sistemas de alarme, ou  treinamentos da população. Vem a público que, por entraves burocráticos, determinado aparelho de monitoramento que havia sido comprado não funcionava na hora H. Ganham novo fôlego propostas de reforma urbana e  as lembranças sobre o quanto o inchaço das cidades deve à falta de reforma agrária. Pela enésima vez, fica patente o déficit habitacional. Pela enésima vez, também, vemos pessoas entrevistadas residindo à margem de rios ou em encostas dizendo que sabem dos riscos, convivem com a insegurança, mas não saem, ou não podem sair. 

A essas imagens do Sudeste, somam-se as cenas menos espetaculares de Belém, em mais um dia em que coincidem chuvas fortes com marés de sizígia - as marés de lanço no dizer dos pescadores - produzindo enchentes. Quantos sofás, poltronas, colchões, armários e geladeiras semi-submersos a indicar que não mais servirão. Ver pela TV as pessoas saindo de casa com água pela cintura em meio à poluição dá arrepio só de pensar em doenças, no mínimo. E a fala do prefeito entrevistado de que a conclusão da Macrodrenagem vai sanar os alagamentos soa pouco convincente diante de uma história rotineira.
 
Para além de discussões super pertinentes dos problemas e das soluções, deparei-me com duas análises que, escritas em tempos muito diferentes, tratam o tema com sensibilidade e originalidade. Para além da busca de culpados individuais ou institucionais, eles apontam para culpas coletivas. Sublinham como os impactos das chuvas espelham os paradoxos da nossa organização social, tão voltada para o crescimento e para a produção, que celebra o aumento do consumo e da renda e,
ao mesmo tempo, despreocupada com o que vai em suas suas periferias, no sentido espacial e social. O tipo de "fé no progresso" que nos move coletivamente cerra-nos o olhar para os processos da natureza e para saberes e práticas mais atentos à complexidade desses processos.

A primeira dessas análises a que me refiro está no texto que Carlos Drummond de Andrade escreveu para o Jornal Correio da Manhã de 14 de janeiro de 1966, chamado "Dias escuros", republicado há poucos dias no Viomundo (http://www.viomundo.com.br/). Impressiona a semelhança dos problemas de hoje e os de quase meio século e a sagacidade e a generosidade de seu olhar de poeta ao se debruçar sobre o assunto. Merece ser lido e pensado. Por isso, selecionei alguns trechos.

Eis que em um dia "sem luz", ele se referia à cidade do Rio "ensopada de chuva" e à sorte dos moradores mais vulneráveis: 
 
"Chego à janela e não vejo as figuras habituais dos primeiros trabalhadores. (...) Barracos que se desmancham como armações de baralho e, por baixo de seus restos, mortos, mortos, mortos. Sobreviventes mariscando na lama, à pesquisa de mortos e de pobres objetos amassados".
 
Crítico mordaz da sociedade, ele se refere à cidade "...tão rica de galas e bens supérfluos, e tão miserável em sua infra-estrutura de submoradia, de subalimentação e de condições primitivas de trabalho"


A tragédia denunciava "velhos erros sociais e omissões urbanísticas". Assim, ele reclamava sobre o papel do remorso que faltava diante dos que mais sofriam. Drummond se impressionava especialmente com a sorte dos trabalhadores, "a mão de obra que dorme nos morros sob a ameaça contínua da natureza" e que, portanto, mais fortemente sofria os impactos. E mencionou então as crianças que "nem tiveram tempo de crescer para cumprimento de um destino anônimo". 

Desde então, é fora de dúvida que os trabalhadores no Brasil conquistaram direitos significativos.  Ampliou-se a "armadura assistencial" cuja ausência ele lamentava. Ela vem com os aluguéis sociais, o acesso facilitado ao FGTS e ao crédito imobiliário, procuradores e defensores públicos mobilizados rapidamente para agilizar os trâmites relativos às mortes e perdas materiais, além de uma previdência social muito mais inclusiva. Mas é bem certo, também, que persistem estruturas sociais que conduzem crianças e jovens aos "destinos anônimos", não só nas encostas e beiras de rios, como também nas prisões em que sobressaem os jovens.
 
O texto revela uma outra semelhança entre hoje e ontem. Uma semelhança positiva se assim se pode dizer. É a solidariedade imediata das pessoas, sobre a qual ele disse ser uma "corrente de afeto solidário, participante, que procura abarcar todos os flagelados". Essa ajuda espontânea emociona sempre, mesmo se se cobra do Estado, com toda razão, a necessidade de treinar voluntários para atuar organizadamente em situações de calamidade, o que ocorre na Austrália, no Japão, no Canadá etc., como destacam os noticiários.

