sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Entardecer de cor

Hoje o entardecer foi róseo...
Eis que o poente em grande estilo
Artista, artesão, desenhador
Precedeu a noite de Belém
Pintando o céu em aquarela multicor.
Quantos amantes se entreolharam?
Quantos amores se tocaram?
E afetos se expressaram?
Na inspiração desse rosado céu...
Quantos, aceitando o convite do crepúsculo
Traduziram o presente de beleza
Em gestos de delicadeza?

Visita ao balcão

Surpreendeu-me hoje
Uma visita alada
Uma vidinha livre, sem donos
Achegou-se a meu balcão.
Viu, cantou e revoou
E sem saber, ela encantou
O coração morador
De pores do sol, sonhador.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Para Belém

Dez meses já de semi confinamento

Vendo Belém desta janela

Descobri, privilégio das alturas,

Que o céu dessa cidade é lindo

E, mais ainda, mais ainda

Quando se põe o sol

Atrás das matas e dos rios

Cenas celestes multicores

Se desenham a solitários sonhadores.

Mirando no rumo do poente

Lá pra onde a cidade nasceu

Em fração infinitesimal de tempo

Penso escutar, penso enxergar

Os fundadores daquele novo mundo

405 anos atrás

Junto às dores dos que sucumbiram

Ao choque original dos povos.

Velha e jovem Belém do Grão-Pará

Falta prezar a morenice de suas gentes!

Seremos nós, passantes destes anos

Orgulhosos dos contatos e culturas

Que nos fizeram ser quem somos?

Se a muitos pouco e a poucos muito

Continuamos essa Belém dividida

Briguenta com suas águas e florestas

Distraídos sem querer trazer o céu

Pra refazer as muitas cores de sua terra!

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Ensina-me a mudar a lua

Ensina-me a transformar a lua,
A fazê-la mudar de substância!
Quando estavas em minha alma, residente
A lua tinha outros sentidos.
Ela era luz suave
A cor exata do silêncio
A profundidade da calma.
Sua luz no canto do quarto
Me transportava, imediatamente,
A ti, a nós.
E eu vivia o privilégio dos amantes...
Esses seres sabiamente loucos
Que se embelezam ao se olharem um ao outro.
E então,
Cruzando as distâncias oceânicas,
Te tocava
Te acariciava.
Acesa em doçura,
A noite se tornava um poema.
Palavras de um coração alegre,
Ornado de esperanças e desejos.
E de projetos! E promessas!
Antes da inocência ir-se embora.
Hoje, em solidão
Devolvo-a, agradecida
Ela, a suave lua
A sua condição astronômica
Satélite natural do planeta
Mestre de todas as marés.
E, igualmente,
Farol dos pescadores,
Companheira dos marujos,
Conselheira das embarcações.
Ensina-me, ex-querido,
Destino passado das mais belas viagens
Alvo da felicidade que eu guardava
Cada vez que preparava as malas.
Ensina-me, ex-querido,
Professor das noites estreladas,
A despir a lua
De sua magia de ontem.
Ensina-me, então, meu ex-amigo
A apagar aquilo que eu lia na lua...
Tudo que nela eu via,
Via através de ti!

Paysages du ciel

 Le ciel vu de ce balcon m’enchante

Au dessus d’un horizon fait de contrastes

Où ciel et terre semblent se contredire.

Des mille nuances aux crépuscules

Aux nuages de plomb avant les pluies

Encore lignes roses, violettes et bleues

Que je surprends lors des nuits blanches.

Comme des tableaux vivants

Dessinés quotidiennement

Et je me dis, est-ce que peut-être

On les râte un peu trop souvent?

On se fait tort de les laisser passer

Sans jouir leur sublimité

Comme des scéances d’après-midi manquées...

Les paysages du ciel auraient-elles le don

De nous parler de nous ici, en bas? 

De nous saisir des paroles lointaines

Porteurs de vieilles sagesses?

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Crepúsculo de anteontem

 

Um espetáculo acontecia no horizonte
Generoso e pleno no silêncio
Indiferente à nossa indiferença.
Perdemos nós se não o vemos
Porque nos impomos distintas prisões
Distintas faltas e muita escassez.
É preciso contar, é preciso cortar
É preciso adiar!
Ainda bem, pôr do sol!
O habitual da terra se desconstrói
Sabemos sonhar, sabemos criar
O que será o novo normal.
Menos pressa e mais céu?

Crépuscule d'avant-hier

Un spectacle se dessinait à l'horizon

Plénitude silencieuse

Indifférente à notre propre indifférence.
De ne pas le contempler, nous sommes perdants
Alors que nous nous imposons
D'innombrables prisons
Manques, insuffisances, pénuries...
Il faut compter, il faut couper
Il faut remettre à plus tard!
Grâce aux ciels, soleil couchant!
L'habituel sur terre se déconstruit
Nous savons rêver, multiplier, partager
Que sera-t-il du nouveau normal...
Moins d'urgences, davantage de ciel?

sexta-feira, 19 de junho de 2020

QUEM "QUER" TRABALHAR DURANTE PANDEMIA? NÃO SEJAMOS DESUMANOS! HÁ SOLUÇÕES DIGNAS!


Que a pandemia não nos torne insensíveis. O Brasil é um país dos mais desiguais do mundo. Deveríamos nos preocupar em que todos tenham acesso ao melhor meio disponível hoje de combater a expansão do vírus, que são as medidas de isolamento social. Auxiliar financeiramente os vulneráveis ajuda-os a se protegerem e, de quebra, move a economia. O dinheiro volta imediatamente aos mercados, farmácias etc. Todos os países democráticos definiram generosos auxílios aos pobres, desempregados, vulneráveis, para que todos possam participar dos esforços coletivos de enfrentamento da pandemia. Dizer que as pessoas pobres "querem" trabalhar pois precisam da renda, é desumano, insensível e hipócrita. O Brasil é país rico, paga juros milionários a uma dívida pública que não sabemos para que serve e nem quem ganha com ela. Ela come uma proporção enorme do orçamento público.
Por que não assumimos juntos o cuidado com os mais pobres, para que todos possam se proteger? E, também, proteger os que trabalham em serviços essenciais que, estes sim, não podem parar, em prol da coletividade.
Para quem não está nem aí com a sorte dos pobres, ao menos pense que pobres contaminados vão continuar transmitindo a doença. Então, se não sabemos ver nossa sociedade como uma unidade solidária, que não queremos fazer sacrifícios em prol dos mais frágeis, pensemos então que esse vírus se espalha tanto que mesmo os privilegiados estarão expostos, pois não há muros físicos entre as classes sociais.
Não caiamos nessa conversa de que muitos "querem" trabalhar. É uma visão desumana da sociedade, é não saber o que é pegar um ônibus cheio na pandemia, é não se importar com aqueles que não têm renda para poder se cuidar. O auxílio emergencial não é esmola, mas direito. E, também, créditos baratos a pequenas e médias empresas. Tudo isso gerido com espírito de cidadania, espírito público e solidariedade social.


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