O outro texto é de Leonardo Boff. Em" O preço de não escutar a natureza" (www.adital.com.br), ele toca em uma "ferida mais funda", penso. Clique em "leia mais", abaixo, para prosseguir.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

PRECONCEITOS... E OS DIREITOS NA CORDA BAMBA

A primeira vez que ouvi sobre o "caso Dreyfus", foi no decorrer do meu curso de graduação em Ciências Sociais. Aprendi, então, que esse foi um evento marcante do contexto em que a Sociologia como ciência se consolidou na França, na virada do século XIX para o XX. Vivia-se um período que pode ser considerado como de consolidação da modernidade na Europa, expresso nos processos de industrialização e de urbanização crescentes, na  constituição do Estado laico e na emergência da primeira geração dos direitos sociais. A ciência da sociedade tanto resultava desses processos de mudança quanto deveria ser um apoio na conformação da nova ordem social, ao elucidar os problemas  decorrentes da divisão do trabalho, do individualismo, das lutas de classe, do novo espírito científico e do tradicionalismo etc.

No entanto, mais do que um elemento naquele contexto, um olhar mais próximo sobre o drama pessoal e humano de um capitão judeu condenado injustamente traz à tona questões atuais sobre a força dos preconceitos e sobre como, especialmente em contextos de crise social, preconceitos podem legitimar transgressões das leis em nome de "interesses maiores", que justificam passar por cima de indivíduos em favor da coletividade. Ainda mais, se os indivíduos em questão são membros de categorias sociais menos valorizadas, subalternas, que carecem de igual reconhecimento. Seus dramas podem, assim, ser menos sentidos pelos demais membros do corpo social, ideologicamente aliviados da culpa pelas injustiças eventualmente cometidas em nome de um "bem maior". 

Esta reflexão vem a propósito do livro recente de Louis Begley, O Caso Dreyfus - Ilha do Diabo, Guantánamo e o pesadelo da História. Ele nos aproxima dos muitos personagens daquele drama, e dos desafios que viveram. Portanto, para além da importância histórica do evento. Ademais, ao levantar paralelos com os processos dos prisioneiros na base americana de Guantánamo pós 11 de setembro, ele aponta para a permanência de atitudes que põem em risco as democracias e seus sistemas jurídicos.

Surpreendentemente, o tema é atual. Clique abaixo em "leia mais" para saber.


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

EM BUSCA DO OURO

O impulso para ganhar dinheiro, a auri sacra fames sobre a qual se referiu Max Weber no seu livro sobre a ética protestante e o capitalismo, motivou e ainda motiva corridas por ouro e pedras preciosas em diversos lugares no planeta. Páginas expressivas da colonização européia no Novo Mundo, como ocorreu no Brasil e na Austrália, foram vividas por pessoas que se aventuravam em busca de um Eldorado. Essas duas experiências tiveram traços em comum, embora correspondessem a sistemas sociais muito diferentes. Em um caso, tratava-se de uma"colônia de exploração" e, no outro, de uma "colônia de povoamento", segundo a terminologia consagrada pela pesquisa histórica. As diferenças ressaltam no uso de escravos, trabalhadores livres ou remunerados como modalidade principal de trabalho, no grau de controle da produção pela metrópole e na aplicação dos ganhos obtidos então. Em comum, além de violência, racismo e exploração, é notável que a busca pelo ouro em ambos os contextos esteve na origem de movimentos de libertação do jugo colonial. Ela ajudou, portanto, a forjar sonhos locais de autonomia, aproximando de certo modo essas realidades distantes e "atrasadas", dos processos sociais em curso na Europa ocidental e nos EUA nos séculos XVIII e XIX.

No Brasil, a Inconfidência Mineira foi precedida de várias tentativas de fugir às taxações e controles, notadamente às "derramas" instituídas obrigatoriamente pelo governo para compensar os fracos recolhimentos de impostos sobre o ouro.

http://archive.amol.org.au/eureka/gallery2/001.htm
Na Austrália, no Estado de Victoria, a Rebelião de Eureka em 1854 (Eureka Stockade), foi um levante dos garimpeiros nas minas de Ballarat contra a imposição de licenças para garimpar, a serem pagas independentemente dos resultados em ouro, penalizando sobretudo os de menos sorte. Assim como se considera a Inconfidência um marco na independência no Brasil, na Austrália considera-se aquele movimento um marco no desenvolvimento da democracia e da identidade do país. Os garimpeiros revoltosos na Austrália formaram um movimento de reforma política chamado Ballarat Reform League, com bandeira própria inspirada no Cruzeiro do Sul. Tiveram entre seus líderes homens que haviam atuado no movimento cartista na Inglaterra e em outros movimentos libertários de trabalhadores na Europa nos anos de 1840. Resultaram da Rebelião de Eureka, a reforma das leis reguladoras da mineração e o direito de os garimpeiros votarem para o legislativo local. Neste ponto, portanto, uma radical diferença em relação à resposta estatal à Inconfidência cerca de sessenta anos antes em Minas Gerais.

Hoje, próximo à cidade de Melbourne, o turista pode  visitar uma localidade insteiramente reconstruída segundo o que seria a vila mineradora de Ballarat daquela época e, também, experimentar a apuração do ouro na batéia. O conjunto lembra uma povoação do faroeste americano retratada nos muitos filmes do gênero. Assiste-se, ainda, a uma impressionante representação em som e luz da Rebelião. Aliás, representações de acontecimentos ou de processos históricos desse tipo fazem falta no Brasil. Elas poderiam ser feitas junto a monumentos históricos; em Belém, por exemplo, nos muros do Forte do Castelo, nas ruínas do Engenho Murucutú, ou em partes das Igrejas setecentistas projetadas por Antonio Landi.
Uma visita a Ouro Preto, linda cidade pelo patrimônio arquitetônico super bem preservado, classificado patrimônio cultural da humanidade e, também, por suas paisagens montanhosas, hoje bastante ocupadas, propicia uma rara sensação de mergulhar na história colonial brasileira e na origem do Estado das Minas Gerais, no interior de um Brasil que no século XVIII adentrara para bem além da zona costeira. Os edifícios e as igrejas imponentes no alto de suas ladeiras, exprimem parte da riqueza gerada na época pela extração do ouro. Este ouro, bem se conhece, foi em sua maior parte (dados oficiais) para Portugal e, de lá, seguiu também para a Inglaterra, onde deu sua contribuição no financiamento da Revolução Industrial. Testemunho do tributo dos escravos à modernidade capitalista emergente!

A senzala guardada nos porões da Casa dos Contos e duas minas abertas à visitação - uma movida a trabalho manual de escravos até sua desativação e a outra com escravos apenas nas duas primeiras décadas e, depois, por mineiros assalariados e uso crescente de maquinário até a década de 1980 - lembram as bases da sociedade que se erigiu dessas fontes. Impressionantes e sombrios caminhos, agora muito limpos, a evocar vozes passadas, andares, carregares, suores, obrigações, vigilância e, não raro, pressas para escapar ao oxigênio perigosamente rarefeito nas condições de iluminação e ventilação vigentes, sobretudo nas estreitas galerias da mina operada manualmente. Sem imagens da época, pode-se apenas imaginar o que se passou nessas minas.

Os guias locais, bem informados e atenciosos, falam das muitas estratégias que foram utilizadas para se evadir do pagamento dos impostos à Coroa, a quinta parte do ouro extraído (donde a expressão "quinto dos infernos"). Repete-se, então, que "a corrupção no Brasil vem desde essa época". O comentário soa bizarro ao turista, certo e errado ao mesmo tempo, enganador mais do que esclarecedor. O que era certo na razão de Estado da época, na ordem jurídica correspondente, era injusto sob tantos outros pontos de vista, e isso em nada justifica moralmente a corrupção entre nós, na República do século XXI. A idéia denota perigosamente a naturalização desse comportamento, naturalização que ajuda a mantê-lo. Seria talvez preferível pensar que se trata de uma das heranças do sistema colonial, de um preço decorrente desse "começo" de nação tão conturbado e insidioso nas suas metamorfoses e evolução.

A visita ensina sobre a história do trabalho no Brasil. Assim, vê-se que dentre as peças técnicas expostas nos museus, a quantidade de instrumentos de repressão - algemas, coleiras, correntes, troncos, chicotes, palmatórias ... - parece suplantar a de instrumentos agrícolas, teares, boticões de dentista, urinóis e escarradeiras.  

Aprende-se, ademais, a fonte de expressões linguísticas correntes, ligadas ao trabalhar naquele contexto. Além do quinto dos infernos, o "fazer nas coxas" que associamos a algo apressado e, portanto, mal feito, teria como origem a moldagem das telhas pelo escravo sobre suas coxas, resultando em telhas de diferentes padrões. Há, também, as expressões que soam mais alegres, que remontam a antigas práticas de resistência. O "santo do pau oco" é bem conhecido.  Menos conhecida é a origem do "lavar a égua", isto é, sair-se bem em um evento, atividade ou jogo; ela vem da antiga prática de esconder parte do ouro em pó, no pelo de éguas que, depois, eram lavadas para se recuperar clandestinamente o ouro.

No plano da arte sacra, riquíssima na cidade, resssaltam as muitas igrejas setecentistas, cujo valor histórico, artístico e cultural é inquestionável. Elas são apontadas como representações das mais significativas do barroco colonial e do rococó. A beleza, como disse uma vez um comentarista, é sempre uma beleza triste. Ao olhar para aqueles incontáveis santos, oratórios, crucifixos, cetros, ostensórios, peças e adereços usados em procissões, indaga-se sobre o propósito para os homens e as mulheres da época, daquelas ações de devoção tão frequentes, tão ostensivas, de toda a vida aparentemente regulada pelas relações religiosas naquele contexto de extrativismo pleno de acasos e perigos, além da repressão. O mobiliário das residências das elites, aparece muito austero pelos padrões de hoje. 

As igrejas também traduzem um aspecto de enorme significação da vida social de então: as irmandades religiosas, que bancaram cada uma a construção de sua igreja, incluindo irmandades de escravos. Propiciavam, ainda, uma espécie de previdência mutualista. A Igreja de Santa Efigênia foi de uma irmandade de escravos. Dela se diz que foi construída graças ao lendário líder Chico Rei, de nome original Galanga, que teria sido um nobre africano que não se reduziu à escravidão. Trabalhou em uma mina que depois comprou e, então, comprou a libertação de muitos de sua tribo de origem. As ruínas do que teria sido sua residência jazem mal conservadas próximo a uma das minas, na rua Chico Rei. 

A construção da Igreja de Santa Efigênia foi supervisionada pelo pai do Mestre Aleijadinho, este último a figura maior na escultura religiosa no Brasil daquele período, filho de uma escrava. Ele contou com a atenção do pai para florescer no campo das artes. Nas muitas esculturas de sua autoria nas igrejas de Ouro Preto e na cidade de Congonhas, aparecem sinais de rebeldia e crítica ao sistema colonial: marca de enforcamento nas figuras de Jesus, ou botas de soldados portugueses nos soldados romanos representados nas cenas da Paixão de Cristo. Seu pai teve de negociar com os membros da irmandade da Igreja da Conceição, cuja construção ele mesmo dirigiu e ornou, para que o filho Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho), pudesse ser lá batizado. Ela, como as demais irmandades de brancos, não admitia negros nos seus cultos. Mas a ameaça de deixar inconcluso um trabalho realmente insubstituível, abriu uma brecha naquela regra da ordem estamental e o menino foi batizado aos seis anos de idade.

A riqueza material decorrente do ouro, ainda que expatriada em maior proporção, também se expressou no florescimento cultural entre os membros da elite, como indicam, por exemplo, as produções literárias de Tomás Antônio Gonzaga e seu drama amoroso com Maria Dorotéia - A Marília de Dirceu -  e da poetisa Bárbara Eliodora, esposa de um dos inconfidentes. Os participantes do movimento da Inconfidência eram em grande parte militares graduados e profissionais qualificados, além de artesãos. A produção artística refletiu de diferentes modos, não linerares, anseios de liberdade e autonomia, além de abrigar exercícios de  crítica social.

Lembrou-nos o guia, que a posição da estátua de Tiradentes no meio da praça principal, no local onde sua cabeça foi exposta, dá as costas a um prédio que foi a residência oficial do governador, ou seja, a um símbolo do poder colonial. 

Os monumentos daquela região aurífera estão a indicar as muitas dimensões sociais e humanas das chamadas corridas pelo ouro, que importa conhecer e refletir. 

Seria fantástico se as escolas brasileiras, inclusive as públicas, abrissem  em sua programação visitas a regiões históricas do país.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A propósito do "menino que nesta noite aniversaria"

O título desta postagem inclui a expressão "o menino que faz aniversário", que ouvi há tempos do colega de pesquisas Jean Hébette, ao se referir ao Natal, durante uma das reuniões do nosso grupo de estudos. Hoje vem-me a mente um grande comentador e intérprete da vida de Jesus, o teólogo russo Aleksandr Mien, cujo livro Jesus, Mestre de Nazaré me foi sugerido por uma colega do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFPA. 

Tecendo suas reflexões em um contexto social e histórico distante, sua escrita tem uma grande qualidade, que é a de parecer travar um diálogo com o leitor,  propondo uma reflexão conjunta entre autor e leitor. E, assim, ele vai apresentando a figura de Jesus, sob ângulos por vezes surpreendentes, munido de farta documentação histórica, situando-o no seu tempo e, também, no que ele tem de universal e atemporal. Aproxima-se, portanto, da própria mensagem - muitas mensagens - do menino que faz aniversário em 25 de dezembro. 

Sem qualquer pretensão de dar uma lição religiosa, totalmente fora de minhas possibilidades ou competência, este texto reflete sobre alguns aspectos da obra do "mestre de Nazaré" que a tornam referência em muitas partes do planeta, referências culturais e ideais.  

Dentre as muitas passagens que valem a leitura da obra de Mien, há os  também muitos episódios em que Jesus exprimiu, por palavras e ações, sua concepção do ser humano universal, igualmente digno de reconhecimento independentemente de status, etnia, classe social ou gênero. Assim, por exemplo, no que tange à condição da mulher, ouve-se do autor que Jesus disse pela primeira vez a alguém tratar-se do Messias e "revelou a essência da religião do espírito" , não aos discípulos, mas a uma mulher, na Samaria; e, "ainda por cima, pecadora e herética...", nos padrões da época (p. 105). 

Mien situa a visão de Jesus sobre a igualdade radical  na condição de ser humano - nela incluída, portanto, as mulheres e os homens - no contexto da reflexão filosófica e religiosa da época, em que prevalecia o status subalterno da mulher.


Para um filósofo como Sócrates, a mulher era "um ser estúpido e enfadonho. No mundo pré-cristão, as mulheres quase sempre não passavam de servas mudas, cuja vida só conhecia o trabalho extenuante e as obrigações de casa. (...) Foi Cristo quem restituiu à mulher a dignidade humana que lhe fora tirada, o direito de ter exigências espirituais. A partir dele, o lugar da mulher não se limitou mais ao lar doméstico. Por isso, no grupo de seus seguidores mais íntimos vemos muitas mulheres.... (p. 105)

Do mesmo modo, relembramos a vivência de Jesus no meio das pessoas comuns e o seu objetivo maior de elevar os seres humanos ao plano divino desde "este mundo". Daí ter andado e convivido entre os "mais simples", de uma maneira muito diversa do que  igrejas instituídas assumiriam muitas vezes ao longo de suas histórias: poderes  materialmente distantes dos seus "povos".


O desdém pelas hierarquias sociais ficou patente nas manifestações de divindade de Jesus em momentos ordinários, entre pessoas comuns e não em situações solenes ou majestáticas, de evidente poder e autoridade. Foi assim na famosa transformação de água em vinho durante uma festa de casamento, episódio sobre o qual Mien assim analisa:

Foi assim que o poder de Jesus sobre a naureza se manifestou pela primeira vez, não com sinais temíveis, mas em uma mesa posta, no meio das canções alegres de uma festa de casamento. Usou pela primeira vez o seu poder sobrenatural quase por acaso, para que não se tornasse triste um dia festivo. Afinal, ele viera para dar aos homens a alegria, a plenitude, a vida 'em abundância'. (p. 78)

Há, ainda, a célebre cobrança do amor incondicional pelos outros, recíproco, a começar pelos inimigos, como resultado dessa sua concepção universal do ser humano digno de respeito e reconhecimento. Além do "oferecer a outra face" ao agressor, Jesus contribuiu também na história da construção do Direito como "domesticação da vingança". Sua concepção de irmão e próximo rompia com a noção corrente: irmão e próximo passava a ser qualquer um, sem relação com sua posição ou comunidade de origem. A compaixão, a solidariedade, as ações para com os outros eram os indicadores dessa condição de irmandade ou proximidade. Esses sentimentos e ações recíprocos deveriam nortear a normatização da vida coletiva,  as relações jurídicas, como se verifica na seguine passagem: 

Nos códigos pagãos a punição muitas vezes era mais pesada do que a própria infração. (...) "Olho por olho, dente por dente". Jesus distinguiu com nitidez o direito penal de uma justiça baseada em outros princípios. Para todo mundo, é natural odiar seus inimigos; mas os filhos de Deus devem vencer o mal com o bem, devem lutar em seus corações contra o sentimento de vingança. Não só. Devem desejar o bem daqueles que o ofendem. Esta é uma tarefa bastante ousada, um modo de manifestar uma força interior autêntica (...).


E as belas palavras de Jesus:

Se amais só aqueles que vos amam, que mérito tereis com isso? (p. 96)

Tem-se aqui muito mais do que a recomendação de princípios técnicos que tornem justa a justiça. Na fórmula mesma da lei devem inscrever-se princípios de reciprocidade humana, isto é, o sentimento claro dos laços que aproximam os membros dessa humanidade comum. Jesus fazia uma cobrança singular, pois uma tal tarefa, como diz o intérprete, deveria expressar uma grande força interior.

Na sua trajetória, Jesus fez inúmeros convites, endereçados democraticamente, sem distinções. Certamente em todas as culturas, um convite feito a alguém, a uma festa, a uma confraternização, a uma partilha, a um trabalho, a uma  ação coletiva, a uma ceia... é a expressão, por excelência, do reconhecimento da pessoa em seu valor, em sua dignidade. Sobretudo, em sua individualidade. É, assim, uma relação entre sujeitos.

Todos, por certo, já vivemos a tristeza de não sermos convidados. Bem a propósito, o colega Jean Hébette relatava dias atrás o depoimento de um pescador que entrevistara durante uma pesquisa de campo. Era um participante de um movimento social em defesa de lagos contra a pesca predatória no município de Porto de Moz, à margem do rio Xingu. O entrevistado manifestara seu orgulho de estar sendo convidado por muitos para participar de eventos, de reuniões dentro e fora de sua localidade e de seu município.

Os convites do aniversariante Jesus não foram dirigidos a um sujeito passivo, como se sabe bem. Aceitá-lo era dar um grande passo, laborioso, implicava compromissos que não eram leves, pois se tratava de construir o Reino de Deus. Na história humana  foram muitas as visões diferentes - e os embates e as guerras - quanto ao que significa este Reino, como construí-lo. Muitas interpretações conflitantes, que enfatizaram determinados ângulos ou interpretações, em detrimento de outros, ortodoxias em lugar de diálogos e de ecumenismo. Tudo bem conhecido.

Independentemente da crença específica que se tenha, ou não se tenha, é  notável que a data do Natal é símbolo de tanta coisa boa. Queiramos ou não,  entre os povos  seguidores do Cristianismo e, mesmo em outros, a rotina muda.  É certo que para uns mais do que para outros. A mensagem daquela biografia que hoje se relembra, é forte. É forte no que ela tem de universalismo, de apreço pela humanidade e, notadamente, ao combinar de modo tão peculiar o interesse pelo coletivo e, dentro deste coletivo, também pelo mais particular, o mais humilde - basta que lembremos as passagens sobre a alegria da volta do filho que partira, a ovelha desgarrada... Nesse sentido, a gente sente e, humildemente, pensa compreender a grandeza dessa construção e dessa herança. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um lance distante da cidade fraturada

Pela varanda do quarto vi ontem, sábado de tarde, ao longe, andando em uma das estreitas ruas com casas que ainda persistem no bairro do Umarizal, em Belém (Pará), uma pessoa que pensei ser um menino a brincar, pois vinha descalço, andando a passos largos, quase correndo como se apressado na brincadeira, segurando o que parecia um objeto antes muito usado em brincadeiras na rua, uma lata amarrada a um fio que pode ser puxada como se fosse um carrinho. A cena tinha algo de estranho, pois não é mais comum ver crianças brincando na rua nessa região da cidade. Quanto mais  a gente se afasta da Doca, menos pessoas tendem a estar nas ruas; as que estão são transeuntes passando rumo a seus compromissos ou lares. De todo modo, era uma cena muito simpática. Por instantes dava para se deixar levar por uma sensação gostosa: crianças despreocupadas usando o espaço da rua para brincar.

Mais próximo, contudo, a "normalidade" do urbano se manifestou. Era um um jovem, um mendigo  que costuma andar pelas redondezas falando só, pedindo um trocado aos passantes, com quem vez por outra cruzo nas minhas raras andanças. Ao chegar ao fim da quadra, ele dobrou na outra rua continuando seu passo apressado e, segundo meu olhar convencional e distante, um passo sem rumo definido. Pouco depois, ele foi ultrapassado por um carro com janelas fechadas. Era a cena cotidiana que se recompunha.

Esta cidade grande não é só de estranhos. A estranheza da vida na metrópole foi um aspecto que tantos analistas da vida urbana moderna em sua ascensão destacaram, notadamente Georg Simmel no início do século XX na Alemanha que então se urbanizava rapidamente. Mas, Belém é mais uma cidade fraturada e temerosa. A sociabilidade dos habitantes é contida em espaços apropriados, espaços comerciais sobretudo, que podem variar conforme o poder de compra e os laços sociais das pessoas. A  depender da área da cidade, a sociabilidade pode se dar na rua,  em formas soltas e espontâneas, mas para muitos, os riscos, ou a sensação de estar pouco a vontade, são seu preço.

Acho que a gente se acostuma com essa vida estranhada em uma cidade que ainda tem alguns ares provincianos, porque os tantos afazeres, os planos de futuro, para nós, para os filhos, instam a seguir em frente. Isto é, a gente adia pensar criticamente e tirar conclusões do tipo "assim não dá pra ficar". A gente administra essas incômodas constatações e mais os lamentos por assistir passivamente as mudanças nos espaços da cidade, nos edifícios que são cada vez mais altos, cada vez mais fechados sobre si, que investem na beleza de fachada, sobretudo agora com as luzes do Natal.

Não pude deixar de lembrar o antigo poema de Manuel Bandeira sobre um vulto que vira mexendo em um monte de lixo, parecendo um animal e que, ao chegar perto, percebeu tratar-se de uma pessoa.

O que vi é um clichê no nosso meio urbano. O direito à cidade é  um  privilégio. E a gente vai levando.




sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sobre mulheres pescadoras em um evento de engenheiros e técnicos de pesca

A realização conjunta IV Semana de Engenharia de Pesca e II Semana de Técnico em Pesca e Aquicultra do Pará, de 13 a 16 de dezembro de 2010 na Universidade Federal Rural da Amazônia, em Belém, teve como slogan uma frase que apontava para uma ciência aplicada em prol das comunidades que vivem das lides pesqueiras: Ciência como veículo de difusão e tecnologia na Engenharia de Pesca para as comunidades pesqueiras e aquícolas
Durante a discussão de uma das mesas a que pude assitir, sobre o aproveitamento dos produtos da pesca, argumentava-se que esse processamento, ainda longe de ser efetivado na medida do volume de pescado produzido no Pará,  contribuiria para reduzir a pobreza das comunidades. Uma das autoras fechou sua palestra lembrando as grandes possibilidades e os desafios maiores para que isso se torne realidade. A propósito, participantes da mesa  instaram os alunos para que, em sua vida profissional, não viessem a esquecer esses princípios de produção de ciência e tecnologia comprometidas com a promoção humana.
A mesa seguinte, para a qual fui convidada a expor, versava sobre organização das mulheres pescadoras no Estado do Pará. Acho que vale uma reflexão sobre  a inclusão dessa mesa na programação. A própria temática é fruto de mudanças que vêm ocorrendo no Brasil e em outros países, sobretudo a partir de meados dos anos 1990, quando se começou a prestar  mais atenção  à presença feminina, que ocorre de muitas maneiras no setor pesqueiro. 
A atenção à divisão sexual do trabalho no setor deriva de muitos fatores. Por exemplo, as evidências cada vez maiores de degradação dos principais recursos pesqueiros, decorrente do padrão predominante de desenvolvimento da pesca até então, levaram a uma maior sensibilidade para a racionalidade de outras práticas tecnológicas e para comunidades que haviam sido classificadas como rudimentares e necessitadas de se modernizarem. 
Em linhas gerais, como é conhecido, aquele padrão centrara-se na intensificação dos esforços de captura sobre espécies de  valor comercial, como atuns, lagostas, camarões,  sardinhas, bagres para exportação, como a piramutaba no caso do litoral amazônico, dentre outras. Tecnologias de crescente poder de predação foram desenvolvidas - como os arrastos motorizados - que viabilizaram a vertiginosa expansão da indústria do pescado, notadamente entre as décadas de 1970 e 1980.  
Evolução da produção pesqueira mundial - 1950-2002 (FAO, 2004)

Muitos estudos e movimentos sociais já deixaram claro que o estilo de expansão da pesca extrativa deu-se em detrimento do meio ambiente e das comunidades de pescadores artesanais, chamados também de pescadores de pequena escala, que secularmente produziram e abasteceram os mercados. E as comunidades dizem respeito aos conjuntos de pessoas que as formam, com suas relações e culturas, mulheres e homens de diferentes idades, formas de colaboração, conflitos e histórias. 
Correlativamente a isso, os sistemas de administração pesqueira distanciaram-se das comunidades, foram centralizados em burocracias estatais ou, mais recentemente, privatizados, como ocorre com as quotas transferíveis de pesca em alguns países. As formas locais de gestão, ou seja, de regulação do acesso  e uso dos territórios de pesca, foram o mais das vezes ignoradas ou  desestruturadas. Nessa época do "desenvolvimentismo", não se falava em co-gestão, gestão participativa ou gestão comunitária na pesca.

Por outro lado, a atenção à presença das mulheres deve-se, também, a mobilizações sociais relacionadas à defesa dos interesses das categorias de pescadores artesanais e à influência de movimentos feministas e de mulheres trabalhadoras na pesca e em outros setores, em particular na agricultura. Há, ainda, a influência dos movimentos ambientalistas, da consciência ambiental e de pesquisas que vêm sendo feitas nos últimos anos sobre o assunto, como mostra uma consulta ao sítio Web of Sciences na internet. 

Desse modo, embora a inserção do tema das mulheres em eventos dessa natureza já não cause a mesma surpresa que antes, penso que ela é sempre motivo de alegria. Pois, decerto, isso traduz as novas concepções que estão a balizar a formação dos quadros técnicos e científicos na área,  que o slogan do evento convida a pensar: não a distância  autosuficiente do saber acadêmico frente a seus "objetos", mas uma compreensão da responsabilidade social dessa produção. 
Penso que, ao contemplar a temática, os organizadores compartilham da concepção ampliada de trabalhadores da pesca que encontra eco na legislação brasileira recente e que vem responder a persistentes demandas das mulheres nas comunidades, por reconhecimento profissional e político.
Embora minha exposição tenha suscitado poucas perguntas da platéia, vale registrar que após a mesa fui procurada por dois alunos do primeiro ano do curso de técnicas em aquicultura, no município de Castanhal, no Pará. Eles disseram estar estudando a participação das mulheres na aquicultura e, por isso, buscavam bibliografia relacionada. Interessante esse olhar iniciante do campo de estudo a partir da condição das mulheres que lá trabalham!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Homenagens à grande pesquisadora

Tributo de Saudade a Saffioti
Maria Luzia Miranda Álvares* 
Heleieth I.B. Saffioti , a grande pesquisadora, pensadora, professora, feminista faleceu no ultimo dia 13, aos 76 anos, em São Paulo/SP. O mundo intelectual brasileiro perdeu não só uma grande incentivadora dos estudos sobre a questão da mulher, mas e principalmente sobre a violência doméstica, o marxismo, a história das mulheres brasileiras, escrevendo um dos livros mais importantes para estes estudos hoje esgotado: “A Mulher na sociedade de classes- mito e realidade”)1969). Foi importante na formação de toda uma geração e esse testemunho pode ser dados por quantos leram seus livros, artigos ou presenciaram suas conferências, palestras em tantos eventos nacionais e internacionais. 
http://politicaecronicas.blogspot.com/
 
Minha homenagem a Heleith Saffioti 
Ana Cleide Guedes Moreira*
 Hoje, São Paulo chuvosa, 
assiste a partida 
de uma feminista que mudou 
nossos rumos
de mulheres brasileiras.
Ela se vai, sabe-se lá para onde,
mas aqui deixará saudades.
Sua generosidade em analisar a si mesma,
enquanto pensava em todas, 
foi talvez sua maior grandeza.
*Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Pará 
 
Cristiane Faustino*
... de fato uma das maiores referências para o pensamento e ação feministas,
 especialmente no que se refere ao desvelamento das privações que as 
mulheres enfrentam desde a vida e trabalho domésticos!
* Instituto Terramar
Ida Lenir Gonçalves*
Eu não sou feminista, mas reconheço a contribuição de todos aqueles e 
aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ser cidadãs, donas
 do nosso próprio nariz.  
Enfim, os precursores dessa luta mostraram que as mulheres são diferentes sim,
 mas não são o estereótipo estabelecido de fêmea, amante e mãe que lhes 
foi imposto e que assumiram durante milênios. 
* http://diariodeumamulherdespeitada.wordpress.com 
 
Maria Antônia Nascimento*
... embora ela não rejeitasse a categoria de gênero que, se
tornou hegemônica no contexto da produção feminista nas últimas
décadas, ela como Mary Castro, vinham advertindo para o caráter
extremamente palatável da mesma, o que pode implicar, segundo elas, uma
despolitização da exploração e opressão das mulheres na atualidade.
Neste sentido, ela não abria mão da relevância do conceito de
patriarcado no contexto do capitalismo contemporâneo.
Saffioti VIVE!
 * Docente do Mestrado em Serviço Social, Universidade Federal do Pará
 
Izaura Fischer*
Ela realmente  
deixa um vácuo nas reflexões sobre a condição das mulheres. No  
entanto, como profunda conhecedora do assunto, ela nos deixou também  
um legado importante sobre a temática que ainda vamos passar alguns  
anos para ter um verdadeiro entendimento sobre tudo o que ela escreveu.
Eu e a colega Lígia Melo tivemos a opornidade de desfrutar da sua  
companhia algumas vezes e sempre ela tinha o que nos ensinar e, nós o  
que aprendermos com ela. Uma vez fomos convidadas por ela a ir a sua  
casa em S. Paulo, na Praça da República. Em seu apartamento super  
organizado e bonito passamos muitas horas trocando idéias, jogando  
conversa fora e sorrindo, enquanto degustávamos um bom vinho  
acompanhado de uma boa tábua de frios que ela mesma preparou. Naquele  
momento podemos ver que por tras da rigidez que ela demonstrava pensar  
e viver existia aquela pessoa leve que sorria bastante e que nos  
tratava com muito respeito e carinho. Ouvia nossas idéias sobre as  
mulheres rurais, ao mesmo tempo em que discutia e apontava caminhos  
possíveis para pensarmos. Essa lembrança nós guardamos dela com muito  
apreço, ao mesmo tempo em que continuamos a nossa busca no  
entendimento criterioso que ela nos deixou sobre a condição das  
mulheres, temática que coerentemente se destinou a pensar durante toda  
a sua trajetória acadêmica política. Em um dos seus últimos artigos  
produzido e publicado pelo SOSCORPO ela convida as acadêmicas  
feministas a refletirem sobre ecologia ao indagar sobre Quantos sexos?  
Quantos gêneros? Unissexo/unigênero. Quem sabe essa seria a temática  
sobre a qual iria refletir se não tivesse sua vida interrompida nesse  
momento?
*Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco - Pernambuco
 
Maria José*
Heleieth Saffioti politiza o conceito de gênero a partir da condição da mulher, 
contribuindo para que esta categoria gênero (...) fortaleça as lutas e seja mais um instrumento
para desvelar as desigualdades e explicitar a construção social da desigualdade. 
Sua contribuição, que é relacionar as categorias de gênero e classe, o fez de forma muito
importante para o Brasil, onde a luta pela igualdade tem como questões estruturantes o gênero, 
a raça e a classe.
* Conselho Pastoral de Pescadores - Bahia